Querido pai,

Estou lendo um livro muito interessante. Chama-se “Tudo Que Você Não Soube” e é sobre uma mulher que resolve escrever todos os segredos que manteve de seu pai e entregar os papéis ao homem, que se encontra em seu leito de morte, em um hospital.

Fiquei inspirado com isso e resolvi fazer este texto. Não vai lá ser um texto curto, eu bem sei. Como a moça do livro, vou omitir as partes que vivemos juntos. Trata-se de confissões, segredos e lama. Três quase-sinônimos em uma narrativa de cinema, mas não em um texto assim.

Não por pena, mas pelo apelo de continuidade, acho melhor começar pelas confissões mais leves.

Tem uma música da Alanis Morissette que se chama “Sympathetic Character” que, eu juro, foi feita por mim para você. Como diz a letra, eu sempre tive medo de você. Tanto das adagas verbais quanto da dor física mesmo. Eu não gostava do seu silêncio nem do seu volume. Acho que isso que hoje eu chamo de educação nos outros é apenas uma vontade secreta que sejam diferentes de você. Você fala sempre muito alto, tão indelicado. Mas nem é essa a questão dessa música. A questão é que, por ser jovem e sensível, você não achava que certos sentimentos me eram cabíveis. Dor? Rejeição? Intimidação? Ainda bem que eu parei de tentar te agradar bem cedo.

É que você nunca percebeu como eu tive que esconder muita coisa por causa disso, mesmo que estivéssemos no mesmo nível de ódio ou raiva pelo mundo. Sem contar que uma das poucas coisas que admiro em você é a sua capacidade de estar quase sempre alegre e com cara de quem nunca sofreu ou fez ninguém sofrer. Acho isso admirável, mesmo tendo total consciência que isso é resultado de você ser uma das pessoas mais ignorantes que eu já conheci em toda a minha vida.

Eu decidi parar de comer carne em 2009. Já parei totalmente com a bovina e a de frango. A de peixe tive e ainda estou tendo dificuldades (pois eu realmente amo sushi) e a de porco foi fácil, fácil. Sim, eu. Logo eu! Acho que tudo começou nas aulas de biologia da oitava série, estudando o sistema circulatório. Eu nunca mais fui capaz de comer o coração de uma ave. Coraçãozinho, como você diz. Era na hora que estava no prato, ou quando sentia o nervinho na boca, ou quando partia o órgão no meio. Eu me sentia o pior ser humano do mundo com essas coisas. E não só pelo ato de comer, mas olhando pelo lado poético. Estou comendo um coração! Isso não deve fazer bem pra minha alma. E depois vieram outros fatos e outras pessoas que me ajudaram na decisão, mas nessa parte da história você entra pois você é um carnívoro. De marca maior. Gosta de gado, carne, entende de cortes e de churrasco. Aliás, você não é o orgulhoso dono de um bar especialista em fazer espetinhos de carnes? Pois é. Um filho que não come carne não deve ser motivo de orgulho para alguém como você. É igual ter um filho boiola.

Lembra que eu falei sobre confissões mais leves primeiro? Pois é. Repare que maravilha de construção teve o parágrafo acima. É, você leu certo. Mas, caso não tenha entendido, aí vai: eu sou bicha. Bicha, não né? É politicamente incorreto falar assim (e ilegal em alguns países, sabia?), mas eu sou homossexual. Ok, e essa palavra tem consoantes demais – incluindo dois Ss e um X! Que tal falarmos apenas gay? É a palavra ideal, apesar de ter um Y.

Jurei que, depois do show da Madonna, ia te contar sobre isso. Afinal, todo mundo já sabe e, obviamente, você suspeita(va). Antes que você me telefone gritando, já aviso: não, eu não dou a bunda; sim, eu já peguei mulher – ainda pego as vezes pois elas têm algo que homens não têm: seios. Mas elas são muito chatas e metódicas. Enquanto os homens são bobos e, por conseqüência, mais fáceis de lidar, levar, comer e conviver. Isso faz parecer que minha vida se baseia nisso, não? Mas saiba que eu conto nos dedos com quem já fui pra cama, que eu nunca tinha bebido antes dos 18, que eu nunca sequer experimentei nenhum tipo de droga ilegal, que eu tenho um sistema de crenças baseado em Deus e na Cabala e que eu tenho um emprego de verdade. Você tem muito mais motivos para se orgulhar de ser meu pai do que eu tenho para me orgulhar de ser seu filho.

Com amor,

Gabriel

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13 comentários em “Querido pai,

  1. Eu sou a rainha de cartas (de papel) ao meu pai. Perdi a conta de quantas escrevi na vida. Inclusive contei da minha primeira separação através de uma delas. E acho que ainda teria muito a escrever. Eu sempre me impressiono em como os pais nos ferem tanto pela vida, querendo ou não. Gostei muito da sua carta e gostaria de saber a reação do seu pai depois.(L)

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  2. eu estou com este livro da Fernanda Young pra ler a algum tempo, mas ainda não tinha pego.mas caindo aqui por acaso e lendo a carta que vc escreveu, me deu curiosidade de ler… e de pensar o que escreveria na minha…otimo blog!^^

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  3. Gabri, querido. Comecei lendo por causa do filme do Michael Jackson e vim parar aqui. Chorei, impressionada com sua beleza e coragem. Se seu pai não sabe admirar isso, problema dele. Eu sei. Você é demais. Te amo, mesmo de longe. Sempre.

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  4. Ó, chorei.Chorei prq lembrei de algum momento ali pelos meus 14 anos onde eu escrevi de fato uma carta pra minha mãe. Mas não era pra ela ler. Era pra mim apenas. Um desabafo mudo, escrito pra ninguém ler, onde eu derramava meus medos, meus ódios e meus sentimentos de negação e nulidade quanto a ela, e sobre o fato de ser gay e o fato de desejar com todas as minhas forças me matar no dia seguinte. Mas era tarde da noite, e eu dormi em cima do caderno. E acordei com o choro dela, sentada do meu lado na cama, com o caderno nas mãos. Ela tinha ido me cobrir e acabou lendo o que não precisava ler. Depois desse dia eu queimei todas as cartas que escrevi e não queria que ninguém lesse.

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