– Oi, Eric Clapton

Sabe quando, sem nenhum motivo especial, alguém te presenteia com uma coletânea de um cantor que você não conhece direito? Aí você vai ouvindo e, aos poucos, conhecendo a obra completa e acaba gostando. Melhor foi o presente que ganhei de minha mãe: a autobiografia de Eric Clapton.
Antes do livro eu conhecia o que? Acho que nada além de “Layla” e de todas as participações dele em shows beneficentes ou em memória de alguém. E ler sobre o processo criativo e os bastidores de músicas que você não conhece é igualmente fascinante, talvez melhor do que se eu conhecesse. Depois eu vou lá, procuro uma canção ou um álbum e ele soa mais inédito ainda para mim.

Mas, apesar de Eric ser uma lenda viva da música, essa não foi a parte que mais me chamou atenção no livro.

Eu chorei de rir quando Clapton descreveu seu primeiro porre, que rolou em um evento de música: “Chegamos lá no sábado de manhã e planejávamos ficar até domingo à noite. Decidimos ir ao pub para almoçar antes de chegar ao festival. A última coisa que me lembro daquele dia é estar dançando em cima de uma das mesas com um cara que nunca tinha visto na vida. (…) Eu tinha ido com alguns amigos, com a intenção de acampar no bosque perto do festival e, quando dei por mim, estava acordando de manhã sozinho, no meio do nada. Não tinha dinheiro, tinha me cagado, tinha me mijado, tinha me vomitado todo e não tinha idéia de onde estava. (…) Fiquei imensamente desiludido com meus amigos, chocado por terem me deixado naquela situação, sozinho e sem nenhum dinheiro, mas a coisa realmente insana era que mal podia esperar para fazer tudo de novo”. O começo de uma amizade bem duradoura com o álcool.

O que mais me impressionou foi a quantidade de drogas que Clapton usava. Ele descreve umas coisas realmente insanas, como tomar soníferos e manter-se acordado à base de cocaína curtindo o efeito da mistura, de como o pó que ele usava era incrivelmente forte já que feito por um amigo que estudava química, de como ele preferia cheirar heroína (e não injetar, pois ele tem medo de agulhas). Em um ponto da vida (dentro de uma fase que ele dá o título de “Anos Perdidos”), ele estava sempre chapado, e o vício nasceu sem que ele notasse. Ele percebeu que estava viciado quando viu que ia ter que dirigir 300 quilômetros e era melhor estar sóbrio para cair na estrada com o Ferrari.

“Lembro das primeiras 24 horas de abstinência como inferno absoluto. Foi como se eu estivesse envenenado. Cada nervo e cada músculo do meu corpo entrou em espasmos de cãimbra, me enrosquei em posição fetal e uivava de agonia. Jamais tinha sentido dor como aquela, nem quando era garoto e tive escarlatina [doença infecciosa que afeta a língua, a garganta e toda a pele, que sofre alterações como descamação, vermelhidão e coceira]. Não havia comparação. Levou três dias inteiros, sem nenhum fiapo de sono nesse tempo. E o pior é que estar limpo da droga era uma sensação horrível. Minha pele parecia em carne viva, meus nervos estavam todos em sobressalto e eu mal podia esperar para usá-la de novo.”

Depois de uma clínica de reabilitação, Eric ficou melhor, mas começou a abusar do álcool, geralmente e equivocadamente tratado como uma droga mais branda. Ele trocou de vícios. Aterrorizante.

Se ele está vivo agora e still can rock, é quase um milagre. E apesar de toda essas aventuras serem, digamos, normais para a época – e especialmente para uma estrela do rock -, é assustador ler sobre o assunto na primeira pessoa. Não é segredo que eu guardo uma espécie de desprezo (ou rancor?) por pessoas que usam drogas. E lendo a autobiografia de Clapton isso veio novamente à mente.

Um querido amigo que já teve uma fase junkie das pesadas me contou algo que tem muito a ver com minha opinião sobre o assunto. Uma terceira pessoa disse: “Como você quer que alguém se interesse por você e te ame e te respeite se você não faz isso com você mesmo?”. Drogas são uma agressão física e espiritual e quem não vê assim é porque já está envolvido demais na coisa – e estar envolvido nem sempre quer dizer usar ou vender.

Costumo dizer que cheirar pó é coisa de rock star. Se você tem uma vidinha 9 to 5, existem inúmeros baratos mais legais que o que drogas podem causar. Ouvir Eric Clapton, por exemplo.

Para ouvir depois de ler: I Shot The Sheriff – Eric Clapton

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9 comentários em “– Oi, Eric Clapton

  1. Todas as biografias ou autobiografias que li (ou vi, em filmes) sobre estrelas do rock, gringas ou não, giram em torno das drogas e do alcool. Parece uma regra. Nem preciso dizer minha opinião sobre as duas coisas, você sabe a minha escolha de vida. Quem sabe um dia não sai um livro contando a vida no hardcore de uma pessoa livre de drogas?!

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