Eu vi Alanis Morissette

Tudo bem, eu sei que Belo Horizonte não entrou para o eixo dos grandes shows e que a vinda de Alanis Morissette ao Brasil – especialmente à Belo Horizonte – tem mais a ver com lucrar o que o CD não conseguiu e, por consequência, estimular a venda de CDs. Afinal, depois da explosão do álbum “Jagged Little Pill” (1995), que superou as 30 milhões de cópias, a saída dos discos tem diminuído. Tudo absolutamente normal, a venda de todo mundo no mundo da música caiu com a internet e downloads e pirataria e tudo. Mas ela nunca parou de produzir e, apesar da crítica torcer o nariz para algumas coisas, ela nunca deixou de lado a melhor coisa de sua música. Aquele elemento sem nome que mistura particular e universal. E por isso eu nunca deixei de acompanhar Alanis, que está até tatuada no meu braço.

No show, pude ver que aquela suposta raiva do começo da carreira não existe mais. Depois de um momento tenso para colocar minha irmã para dentro do Chevrolet Hall (ela tem 14 anos e a censura era de 16), notei que ela era a pessoa mais nova ali. Afinal, Alanis deixou de ser a porta-voz de meninas em crise existencial pré-adolescente.

Como nas outras apresentações da turnê, a banda entra primeiro tocando a primeria parte de “The Couch”, que é uma música complexa, cheia de palavras complicadas e sem refrão. Alanis canta, mas ainda não está no palco. Quando ela aparece começa “Uninvited”, uma bela canção que foi trilha do filme “Cidade dos Anjos”. Ela está vestida de preto e a platéia grita de uma forma ensurdecedora. Com razão! Os músicos são ótimos e, no instrumental final da música, Alanis balança a cabeça e roda pelo palco, praticamente em transe. Enquanto eu estava praticamente em estado de choque.

Depois começa “Versions Of violence” uma música sinistra do mais recente álbum de inéditas, chamado “Flavors Of Entanglement”. É uma música que ficou ainda mais pesada sem a camada eletrônica apresentada no disco e, assim, a platéia se sentiu ainda mais convidada a gritar bem alto.

Daqui, Alanis volta no tempo e vai direto para a faixa 1 do CD que lhe revelou. Ela toca gaita em “All I Really Want”, que ainda é uma das minhas favoritas. Eu pulo de mãos dadas com minha irmã e não lembro de ter gritado tão alto em nenhum outro show. Estamos num lugar ótimo. Deus abençoe Bruno, meu amigo que chegou mais cedo e pegou lugar na fila. Estamos um pouco mais à direita do palco, calculo que há uns cinco ou seis metros dele.

Chega a segunda parte de “The Couch” e é admirável a quantidade de gente que sabe a letra. Ela é tão complicada e antiga, que acho que a própria cantora se surpreendeu. A banda começa a contorcer o fundo e uma nova música aparece. Dá pra ver a interrogação no olhar das pessoas ao redor, até que “Not The Doctor” se revela. Eu sabia que ela estava na lista, mas é inegável que foi um bom presente. Ela foi cantanda poucas vezes em turnês e me senti feliz por ter ouvido ao vivo uma música tão importante para mim.

Aí começa “Not As We”, uma das músicas novas, também muito carregada emocionalmente. É uma balada tão triste, que dói. Nessa hora a baranga do meu lado subiu no ombro de um amigo para levantar uma faixa que dizia algo como “Alanis, posso te dar meu livro de poesia de presente?”. Não me importei com a grosseria do ato pois ele me permitiu chegar um pouco mais pra frente. Trata-se de uma música intíma e Alanis fez questão de não ver o cartaz. Bem feito.

Depois de tanta melancolia, que tal dançarmos um pouco? Começa a gostosa “Head Over Feet”, que tem uma letra das mais doces e simples. Trata-se de nada mais que uma declaração de amor. Clássico. Todo mundo canta junto. De volta à escuridão, chega a terceira e última parte de “The Couch”, que agora tem um tom um pouco mais animado que a versão original. Depois temos “Sympathetic Character”, que é uma das músicas que mais me tocaram no segundo álbum dela. É bem pesada e triste, e me permite gritar bastante.

Depois vem “Flinch”, que podia ter ficado de fora. É uma canção especial, mas é tão pesada quanto “Not As We” e ela devia ter escolhido uma das duas para o show e não ambas. Sem contar que ela é longa e, se estivesse fora, permitiria que outras duas entrassem. Enfim, a mulher já tá lá cantando, não é? Tratei de não pensar nisso e aproveitar a canção.

“Moratorium” começa. Caralho! Essa música faz muito sentido para mim neste momento da minha vida e, no palco, não havia uma camada eletrônica tão pesada quando a que o produtor Guy Sigsworth colocou no CD – ela já produziu Nelly Furtado, Björk e Madonna. Assim, a letra chama bem mais atenção e, enquanto ela faz refletir, também podemos dançar um pouco. Foi realmente inspiradora essa parte do show.

Lembro de ter virado para minha irmã e dito “Nossa, quando tocar ‘You Oughta Know’, neguinho vai morrer”. Eu fechei a boca e adivinha qual música começou? E sim, neguinho morreu. A galera pulava muito e gritava tanto que quase não dava pra ouvir Alanis. É a música definitiva e todos já passaram por uma traição – assunto que é abordado na faixa. Logo depois começa “Tapes”, mais calma, mas com uma temática parecida, auto-sabotagem. Linda performance de uma das minhas músicas favoritas do novo CD. Ela sai do palco e a produção arruma o espaço para a parte acústica do show.

E ela segue com o clássico “Hand In My Pocket”, que animou demais o pessoal. Alanis ficou sentada, mas essa canção tem praticamente uma coreografia: ela diz “hi-five” e a platéia faz um, ela diz “peace sign” e o mesmo acontece. Uma gracinha de música. Foi um show tão bom que estou sentindo esse texto ficar redundante.

Durante todo o show não existe muito efeito visual. O fundo do palco tem um desenho meio feio de uma grande árvore com galhos secos no pôr do sol, e Alanis, meio curvada, de perfil e com uma borboleta (ou flor?) acima da cabeça. Os telões do Chevrolet não foram ligados a pedido da produção da artista.

Ela segue o set acústico e dedica “Everything” para as pessoas sensíveis. No meio da canção vejo que minha irmã faz parte do grupo: Ela canta com a cabeça para cima e de olhos fechados, com as mãos no ar. A leve maquiagem está borrada de lágrimas. Ver aquilo me deu arrepios, achei muito lindo.

Vamos dançar de novo? Alanis já começa “So Pure” no ânimo da canção, que fala, basicamente sobre dançar. Não é bem um lado B, mas é considerada rara de se ver ao vivo. E, olha só, está no set da turnê que eu vi. Que beleza! Fim da canção, fim do show. Claro que ninguém da platéia se moveu.

Depois de sair do palco, ela volta com “You Learn”, linda canção que contém a frase de minha próxima tatuagem. É, novamente, um grande momento. Impossível ficar melhor? Que nada. Mal termina e ela já segue com “Ironic”. A platéia canta junto tão alto que ela desiste de cantar a primeira estrofe e estica o microfone, fazendo menção à platéia, que corresponde com a letra na ponta da língua. Abençoada seja a construtora ruim do Chevrolet Hall, que fez a arquibancada no lado direito do palco ser mais perto dele que a da esquerda. Assim, Alanis passou muito mais tempo deste lado – para minha alegria e para a do pessoal ao redor, claro.

Alanis se vai novamente. Ninguém mexe e ela volta para terminar o show agradecendo em forma de canção, com “Thank U”, e dedica a música ao público (igual fez em Salvador). Depois, aparece uma luz no fundo onde lemos “thanks” e ela sai dali definitivamente. A banda é ovacionada e as luzes se acendem.

Meu corpo inteiro dói agora. Minha blusa está transparente de tanto que suei e eu faria tudo de novo. Aliás, se for pra mudar algo, daria um jeito de chegar ainda mais cedo.

Perfeito.

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4 comentários em “Eu vi Alanis Morissette

  1. o plano de fundo, achei meio ‘riponga’mas se olhar bem, é uma mistura de todas as fases dela;a flor é do jagged;a pintura dela é do supossed;as arvores e os passaros do flavors ;a cor é do under rug swept.achei simples, mas é Alanis né cara.

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  2. ah, o show de beagá teve so pure! não gosto de vocês de beagá!em sampa, ela podia ter jogado alguma música de lado e enfiado hands clean numa brecha. a única música de que eu senti uma falta lascerante.de resto, um setlist bem amarradinho, o dela (eu também quase chorei em everything, então esta não é música pra “gente sensível” como você desdenha no post. humpf).

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