Quem quer ser um otário?

Um jovem indiano chamado Jamal foi selecionado para a versão do Show do Milhão de seu país e está prestes a ganhar o prêmio máximo da atração. Por ser um pobre servidor de chá em uma empresa de telemarketing, a suspeita de fraude é muito consistente. Para provar que não é seu caso, o garoto começa a explicar o motivo de saber todas as respostas e a edição traça um paralelo entre o jogo e sua vida. Em meio a isso tudo, claro, uma história de amor. Assim eu resumiria “Quem Quer Ser Um Milionário?”, filme de Danny Boyle que ganhou o grande prêmio do último Oscar.

Praticamente toda a produção do longa-metragem é originária de bollywood, a indústria cinematográfica da Índia, que produz mais filme que qualquer outra no mundo. Naturalmente, muito da cultura do lugar é passado para as telas. Todo o terceiromundismo referente a favelas, lixo, pobreza, prostituição e exploração de menores estão lá. Claro que tudo ficaria bem mais chocante se não vivêssemos no Brasil, onde metade do país não tem saneamento básico, mas essa é outra história. Aliás, Boyle flertou bastante com Fernando Meirelles nessas cenas – inclusive, se você achava que ninguém bateria o recorde de takes de favelados sendo seguidos pela polícia depois de “Cidade de Deus”, não perde por esperar. Existem tantos aqui que eu perdi não só a conta, mas também a excitação deles.

A história é boa. Existe um desejo comum em grande parte da humanidade, que é o sonho de uma vida melhor ao lado de um amor. Aqui, Jamal busca um e encontra o outro e as pessoas ao meu redor torciam pelo herói e choravam nas cenas finais. Não me tocou, mas eu compreendo o efeito que o filme tem. Muitos vão discordar, mas o Oscar ter ido para “Quem Quer Ser um Milionário?” foi apenas político. Os filmes de bollywood são os líderes de bilheteria absolutos na Índia e, como eu disse, por lá se fazem filmes demais. Não dava para ignorar aquele mercado para sempre.

Trata-se, portanto, de mais um daqueles prêmios de consolo do Oscar, para mostrar que a Academia não é mais tão conservadora e evitar que a premiação seja apontada como equivocada no futuro – como aconteceu, para ter um exemplo recente, em 2003, quando Halle Barry se tornou a primeira negra a levar a estatueta com “A Última Ceia”, mais que merecido. Mas aí rolou a gracinha de premiar dois negros e escolheu-se Denzel Washington por “Dia de Treinamento” e não Russel Crowe por “Uma Mente Brilhante”. One step too far…

Entretanto, há um acerto real no Oscar de canção original. A batucada indiana que rola nas cenas mais tensas realmente é boa e dá um clima interessantíssimo ao que vemos.

“Quem Quer Ser Um Milionário?” tem todos os elementos que um filme bom precisa ter, mas ele não é tão bom assim. Não há absolutamente nada inédito no enredo cru, na base da história, exceto o fato de que ela se passa na Índia. Cheio de erros de continuidade, eu aposto que, como aconteceu com “Titanic”, daqui três anos todo mundo vai falar que detesta o longa.

Os créditos aparecem, dou um suspiro e me pergunto se eu gostei do que assisti. Gostei. Mas é que eu já vi esse filme antes. Toda a teoria culturológica está lá. Projeção, identificação, acontecimentos romanescos e, claro, o happy ending. Bocejos…

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4 comentários em “Quem quer ser um otário?

  1. Eu também não gostei do filme e concordo com você quando diz que a premiação foi política. Mas aí eu me pergunto: Milk dá de mil nesse filme indiano. Não seria político também premiar como melhor filme um de temática gay? Não adianta me dizer que o prêmio de melhor ator foi por isso, por que nisso eu não acredito. O Sean Penn foi brilhante em sua atuação e foi mais que merecido.Acho que a acadêmia não está tão preparada assim ou tão menos conservadora.

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  2. Até que enfim encontrei alguém que compartilhasse a mesma opinião. Senti exatamente a mesma coisa: filminho legal, fotografia linda, cenário bacana, a Índia e tal, bons atores…mas historinha meio clichê e roteiro comum. Nada demais. Mas é o tipo do filme que é legal assistir, prende a atenção e você quer saber o que vai acontecer no final. Mas, bocejos..

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