O protocolo de preocupação

Quando um amigo não está bem de saúde o que você faz? Pede pra ele te ligar caso precise de alguma coisa e só? Só. Eu não sabia muito bem o que esperar, mas foi isso que aconteceu comigo.

É uma interessante observação de um protocolo de comportamento comum entre as pessoas. Conto nos dedos – de uma mão – quem realmente ficou preocupado com minhas incríveis dores recentes. Existem níveis de gravidade, claro, o grau de preocupação evolui junto com ele, e não é como se eu estivesse com câncer ou coisa nem parecida. Mas pedras nos rins – mesmo quatro – são dignas de preocupação, não?

Sei lá. Nunca tive um amigo que teve isso e não sei como medir – apesar de que, agora que tive, entendo a dor e imagino que serei bem compreensível. Mas o que achei curioso é a repetição exata das coisas. Ninguém pôde oferecer mais do que isso e aí está a cilada da regra. Em que planeta uma pessoa passando mal vai ter a habilidade e perspicácia de ligar para um amigo ajudar caso esteja precisando de qualquer coisa? E que coisas entram nessa lista de “qualquer coisa”? Pois não é possível que a lista seja a mesma para seus amigos, pais e irmãos. É?

Enfim, eis o protocolo: no primeiro sinal de dor ela é só sua, você se vira. No segundo, quando você já foi examinado e aquilo que você teve já tem, também, um nome, o problema continua sendo seu. Mas todos vem perguntar se você melhorou. Se sim, fim. Se não, irão perguntar quando você vai melhorar – afinal, eles tem outras coisas para se preocupar e não podem ter um amigo doente nessa lista. Ele não é prioridade e ainda atrapalha a consciência leve das pessoas. Se a previsão de melhora é a longo prazo, de vez em quando eles perguntam como você está indo. E você responde “bem”. Mas não pense em dar continuidade a isso e se estender demais em explicações sobre sua patologia. Irão te interromper para falar sobre uma comida deliciosa de ontem e a festa sensacional que você perdeu, assuntos bem mais divertidos, convenhamos.

Não acho um absurdo e tampouco fico triste ou revoltado. Eu pago uma pessoa para me ouvir reclamar da vida quatro vezes por mês, não é essa a função desse blog.

E eu não me retiro do cenário também, pois criei uma resposta padrão para quem seguia o protocolo de preocupação. No final, eu praticamente nem falava nada e já mudava de assunto. Pra quê me estender em algo se, no final, enquanto eu falo, o interlocutor vai estar apenas pensando no que vai proferir a seguir?

Mas eis meu momento reclamação: não bastava meu pai, que tem cálculo renal praticamente todo ano, me passar esses genes de merda. Ele não fez questão nem de guardar a data da intervenção cirúrgica e me ligou um dia antes para saber se estava tudo bem. Posso?

É como diz o ditado: “O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso…”

Para ouvir depois de ler: Where You Lead – Carole King

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4 comentários em “O protocolo de preocupação

  1. descobrí que tenho diabetes a pouco tempo e prefiro que nem me perguntem se eu vou bem porque com o tempo eu sei que vou me cansar (mais) dessa pergunta. o melhor a fazer é se acostumar na marra pq não tem cura e isso só vai te incomodar pro resto da vida. também to pagando um moça pra olhar no meu olho ao ouvir meus xororôs e as vezes fingir (ou não) que se importa. ainda não me acotumei. As vezes faz mais efeito ficar de cabeça baixa(rs) e descontar um pouco nos outros. mas voce vai ficar bem. será que alguma torcida adianta alguma coisa? melhoras.

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  2. Quando a realidade desagradável, nua e crua é esfregada na sua cara não dá pra ignorar, não é?Acho que não só as dores viscerais, ou patológicas podem ser listadas aqui: inclusive as dores emocionais são completamente esquecidas, mesmo pelos mais próximos. Aí, ou vc se faz de vítima-sofredor-coitadinho e espera que alguém se compadeça; ou vc segue o exemplo do Gabriel, se virando sozinho e tendo que aturar essas perguntas vazias, sem nenhum interesse na resposta que vai vir…"É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade deruindade." (José Saramago)Abração Gabriel, e tranquilize-se, as dores tendem a diminuir!

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  3. Às vezes eu penso que gostaria de ter alguém para se importar com as minhas dores – físicas ou não – mas aprendi que realmente não faz diferença. A maioria das pessoas não se importa e as que se importam não podem demonstrar do jeito que queremos. É algo que foge do nosso alcance. Eu espero, sinceramente, que as suas dores passem logo (se já não passaram, afinal fazem poucos dias da sua cirurgia, certo?) e que seus soluços não te causem mais sofrimento.A dor pode ser útil segundo algumas pessoas (para nos fazer mais fortes, etc) mas, na verdade, ela só incomoda mesmo 🙂

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