O inimigo sou eu

Sabe quando você lê uma coisa e acha que aquilo vai mudar sua vida? Eu estava achando cada vez mais improvável que isso fosse acontecer comigo aqui, de frente para uma tela de cristal liquido e recheada de textos curtos sobre assuntos irrelevantes. Mas aconteceu e foi sob a forma de “O inimigo sou eu”, reportagem de Eliane Brum para a revista “Época” sobre um retiro espiritual no interior do Rio de Janeiro.

Como um ex-aluno de ioga que está louco para voltar a praticar desde que interrompeu as aulas, o texto me pegou. Mas imagino que a curiosidade de se aventurar numa experiência dessas diz respeito a mais pessoas do que parece. Ouvir conselhos de monges, sábios pelos olhos até dos mais céticos, são oportunidade únicas.

Isolados do mundo, a primeira tarefa do grupo era meditar e apenas observar a respiração, de olhos fechados, sem interferir. A agenda era rígida e imutável: das 4h30 às 6h30, meditar; das 6h30 às 8h, tomar café-da-manhã; das 8h às 11h, meditar, com um intervalo de dez minutos; das 11h às 12h, almoçar; das 12h às 13h, inscrever-se para fazer perguntas privadas ao professor se quiser; das 13h às 17h, meditar, com dois intervalos de dez minutos; das 17h às 18h, lanchar; das 18h às 19h, meditar; das 19h horas às 20h15, escutar uma palestra (na mesma posição de meditação); das 20h15 às 21h, meditar; das 21h às 21h30, fazer perguntas públicas ao professor. Depois, preparar-se para dormir e, às 22h, a luz se apagava. E tudo recomeçava às 4h da madrugada do dia seguinte, com um sino.

Ela narra a louca vontade de ir embora misturada com a curiosidade de saber como aquilo acabava e descreve a meditação da maneira que sempre quis e nunca achei palavras. Muitos pensam que meditar é descansar e não é nada disso. É um exercício, e dos mais pesados, para a mente. Para alguns, ficar isolado do mundo por 10 dias sem direito a comer carne, tomar remédios, falar e fazer sexo seja uma tortura. A tais pessoas, aconselho ler o texto na íntegra.

Uma das preciosas lições é que vivemos numa época onde as pessoas acreditam que é possível viver sem sentir nenhum tipo de dor física ou psíquica. Basta uma fincadinha na cabeça ou um mero ar nostálgico e já corremos para tomar uma aspirina ou um antidepressivo. Como se felicidade eterna fosse um direito e, o pior, algo alcançável.

O tipo de meditação experimentado aqui chama-se vipássana, baseada no conceito elaborado por Buda de que cada reação de aversão ou cobiça causa uma espécie de nó em nosso corpo. E só removendo – fisicamente – esses nós vamos parar de sofrer. O exemplo é prosaico: “Eu adoro comprar sapatos. (…) O que busco é repetir a sensação que sinto ao comprar um sapato. Não percebo que, por mais que gaste meu salário tentando transformar uma sensação prazerosa em permanente, ela vai passar e vou ter de gastar mais dinheiro para repeti-la. É cobiça, é apego. É ilusão.” Entendem?

Nenhum dos conceitos é estranho para mim, mas fazia tempos que eles não apareciam na minha frente e eu me permiti esquecê-los. O desafio é mantê-los na mente sempre. Pois é fácil ver a beleza do mundo meditando em uma colina gramada ao pôr-do-sol. Complicado é aplicar esses conceitos com um deadline na cabeça ou um parente no hospital. E isso é um desafio e tanto. Acho que vou me inscrever para o próximo grupo.

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2 comentários em “O inimigo sou eu

  1. Tenho um amigo muito envolvido com tudo isso e tomei a liberdade de enviar o seu post pra ele! Inclusive ele tem me ajudado com algumas dicas e tenho comcado a trabalhar alguams coisas pequenas, como a propria respiracao (e nao eh nada facil!) e estou vendo se consigo entrar na ioga aqui (mas custa muito)… De qualquer forma tenho me interessado bastante por essas relacoes entre corpo e mente.

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