O País das Maravilhas de Tim Burton

Apesar de ter gostado muito dos filmes, uma coisa me incomodou em “Sherlock Holmes” e em “Onde Vivem os Monstros”. Os dois dão sinais de não serem a primeira opção de seus diretores. Era como se eles tivessem um cadernão de ideias soltas anotadas e aí buscaram livros com personagens já prontos para incorporar tais pensamentos. Era o que eu achei que aconteceria com a versão de “Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton.

Mas isso não aconteceu – pelo menos não de forma tão categórica.

Ele pegou os dois livros de Lewis Carroll com a personagem – “Alice’s Adventures in Wonderland” e “Alice Through the Looking Glass” – e fez uma outra história. Como era de se esperar, Johnny Depp é ninguém menos que o Chapeleiro Maluco. Qualquer fã de cinema sabe muito bem que esse segundo adjetivo é a cara de seus melhores papéis e, talvez por isso, já não seja novidade.

Com uma semi-desconhecida como Alice – a australiana Mia Wasikowska, que não parece somar nada à narrativa – achei que Depp seria o centro das atenções. Bastou Helena Bonham Carter aparecer como a Rainha Vermelha para eu mudar de ideia. Ela tem uma maneira muito peculiar de fazer o tipo mandona e rouba todas as cenas em que está presente.

De outro lado, aparece Anne Hathaway, como a Rainha Branca, uma hilária sátira à delicadeza excessiva das princesas em filmes, e vários outros personagens realmente muito bons – com destaque para o Gato, com voz do ótimo Stephen Fry.

Mas se Burton alcança a glória com o uso do 3D, com o ar sombrio à uma história anteriormente mágica, com figurinos e cenografia – a cena onde Alice encolhe e diminui várias vezes é um desafio de escalas e planos de distância –, ele peca nas cenas de ação, que são previsíveis e rápidas. Mas a gente se importa? Não muito.

A linha entre o real e o feito por computador é imperceptível em vários momentos e apenas Burton pode transformar “Alice” em um filme de aventura que não parece ser algo aproveitador – lembrando que estou analisando apenas o filme e não os milhares de produtos lançados sobre ele.

O cenário criado pelo diretor para continuar a história de Carroll faz jus ao que ele escreveu anteriormente. Burton até cita o manuscrito original da história – chamado “Alice’s Adventures Underground” – e faz muitas piadas, especialmente visuais. Apesar disso, ficaram de fora alguns trocadilhos e lições de moral através da lógica, como “Você poderia me dizer, por favor, qual caminho eu devo seguir?”, “Isso depende muito de onde você deseja chegar”, até o chá maluco e o desaniversário.

Daqui do meu modesto ponto de vista, muita gente vai se decepcionar com a história, principalmente quem é fã de longa data dos livros ou leu correndo antes de ver o filme. Talvez tivesse sido melhor, para o público e para a própria Disney, fazer uma versão da história original e não aumentar nada. A narrativa de Tim Burton é mesmo um espetáculo agradável aos olhos, mas também é fria e previsivelmente exótica.

Mesmo que isso signifique longas filas e chateação de púberes ao redor, “Alice no País das Maravilhas” merece ser visto no cinema. Não é o melhor trabalho de nenhum dos envolvidos na produção, mas está longe, muito longe, de ser vergonhoso.

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2 comentários em “O País das Maravilhas de Tim Burton

  1. Quê que é isso hein, Gabriel? Tô levantando da cadeira e indo no cinema depois dessa… Para deixar mais fantástica a história da Alice, digite no Google e leia: "Para Maria da Graça" de Paulo Mendes Campos, e olha que este texto já fez muitos aniversários. Abs.

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