Clipes de papel

Dia dos Namorados – além de poder ser a data internacional da expectativa frustrada quanto aos presentes – é a data onde solteiros e solteiras se reúnem para brindar a solteirice. É curioso que uma data essencialmente comercial mexa tanto com o orgulho de todas as pessoas. Pela cidade inteira, no dia 12 de junho, tem eventos apenas para casais ou apenas para solteiros. Precisa mesmo ser um versus o outro?

Acho que estar acompanhado é mostrar que você tem atributos suficientes para ter alguém os querendo apenas para ela, é fazer parte do famigerado e clichêzento “final feliz” de mais da metade dos filmes de Hollywood. Mas é também fazer parte daquela parcela de gente careta, que não frequenta todas festas ou os restaurantes da moda. Todo mundo tem histórias de amiga que é a melhor companhia do mundo, mas que some quando começa a namorar; ou aquele amigo que simplesmente perde todo o seu senso de humor quando ao lado da noiva.

No final das contas, todo mundo sabe que é completamente e perfeitamente possível viver feliz sozinho desde que esta seja uma decisão espontânea e movida por um desejo genuíno. A solidão imposta à revelia pelas contingências do destino é tratada, especialmente hoje em dia, como uma catástrofe existencial. Bobagem, não? Mas, vendo o cenário por inteiro, estar solteiro é uma coisa altamente celebrada e que movimenta bilhões em academias, salões de beleza e lojas de roupas – claro que não estou dizendo que todo mundo frequenta esses lugares apenas para ficar atraente para outras pessoas, mas você sabe de que tipo pessoa estou falando.

Então é o seguinte: de um lado ficam casais felizes e de outro os solteiros, divididos entre os orgulhosos e os envergonhados. Mas não devia ser assim. Estar acompanhado não é, por conta própria, motivo nenhum para se sentir superior. Vivo dizendo que categorias em que você não teve poder de escolha não podem abrigar orgulho nem vergonha – como nascer homem ou mulher, hétero ou gay. E, nesse caso, a regra acaba também se aplicando, mesmo que a solteirice seja de ocasião, e não opção. Quem disse que todo casal é feliz? Quem disse que todo solteiro é infeliz? Ficar o “mês dos namorados” inteiro falando como você ama estar solteiro pode ser sinal exatamente do contrário…

A ideia do amor romântico, do feriado debaixo das cobertas e do delivery de pizza engana muito. Estar junto dá um trabalho danado e esses momentos são, na verdade, raros. Alguém me disse que “estar com alguém é um trabalho árduo fantasiado de aconchego”, adorei a frase. Da mesma maneira, a ideia do solteirão bon vivant, que pega todo mundo e cada dia está com outra pessoa sem ligar a mínima para sentimentalismo, é falsa. Além de financeiramente cara. São poucos os que conseguem passar a vida toda assim.

Dia 12 de junho é um dia como outro qualquer em escala global. Igual o dia que você passa no vestibular, tem um filho, quebra a perna. Um dia normal para a humanidade. E, caso vocês não saibam, casais e solteiros podem sair e se divertir em qualquer outro dia.

O pior é que tudo se inverteu e já conheci um casal que se sente intimidado, não querendo comemorar o Dia dos Namorados para não ofender os amigos solteiros. Que preguiça! Gente, comemore. Primeiro pois, quando solteiros, ninguém tinha esse cuidado com você; segundo pois, afinal, qual outra data namorados têm estabelecida? Natal tem família, aniversário tem amigos. Dia dos Namorados pelo menos é uma coisa “oficial de casal”, entende? Torcia o pescoço, mas só namorando percebi que a data, mesmo que apenas comercial, se torna especialmente interessante para casais adultos e gente casada. É que programinhas e presentinhos todo aniversário de mês de namoro é coisa de adolescente e, com a maturidade, esses mimos podem ir sumindo aos poucos, mesmo que o sentimento de um pelo outro continue intacto. Um simples efeito colateral do excesso de intimidade.

Para ouvir depois de ler: Elastic Love – Christina Aguilera

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