Quem é você no dia?

Querem me fazer acreditar que todos os gays são obrigados a saber o que se passa no que chamam por aí de mundo pop. Quer dizer, estou dentro do clubinho se assistir novela, ler sites de fofoca, sair para boates todos os dias e saber cantar as músicas de uma cantorazinha menor de idade que usa um cifrão no lugar da letra S.

Se você ainda não viu o último tombo da Shakira, no show em Lima, você não é ninguém na noite. Ninguém vai querer conversar com você, não importa os filmes e livros clássicos que passaram pelos seus olhos, essa é a informação relevante do dia, a nova tatuagem da Rihanna. É rei do mundo purpurinado quem tem vasto conhecimento nesse raso mundinho.

Isso me irrita. É que depois de virar madrugadas lendo “Os Miseráveis” e de ouvir Beatles ainda em vinil, eu me sentia um idiota ao ler “Poliana” e ouvindo Britney Spears. Saber diferenciar bom e ruim pode não ser suficiente na hora do gosto e não gosto. Mas cheguei à conclusão de que cada coisa desperta algo diferente em mim e que há espaço para tudo se eu souber hierarquizar de forma clara aquilo que contribui para o meu caráter e aquilo que é pura diversão efêmera, como lasanha congelada.

É um absurdo colocar todos no mesmo pote, mas me vejo tão rodeado de gays que só se preocupam com modinhas que temo por eles no futuro. É muito mais social, eu acho. Afinal, os que não souberem tratar de certos assunto são excluídos de uma minoria que já não é assim tão incluída na sociedade. Ou seja, chegamos num ponto do aceitamento social do gay entre os gays onde ele precisa esconder seu José Saramago debaixo da sua blusa da Mariah Carey. É uma maluquice isso.

Alguém me salva?

Não é que eu não me divirta entre eles. Eu ouço Lady Gaga, eu gosto de dançar, eu uso skinny jeans. Mas há tão mais do que isso no mundo, meu caros! Tão mais!

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8 comentários em “Quem é você no dia?

  1. Olha, como um apreciador de música em geral (pop, indie rock, house, whatever), não posso negar que eu gosto de uma ou outra música da Rihanna ou da Katy Perry (que ilustram o post – ainda que esta não seja a discussão principal).Mas concordo quando você fala que os gays se enfiaram nesse gueto, onde informações como as citadas são mais importantes do que conteúdo de verdade. Assim como a maioria dos héteros criou o mito de que homem precisa gostar de futebol e comer o maior número de mulheres que vir pela frente.Mas no final o que importa é que você não é assim. É o que eu penso ao menos a meu respeito… Deixo cada um no seu quadrado, sem deixar de ser quem eu sou.E sim, tbm detesto a Ke$ha. Raiva dessa fulaninha que fica se fazendo de bêbada… rs

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  2. Chamo isso de apartheid social (inclusive, me ocorreu jogar no google. Achei mais pessoas divagando a respeito). Por isso me sinto tão incomodado de ir na boate domingo. Mas ok, eu respeito.Tô um abraço, deixa eles pra lá!

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  3. Realmente quando frequento lugares gays, percebo que todos se juntam por gostarem da mesma coisa de artista pops e quando falo que gosto de MPB, musica erudita e rock passam a me encarar de forma diferente como se eu não pertencesse a este mundo ou não deveria estar entre eles; mas gosto de alguns artistas pops que me chamam muita a atenção pela musicalidade diferente que é oferecida. muitas vezes o diálogo é dificil pelas primeiras julgações que fazem a respeito de todos, mas de vez em quando me deparo com pessoas legais que consigo sustentar um bom diálogo a qual quero é muito agradável. de vez em quando precisamos divertirmos com algum lazer que seja mais libertador, feliz ou seja gay.

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  4. Por um lado, fico feliz em saber que esse tipo de sensação não acontecia somente comigo. Tenho uma conduta música e comportamental que é bastante distinta dos gays que normalmente estão em meu círculo de amigos. Enquanto eles curtem suas Lady Gagas, Beyoncés e Rihannas, eu me identifico bastante com Björk, Massive attack, Portishead, todo o gênero trip hop, vive la Fête, e o cenário do Eletro, além de outras músicas eletrônicas do cenário alternativo.Mas isso vai para além do conceito musical. Sou um quase-arquiteto-formado e percebo que quanto mais afastado da cultura pop norte-americana, mais excluído você acaba ficando. Ou seja, quanto mais vazio de conteúdo, melhor.Mas isto é o núcleo pop da minha novela. Há também um outro núcleo mais cult (como dizemos aqui, comsëito) e que nos reunimos para conversar sobre gostos similares, discutir visões, artes e whatever. Aí minha sensação de exclusão desaparece e eu me encontro. Acho que é uma questão de deslocamento.E ela não ocorre apenas no cenário gay. Pelo menos no interior de São Paulo, o conceito hétero está relacionado a pessoa que gosta de tomar cerveja, fazer comentários machistas e ouvir música sertaneja, seja universitária or something.

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