Desconhece-te a ti mesmo

Todo mundo já fez perguntas filosóficas para si mesmo. Final de ano e aniversário são boas datas para isso. De onde viemos, para onde vamos e essas merdas todas. “Quem sou eu?”, a maior delas (e a mais importante do ponto de vista prático), talvez seja a única que possamos responder. Não é fácil, mas é possível.

O mundo está cheio de respostas. Eu sou brasileiro, filho, ateu, estudante, heterossexual, judeu, dentista, advogado, pai, gay, negro, irmão, afilhado, índio, chefe, blogueiro, the walrus.

(Quando você era criança, por exemplo, sua mãe era só sua mãe. Aí você vai crescendo e vendo que ela é a esposa do seu pai, a empresária de tal lugar, a amiga de não sei quem. Mas é claro que esses papéis sociais não são as respostas que as pessoas buscam. Aliás, elas atrapalham um pouco a busca)

Mas algo em você não é a representação desses nomes e categorias que estamos fadados a ocupar. Outro dia ouvi uma frase ótima: desconhece-te a ti mesmo. Trata-se do inverso do aforisma grego citado por Platão, conhece-te a ti mesmo. Ou seja, livre-se do que você sabe sobre si e vá em busca de auto-descobertas.

Afinal, o que conhecemos da gente são esses rótulos que, com prazer, deixamos os outros colocarem na gente. Sabe quando seu pai te xingava dizendo que, se você nunca experimentou beterraba, como sabe que não gosta do sabor? Você é o que você faz quando não está sequestrado por um ideal. Você é o que você gosta (ou quer gostar) e faz (ou quer fazer) por você, para você, sem se importar em como isso será visto de fora.

Por isso, o elogio à diferença pode ser tão perigoso quanto sua supressão. Ao invés de se orgulhar, de se envergonhar ou de recriminar, devíamos nos sentir livres para apenas ser. Aí você vai se permitindo de tudo e concluindo o que acha ser bom ou não para você. E, é óbvio, o que é ruim para você pode ser exatamente o que o outro gosta ou precisa e, portanto, você não deve opinar naquilo. E vice-versa.

Infelizmente, hoje, essa ideia não é possível em sua totalidade. Existem instituições muito, mas muito grandes mesmo, das quais não podemos simplesmente fugir – uma “vida alternativa” é possível sempre com um número mínimo de concessões. Viver fora dessas instituições e modelos pré-definidos é uma loucura, mas dentro, se traindo, mais ainda. E o dilema é esse. Fazer um acordo de paz com o que está instituído versus aguentar a angústia de não ter aquilo que você está abrindo mão.

Desista das tags da vida real e vá andando, vá seguindo seu caminho enquanto não passar por completo ou pelo menos diminuir muito aquela dor que sinaliza que você não está em casa.

Há um provérbio, não sei de onde, que diz o seguinte: ninguém se banha, num rio, duas vezes com a mesma água.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s