O pop tem razão: "Human Behaviour"

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?”. Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem sentido pra mim.

A letra é curta, então acho que rola de colocar a tradução aqui. De forma direta é ainda mais fácil ver como a música é uma interessante crônica do comportamento humano, mesmo que de forma bem resumida.

“Se um dia você se aproximar de um humano e do comportamento humano, esteja preparado para ficar confuso. Definitivamente, não há lógica para o comportamento humano. Mas, mesmo assim, é tão irresistível! E não há mapas e um compasso não te ajudaria nem um pouco. Eles são terrivelmente temperamentais e aí de repente ficam felizes. Mas, oh, ser envolvido na troca de emoções humanas. É sempre, sempre satisfatório.”

Não é ótima? Esse single, que é o primeiro da carreira solo de Björk fora da Islândia, tem um clipe que condiz com a música, que caracteriza as emoções humanas de um ponto de vista animal, dirigido por Michael Gondry, mas também é baseado em memórias infantis da cantora. Aliás, a melodia – que ganhou um sample de Tom Jobim, “Go Down Dying” – foi criada pela moça quando ainda era criança, mas descartada. “Eu estava em bandas punks e ela não era punk”, disse Björk na época.

Essa coisa de planejar vingancinhas é coisa de novela – e de alguns escorpianos, diga-se de passagem – mas, em grande parte dos momentos as pessoas não tem noção do resultado de suas próprias ações. Todo mundo sai por aí agindo como se o que estão fazendo e falando hoje não afetasse o amanhã. Essa cegueira é causada pelo tempo, que distancia bastante a ação da reação. Acho que Björk canta sobre essa falta de lógica que, ao mesmo tempo que nos distancia, nos atrai.

Mas também sobre o que se chama de natureza humana, claro. Estudamos que seres humanos são seres de cultura, não de natureza. Não há, para a psicologia, uma natureza humana. O que uma pessoa considera certo pode ser extremamente errado em uma cultura diferente da sua. O fato é que não existe esse tal de instinto na gente. Mães que matam filhos, por exemplo, são vistas como aberrações em várias sociedades, mas quem disse que elas precisam amar incondicionalmente suas proles? Isso não acontece no mundo animal: um filhote doente é deixado para trás pelo rebanho, um filhote que nasce morto é comido pela mãe. Os exemplos são inúmeros.

Mas há uma “brecha” nesse conceito chamada de pulsão, que diferencia-se daquele gerado por decisões. Ele é aquele gerado por forças internas inconscientes, alheias ao processo decisional. Pessoa não sabe nadar, mas vê alguém afogando e consegue resgatar; pessoa medrosa tira a arma da mão do bandido quando se vê ameaçada – e outras coisas assim. Ao contrário do que é dito, isso não é instinto, é pulsão.

Enfim, o ser humano é o animal mais imprevisível de todos. Não há como pré-determinar muita coisa sobre ele. Não há nada certo na natureza dele. Irmãos gêmeos criados em países diferentes serão adultos completamente diferentes – e até crescendo juntos isso pode acontecer! O número de possibilidade de desejos e realizações individuais não tem fim.

E não há mapa. Por isso é tão fascinante – e corajoso, vai – interagir com eles e se envolver.

Anúncios

2 comentários em “O pop tem razão: "Human Behaviour"

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s