Vivendo sua vida w/ 689 others

Numa conversa essa semana, descobri que uma amiga tirou nada menos que 4 mil fotos do Vaticano quando esteve lá. Quatro mil! Precisava? É pra decorar cada detalhe do lugar ou é pra voltar pro Brasil e mostrar cada detalhe pros que não foram? A experiência tem que ser validada pelos outros?

Acho que qualquer resposta merece atenção: se em uma viagem você pára a cada segundo para uma foto, deixa de experimentar aquele lugar um pouco. E abastecer seu Facebook com to-das as fotos mostra que você ou é muito narcisista ou que quer que sua vida online represente com fidelidade a sua vida real. E isso não precisa acontecer.

* * *

O caso das fotos no Vaticano parece exagerado (e é mesmo), mas todo mundo faz isso o dia todo: porque raios as pessoas compartilham nas redes sociais o restaurante onde estão, a comida que cozinham, quantos quilômetros correram? Porque existem tantos sites para você contar pros outros os filmes e seriados que viu, os livros que leu, shows que foi, músicas que ouviu?

Acho que um dos motivos é falta de assunto mesmo: a agonia de ver todo mundo “postando alguma coisa” e a pessoa sem nada pra dizer. Outro motivo, ao meu ver, é porque a experiência se perdeu. Para muitas pessoas hoje, fazer algo só por fazer e só para elas mesmas não é suficiente; elas precisam divulgar, todo mundo precisa saber o que ela gosta de fazer. Como se espalhar por aí que você está se divertindo garantisse que você está se divertindo mais. Creio que há uma gritante diferença entre manter registros pra você e publicar esses registros para o mundo, entre dizer apenas que viu um filme e dizer o que achou do filme.

Ao mesmo tempo que eu compreendo e muitas vezes participo desse tipo de comportamento, acho algumas situações um bocado estranhas. A espontaneidade está se perdendo? Pois acompanhar a vida online de alguém ainda está bem longe de conhecer esse alguém de verdade, em sua intimidade e essência.

Resultado: fica tudo no meio da caminho. Por exemplo: você vai no aniversário de um amigo, metade das pessoas você conhece, a outra metade nunca te deu um “oi”, mas já tem uma opinião sobre você (aliás, o que as pessoas mais têm nos dias de hoje é opinião formada sem conhecimento). O ponto de partida da relação já está todo bagunçado; não existem surpresas nos assuntos primários (que deviam despertar interesse) e aí não há interesse nos assuntos que deveriam ser surpresas. Você já sabe, por alto, muito sobre aquela pessoa e já a conceituou e fim, não há espaço para novas informações.

Claro que estou exagerando, mas quem vive nesse mundo sabe do que estou falando.

Outros exemplos: perceber um erro de português absurdo vindo de uma pessoa que fala o tempo inteiro dos milhões de livros que leu. Ou encontrar pessoalmente com alguém que posta todos os dias que vai à academia e ver que a pessoa não emagreceu nada. Esse oversharing das redes coloca esse tipo de lupa julgadora nas pessoas – e o pior é que são elas que colocam essa lupa na própria cabeça.

Já falei disso em um texto anterior: à medida que a tecnologia se torna mais onipresente, nossa relação com ela se torna mais íntima, conferindo-lhe poder de influenciar decisões, humores e emoções. Mas é só se a gente deixar!

Suas redes sociais não precisam (e nem devem!) ser um reflexo fiel da sua vida real o tempo todo, listando o que você faz ou onde está e com quem. Um bom exercício em qualquer situação é aquele joguinho infantil dos “porquês”, ir se perguntando o motivo de cada passo que você dá na vida. O mesmo jogo serve pra ser feito antes de cada upload de foto, cada status novo. Que objetivo você quer alcançar tornando pública aquela informação pessoal sua?

Passou da hora de muita gente por aí amadurecer nesse sentido, saber separar as coisas. É uma campanha que pode parecer antiquada, mas poxa. Você está vivendo sua vida para você ou para os outros?

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2 comentários em “Vivendo sua vida w/ 689 others

  1. […] Para muitas pessoas, atualmente, fazer algo só por fazer e só para elas mesmas não é suficiente. É preciso divulgar, validar pelos olhos dos outros. Quanto mais gente ver que me diverti, mais diversão eu tive. Cada um dosa à sua maneira, mas de forma geral acho esse movimento uma pena. Tira as pessoas do presente um pouco, e cria uma memória que não existiu. É o cara que sente como se tivesse lido o livro depois de tirar foto da capa, é a menina que sente que já malhou o suficiente hoje depois de tirar foto com roupa de ginástica no espelho da academia. É viver sua vida para os outros. […]

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  2. […] O exagero de “registros para o futuro” tira as pessoas do presente um pouco, e cria uma memória que não existiu. É o cara que sente como se tivesse lido o livro depois de tirar foto da capa, é a galera que vai pra grade do show mas vê tudo pela tela do celular pois filmar é mais importante, é a menina que segura sua fome mais alguns minutos pra poder tirar uma foto do seu prato. É viver a sua vida para os outros. […]

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