Do fim

“Como você se despede de alguém que achava que não podia viver sem?”, pergunta-me Norah Jones em “Um Beijo Roubado”. “Eu não te amo mais. Adeus”, responde Natalie Portmam, em “Closer”.

Sua vida vai mudar completamente, rumos que você não tinha imaginado. Terminar um relacionamento com quem você achava que era sua alma gêmea muda sua vida, sua maneira de ver as coisas e as pessoas. Eu falo por experiência.

O começo é a pior parte. Eu precisei de cafunés de uma amiga e muita comida gordurosa. Dormimos abraçados. Eu tinha lágrimas no rosto e bafo de batata frita na boca. O mês seguinte foi o mais cinza, meio borrado, sem sentido e passei por ele meio entorpecido e tentando me elevar. Fingir que se está bem dá a sensação que ficaremos mais rápido. Não funciona sempre, claro. Você vira um balão e esse fingimento te enche de ar. Aí você ouve o nome da pessoa ou a vê na rua, de dentro do ônibus, e uma agulha te espeta bem no meio. E você solta todo o seu ar e, antes de murchar e parar no chão, fica rodopiando pelo cômodo.

Aí, passa. Nas histórias que ouço, os amigos se dividem entre as partes do ex-casal ou tentam equilibrar as coisas incluindo cada hora um em seus programas. Comigo não foi assim. “Perder” é uma palavra forte, mas foi o que praticamente aconteceu com quase metade dos meus. A carência nesse momento aumenta, pois as perdam se somam.

Aí, passa. E você encontra esperança em romances curtos, em ver que você ainda é desejável, em sexo casual e banhos longos. E você lembra daqueles amigos que você via com menos freqüência. Eles ganham mais importância enquanto você caminha com eles e redescobre os talentos deles, a generosidade deles, as psicoses deles. Você está confortável novamente. Não que o planeta seja melhor, mas você vê a sacralidade do mundo novamente.

Aí, passa e você tem as recaídas. Mas elas não têm mais o rosto do antigo amor. São mais por não ter um rosto substituto. E você espera e espera. Romances curtos, sexo casual e banhos longos não fazem mais efeito. Você anda sozinho pela rua de nariz empinado, mas dorme abraçando seus joelhos. Alguns amigos voltam. Lentamente, bem diferentes, mas voltam. Você os perdoa, você perdoa todos. Mas não adianta, tudo mudou e em breve eles irão sumir de novo, por outros motivos – vocês são todos pessoas diferentes agora. São caminhos diferentes também e você deve aceitar isso. Quem sabe o ponto de chegada seja o mesmo? Mas só te resta torcer.

Você come coisas saudáveis agora e ouve baladas eletrônicas de noite. Sai de casa e bebe às vezes. Sorri mais. Revê seus filmes favoritos, aprecia mais suas cobertas vazias cheias de você. Volta a fazer a barba todos os dias e a usar meias limpas. Se pega gritando o refrão de uma música numa noite sozinho em casa e, quase sem querer, percebe que superou.

Pessoas vão, estradas passam. Quando você menos espera, e de onde você menos espera, surge um outro alguém – é, a felicidade nos vulgariza e a vida é mesmo um clichê. Não necessariamente seguindo alguma ordem, sobe e desce sem parar a sua esperança na vida, no amor, na humanidade e na monogamia. O equilíbrio vai vir com alguém que vai te encher dessas coisas e você vai sim sucumbir às grandes máximas da vida familiar sem perceber. E vai ser feliz.

Texto de junho de 2008

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