De tijolos, com gentileza

Fui dessas crianças que brinca e fala para o vazio. Gesticula, inventa histórias, cria personagens. A pouca interação com coleguinhas e vizinhos me fez expert em pular de escadarias, conversar com cães e desenhar com canetinha, mas me poupava de conflitos criativos (o que pode explicar minha cabeça dura de hoje) e me deixou inapto para certas interações sociais que demorei anos pra consertar, apesar de ainda detectar certas sequelas. Era o prazer e o sofrimento de estar sozinho.

Depois de alguma terapia e alguma yoga, percebi que me foi muito rico esse tempo. Ele me permitiu não pousar nos outros minhas pequenas alegrias do dia a dia e foi o começo de uma longa jornada que todo mundo vai encarar uma hora ou outra chamada viver consigo mesmo. E quanto mais cedo se começa, melhor.

Mas de alguns anos pra cá estar sozinho era o tempo que eu tinha enquanto o namorado estava na casa dele, enquanto eu não estava com meus amigos, quando a porta do quarto me isolava da minha família ou colegas de apartamento – sim “colegas de apartamento”, me recuso a usar a expressão “roommate”.

O que quero dizer é que eu validava minha solidão apenas pela não-companhia de terceiros. E pra quem fantasiava-se um super esteta da solidão, isso foi meio chocante. Fiquei me perguntando se foi tudo uma mentira. Esses anos todos de análise, por exemplo, me elevando à décima potência em matéria de zelação de ermitas, todo esse gosto peculiar por música islandesa e essa vontade incontrolável de cortar o próprio cabelo (parte pela economia de grana, parte pela preguiça de interagir com barbeiros e cabelereiros). Muitas perguntas aparecem na cuca quando você deixa sua cidade natal, emprego, casa e amigos.

Segui pensando e vi que não estou isolado na minha nova cidade, muito pelo contrário. Uma amiga que fez um intercâmbio para um país esdrúxulo da Europa escreveu que naquele ano se tornou a melhor versão de si mesma. “Quando você mora em outro país, você não pode ser uma pessoa azeda, é uma questão de adaptação. Sua família sabe que você tem um gênio difícil, na sua casa todo mundo já sabe que você acorda de mau humor, seus amigos estão acostumados com o seu jeito sarcástico… Mas para fazer novos amigos você tem que se livrar de toda essa negatividade para ser bem vista, e acolhida”.

Não é exatamente assim que me sinto, pois aqui tudo é novo mas muito familiar ao mesmo tempo. Mas na questão social tem muito a ver. Eu conheço gente aqui, mas todo mundo já está em sua unidade e aí tem eu do lado, quase de penetra, quase de carona – às vezes de carona mesmo, literalmente. Eu sempre sinto que estamos saindo Fulano, sua namorada e eu; Ciclano, seus 17 amigos e eu. Não estou saindo com minha turma, meus amigos. Pelo menos não por enquanto. É uma questão de tempo, afinal.

E perceber isso me fez ver que estou cercado de pessoas queridas, que ainda assim sinto falta da existência de um grupo mais sólido, mas que não sofro. Também sinto falta dos meus amigos de lá e é ruim não ter com quem dividir um comentário sobre uma cena do seu filme favorito ou uma garrafa de vinho, mas sei que não ficarei assim para sempre, então me permito relaxar. E esse amadurecimento talvez passasse despercebido se eu não tivesse jogado tudo pro alto e vindo pra cá. Fazer mudanças exige algum nível de auto conhecimento, especialmente num caso onde você vai precisar passar mais tempo com você mesmo – e isso pode ser insuportável pra alguns – e é justamento nesse aspecto que estou confortável.

Foi muito bom ver isso. E é muito bom também notar as poucas pessoas que conseguem realmente perceber essa sua fase e te deixar, com gentileza, menos sozinho. Construir a casa de tijolos, do tipo que resiste ao ser atacada por sopros de lobos, pode ser mais complicado e demorado, mas é esse tipo de construção que eu quero.

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