Interrompendo David Bowie

(De vez em quando, vejo um telefone que pode ser interessante em uma placa pela cidade. Um delivery de uma comida que gosto, um apartamento pra alugar. Na pressa, jogo o número no celular com títulos sem sentido. E um dia, com nada para fazer, estava deletando esses números, aproveitando para apagar da agenda também pessoas que eu não converso mais – e aí passei pelo seu telefone. Tive dúvidas. Jamais ia ceder à vontade de ligar, mas não sei se seria o caso de apagar. Na verdade, aposto que você já mudou de número, de aparelho, de cidade, de país. Mas gosto de deixar aquela sequência numérica salva ali. Me dá algum tipo de segurança ou sensação de pausa. Só minha terapeuta pode explicar. Mas suspeito que é uma vontade de que, quando você ligar um dia, eu saiba quem é que está ligando antes de atender e possa, talvez, não atender, ou será que eu atenderia rápido? O que você possivelmente ainda teria para me falar? Não sei a resposta de nenhuma dessas perguntas. É dessas situações assim, das que você só sabe como vai agir quando realmente acontecer. Consigo imaginar meus 3 segundos de puro pânico olhando para o celular tocando e seu nome aparecendo ali e eu petrificado com os olhos na tela. Meu aparelho toca “Rebel, Rebel”, do Bowie, você sabia? Pois é. Ficaríamos eu e Bowie ali. Eu sem saber se interrompia a música e ele cantando alegremente, sem saber que agora faz parte de todo esse drama.)

Texto de julho de 2011

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