A cenoura

Eu não vou me adaptar. Ando muito cansado. Não consigo descansar, não me deixam. Cansado de muito barulho, de muito silêncio, de todo lugar e de lugar nenhum. Esgotado e com falta de ar por causa dessa beirada que sempre me encontro, essa de pousar a felicidade num futuro inatingível.

Me sinto um cavalo com uma cenoura pendurada na minha testa. Minha fome me move pra frente, mas nunca chego nela, nunca acaba meu desejo e eu estou prestes a morrer de fome. Odeio isso. São anos e anos pousando minha felicidade ali na frente. “Minha vida será otima quando tal coisa acontecer”. Digo que “quando eu fizer tal coisa, serei feliz”, “quando comprar tal coisa, serei feliz”, “quando sentir tal coisa, serei feliz”. E se tenho algum medo nessa vida, é o de estar no meu leito de morte pensando em como, ao fazer isso, deixei de viver de verdade achando que, logo logo, minha vida começaria.

Aí eu paro e tento ver a felicidade ao redor. Eu consigo. Mas logo me dá uma agonia enorme de estar parado admirando a vista quando, na verdade, eu devia é continuar escalando. Aí dou adeus ao patamar e sigo para o topo. O topo que nunca chega. A cenoura que nunca alcanço. A plenitude que nunca sinto.

Texto de maio de 2011

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