Desistência preventiva e aversão ao risco

Na próxima saída ou balada, preste atenção nos recados escondidos nos pedidos de bebidas dos seus amigos. Tem muita, muita diferença entre pedir um vinho branco ou um cosmopolitan, um shot de tequila ou um dry martini. Cada drink tem uma personalidade, quase um conceito mesmo. Pedir tal bebida significa ser fino, outra significa ser forte, outra significa ser rico. Atualmente até cerveja entrou na roda: é raro ver jovens sentarem à mesa ao redor de uma garrafona para dividir. Agora, cada um pede sua long neck. O cara que pede Heineken tem valores diferentes do cara que pede Budweiser, Duff ou uma lata de Skol. Aí chega uma outra cerveja no mercado ou inventam um novo drink (ou decidem que agora os drinks com “tal ingrediente” é que são os melhores) e lá vai todo mundo pra lá. Conhecer e, talvez, mudar de opinião.

Na próxima saída ou balada, preste atenção nas músicas que animam seus amigos. É raro ver alguém sair da pista de dança por causa de uma música ruim ou reclamar do som ambiente. Não muito tempo atrás, havia uma necessidade bem grande de rótulos e misturar era tarefa impossível: roqueiro só ouvia rock e anda com quem ouve rock, emo só ouvia emocore e só anda com outros emos etc. Hoje isso ainda existe, mas a moda não é essa, a moda é ser eclético. É pular com Phoenix na boate, achar Banda Uó genial, cantar Alcione no karaokê e ouvir Rihanna fazendo cooper. Tudo pode ser legal na hora certa, tudo tem seu valor – mesmo que humorístico.

Muita gente vê essas coisas como positivas. E é legal mesmo as pessoas terem cabeça aberta o suficiente pra entenderem que cada coisa tem seu lugar e que você está perdendo oportunidades e prazeres se ficar se fechando. Mas, por outro lado, tenho um pouco de receio de quem não se apega a nada. Quero dizer, tenho a impressão de falta de gosto, de individualidade, de opinião e partido. Dá pra viver a vida toda sendo levado pela maré, sem se arriscar em algo que não é o que todo mundo conhece?

Hoje me deparei com esse texto aqui e dois trechos me chamaram atenção:

Tomemos como exemplo uma propaganda que se anuncia como propaganda, faz piada com o próprio formato e tenta atrair seu público-alvo para rir dela e com ela. Ela já reconhece, preventivamente, o próprio fracasso em produzir algo com sentido. Nenhum ataque pode ser feito contra ela, pois ela própria já se mostrou vencida. O molde irônico funciona como um escudo contra a crítica. O mesmo vale para o estilo de vida irônico. A ironia é o modo mais autodefensivo que existe, pois permite que a pessoa evite a responsabilidade das suas escolhas, estéticas ou não. Viver ironicamente é esconder-se em público. É uma forma, flagrantemente indireta, de subterfúgio – que significa etimologicamente “fugir em segredo” (subter + fúgio). De algum modo, tornou-se insuportável, para nós, lidar com as coisas de maneira direta.

Como isso aconteceu? Em parte, a situação deriva da crença de que essa geração tem pouco a oferecer em termos de cultura, de que tudo já foi feito, ou de que um compromisso sério com qualquer crença acabará substituído por uma crença oposta – de maneira que o compromisso inicial vire risível, na melhor das hipóteses, ou desprezível, na pior. Esse estilo de vida irônico funciona como uma desistência preventiva e assume a forma de reação, em vez de ação.

Hum.

hipsters

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