Reflexões no mercado

Ou “a embalagem diz que é caseiro”.

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Eu fui uma criança que cresceu impressionada com as coisas industrializadas. Comida, principalmente. Achava incrível como o Toddynho tinha um gosto muito melhor do que o leite que eu misturava com o pó de Toddy. Achava estranho ver meu pai passando uma manhã inteira fazendo uma lasanha (comprando, picando e preparando ingredientes) sendo que tinha uma já feita e que ficava pronta em 15 minutos por 10 reais no mercado. Nunca gostei de abacaxi nem de uva por causa da textura e/ou das sementes, mas tem coisa melhor que bala Chita ou picolé de uva?

Bom, tudo isso pra explicar a inversão que acompanhei no mercado: desculpa, mas eu achava que toda a graça e o objetivo de comprar suco de laranja em caixinha era não depender da safra. E não precisar ir ao sacolão escolher, carregar um quilo de fruta pra casa, ficar espremendo tudo e ter que ficar com a mão fedendo à lixo o dia todo – ah, e tudo isso pra uma jarrinha de suco. Bem melhor comprar feito, certo? Aí você me diz que uma certa empresa começou a vender um suco “com gominhos”. E isso não é nada mais do que um suco não coado, simples assim.

Hoje, tudo quanto é produto possível coloca lá no rótulo, como se fosse uma vantagem incrível: com gostinho de caseiro, com gostinho da fazenda. Até o McDonald’s tá com uma mega campanha mostrando bucólicos campos com animaizinhos criados soltos, alfaces cuidadas com muito carinho, batatas plantadas por famílias fofas. Acho tudo muito estranho e, qual seria a palavra?, ganancioso. Mas no seguinte sentido: querem fugir das antagonias e ser as duas coisas. E em muitos produtos simplesmente não dá, na minha opinião. Um picolé ou iogurte de frutas com pedaços, vá lá. Mas farinha integral num biscoito cheio de gordura trans? Decidam-se!

Pra começo de conversa, se você está atrás de algo natural e caseiro, tem que ficar longe de qualquer coisa com conservante, com embalagem longa vida, congelada. Carrinhos de supermercado com esses produtos lindamente coloridos e hermeticamente embalados me deixam com a pulga atrás da orelha pois parecem um reflexo de um estilo de vida raso, que tem tudo a ver com a mensagem que os próprios produtos passam: somos uma coisa, mas dizemos por aí que somos uma outra coisa mais legal e “do bem”.

E suspeito que o público alvo desses produtos seja exatamente… bom, eu! Pessoas que moram sozinhas ou que não moram mais com os pais, na sua cidade natal etc, e precisam de soluções práticas para o dia a dia; mas que querem, ao mesmo tempo, um gostinho caseiro em tudo.

Enfim.

A gente nunca tem 100% certeza do que está comprando e comendo mesmo. Foi só uma reflexão.

Aqui tem um outro texto sobre o assunto :}

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