Joelma não me representa – nem Daniela

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Impossível ficar de fora das últimas polêmicas. A cantora que condenou o casamento homossexual e a cantora que assumiu estar em um.

Permita-me colocar meu ponto de vista sobre a coisa. Já adianto: quis falar de coisas demais e não consigo ser conclusivo.

~

Existem mil movimentos pra lá e pra cá e muitos deles são mais velhos que eu e você, mas a pauta gay só está em discussão agora pelo mesmo motivo que toda pauta é discutida na sociedade: tem alguém lucrando com ela. Do hotel que responde ao comediante sem graça à cantora que vende liberdade de expressão, do político a favor ao político contra; gay é money.

Não é Feliciano que vai mudar minha vidinha aqui, minha rotina, mas é uma questão importante e esse pode ser o momento da virada em questões maiores. Vi uma foto de um protesto fora do Brasil em que uma mulher branca e um homem negro, abraçados, estavam com um cartaz escrito: “Há algum tempo, nosso casamento era ilegal. Fique do lado certo da História”. É exatamente assim que vejo a questão. Com a naturalidade que ela merece.

Em uma página no Facebook de uma marca famosa, encontrei esse comentário:

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Gente, menos. Nem 8, nem 80. O único motivo de uma marca não apoiar uma parada é ser preconceituosa? Tudo bem, a pessoa pedindo não deve entender de publicidade, mas tem muita gente assim por aí. “Esbarrou e não pediu desculpas? Homofóbico!” Calma, respirem.

Até pelo seguinte motivo: o que mais vejo é gay falando da homofobia que vem de fora como se não tivéssemos parcela nenhuma de culpa nisso. Ignore a galera que baseia seu preconceito na Bíblia e ficamos com um grupo que baseia seu preconceito em quê?

Exemplifico com uma metáfora sci-fi: e se a NASA descobrisse que existe vida fora da Terra? Aliás, uma outra raça. E esses ETs dominam todas as outras galáxias. Você, olha só, foi o escolhido para representar a humanidade no primeiro contato com eles. Como você vai se comportar? Que imagem você vai querer passar? Que palavras vai escolher?

Todo gay precisa ter quase esse mesmo nível de atenção agora. O tempo todo, sou eu me apresentando a um universo maior que eu e que não me conhecia antes. Cada movimento está sendo observado e julgado e registrado. Já disse isso antes: todos temos alguém na nossa vida que acha que todos os gays são iguais a gente. E essa é uma responsabilidade pesada.

Só que, ao mesmo tempo, não vale vivermos pensando no que os outros vão achar da gente. Um professor da minha irmã (que estuda psicologia) contou na sala o caso de um amigo que se tornou crossdresser. “Ele acabou perdendo clientes e amigos por causa disso”, contou. Uma aluna fez gracinha e perguntou: “Nossa, e o que ele ganhou?”, no que o professor respondeu:

– Ele.

Voltando ao famosos:

Ter uma posição sobre a causa gay também pode ser uma maneira de ganhar fãs, aparecer na mídia etc. Uma vez uma amiga me passou um link de site de fofoca com uma notícia da Geyse Arruda e disse: “Não aguento mais essa mulher”. Simples: pare de clicar em notícia sobre ela e, principalmente, de mandar links pros outros. Enquanto as matérias dão cliques, haverá um editor mandando um repórter ir lá escrever sobre ela. É assim que vejo, por exemplo, Malafaia e Bolsonaro. Quanto mais falatório e protesto, melhor. É mais mídia, espaço e Marílias Gabrielas pra eles. Que tal tentarmos uma tática nova de ataque: ignorar?

Eu fico no meio do caminho: claro que Daniela Mercury ter saído do armário faz bem, traz alguma luz nova ao assunto, fãs dela que nunca tinham refletido sobre a causa se encontram em posição obrigatória de pensar. Vi muito gente defendendo por aí que “todo artista enrustido devia sair do armário pra essa sociedade deixar de ser hipócrita”. Aí já não sei. Por um lado é bom ver que tem homossexuais legais, competentes e trabalhadores por aí. Uma fatia enorme das pessoas tem o primeiro (em alguns casos único) contato com culturas e costumes diferentes via mídia. Televisão, principalmente. E para o preconceito acabar, gays não podem mais ser tratados exclusivamente como clichês (vide todos os programas de humor) nem sinônimo de xingamento (fãs de futebol, essa é pra vocês).

Mas o preconceito é tão grande, que uma fatia grande dos artistas só se permite sair do armário quando atinge um certo patamar de fama. Mas a longa carreira faz com que os fãs sintam que, durante anos, foram enganados. É um ciclo perigoso.

É tão importante saber que o galã da novela é gay quanto é importante saber que existem gays trabalhando na fábrica do chocolate que seu pai comprou pra sua mãe, na fábrica do sofá que o pastor da igreja tem na sala. Que tem um gay morando debaixo da ponte ali e um outro que é o herdeiro da construtora da academia onde o neonazista da Paulista malha (aliás, treina). Enfim, que ser gay é uma característica que não define uma pessoa por si só, existem milhares de outros fatores. “Gay” é um grupo muito amplo e quando um, qualquer um, representa o todo, isso pode tanto ser a solução quanto parte do problema.

~

Enfim, como disse no começo, não consigo ser muito conclusivo na questão. Minha cabeça dá voltas e voltas pra chegar no mesmo lugar: cada um faz o que quer e seja o que Deus quiser. É aquilo que chamo de A Grande Filosofia do Universo:

Se o que eu faço faz bem para mim e não faz mal para ninguém, faz bem para todo mundo.

É isso.

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6 comentários em “Joelma não me representa – nem Daniela

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