O pop tem razão: “You Don’t Own Me”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?”. Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem sentido pra mim.

Dia desses declarei: a música do momento é “You Don’t Own Me”. E acho que no final do post você vai concordar.

Tudo começou no fim do meu namoro, cujas circunstâncias não vou discutir aqui. Essa alegre música que eu lembrava do filme “Clube das Desquitadas” (The First Wives Club, 1996) parecia a versão ousada-madura de uma musiquinha do tipo, sei lá, “What The Hell”. Perfeita para ouvir em um pós-término. Claro que alguns trechos da letra, em especial, ajudaram na identificação, mas essa foi a profundidade da coisa.

“Você não é meu dono, eu não sou seu brinquedo. Não me diga o que fazer, nem me diga o que falar. Eu não te digo o que fazer, eu não te digo o que falar. Eu sou jovem e amo ser jovem, eu sou livre e amo ser livre para viver minha vida da maneira que eu quiser. Me deixe ser eu mesma”. É basicamente essa a letra.

“You Don’t Own Me” ficou muito popular na voz de Lesley Gore, que gravou o hit quando tinha 17 anos, em 1963. A canção foi uma das mais tocadas no país na época – na Billboard Pop Singles, só ficou atrás de “I Want to Hold Your Hand”, dos Beatles. Era tempo de emancipação feminina e deve ter sido importante nas rodinhas de bares e cafés (as redes sociais da época) terem um exemplo de uma feminista jovem, bonita e bem sucedida – características que parecem nunca andar juntas na cabeça de certas pessoas.

Algumas semana depois fui ao show da Kate Nash, roqueira que acaba de lançar um novo disco, “Girl Talk”, com músicas alegres e letras pesadas sobre relacionamentos e suas complicadas vertentes – no caso dela, por exemplo, a descoberta da bissexualidade. E adivinha só: a abertura do show é ela cantando essa música.

Kate na verdade dubla a versão original em um vídeo que parece saído do Instagram. É fofo e tem tudo a ver com a identidade girl power que ela tenta passar no palco.

E aí percebi como essa letra é abrangente. Não é só sobre relacionamentos. É sobre qualquer um achando que pode mandar no outro.

E para provar: Mitt Romney, antigo bispo e membro ativo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, foi candidato à presidência dos EUA em 2012 e era contra programas de planejamento familiar, aborto e casamento gay. Contra ele, várias mulheres ao redor do país se juntaram (incluindo a própria Lesley Gore, a diretora/artista Miranda July e Lena Dunham, da série “Girls”) para cantar, veja só, essa música – e estimular que mulheres votassem nas eleições seguintes. Deu certo.

“You Don’t Own Me” PSA from You Don't Own Me on Vimeo.

Por isso repito: essa é a música do momento. Se cutucarmos o núcleo duro de todas as questões, o mundo inteiro está em crise por causa de gente querendo impor suas crenças e opiniões na vida de quem não lhes diz respeito. Cura gay, o “não-casamento” entre homossexuais e leis estúpidas contra o aborto são apenas alguns dos vários exemplos disso na esfera pública.

Contra pessoas que querem incluir à força seu valores pessoais no nosso dia a dia, temos apenas uma resposta: you don’t own us.

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3 comentários em “O pop tem razão: “You Don’t Own Me”

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