Ela não é a Beyoncé

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Se apenas bibliotecários e médicos super sérios fossem fãs de boybands tipo One Direction, você acharia a banda mais relevante? Acho que não. Mas, de alguma forma, sinto que a quantidade de fãs pré-adolescentes faz com que Kate Nash seja levada menos a sério, como se fosse uma cantorazinha para estampar pôster em armário e inspirar looks. Mas ela não é. Ou é bem mais que isso.

Na plateia de seu show aqui em São Paulo, que rolou dia 23 de junho, tinha bastante dessas meninas. Mas tinha também bastante gente mais velha e, digamos, normal. E foi um alívio ver isso, muita pessoas lá para ouvi-la – e se engana quem acha que o público era “sobra” do show (maravilhoso) do Magic Numbers – e muito menos do Bonde do Rolê, que fez uma apresentação tão vergonhosa que não quero nem gastar meu tempo descrevendo.

Abaixo, o show de Kate na íntegra (começa no minuto 28:39)

Ela atrasou 30 minutinhos e logo de cara uma bela surpresa: a introdução do show é um vídeo de Kate cantando “You Don’t Own Me”, de Lesley Gore, música de 1964. Aqui tem um texto só sobre o que ela significa pra mim e pro mundo.

A primeira música no palco foi “Sister”, do mais recente disco, “Girl Talk”. É uma balada pesadinha sobre o fim de um relacionamento. Particularmente, prefiro o lado “gritos desafinados” dela ao lado “canto cochichando”, então amo essa e era uma das que eu mais esperava. Dá muita vontade de gritar junto e a plateia gritou mesmo. Ela, que já entrou com a bandeira do Brasil nas costas, agradece em português e logo depois diz estar muito feliz de voltar a São Paulo. A seguinte é “Death Proof”, também do novo disco, uma das letras mais legais: “eu não tenho tempo para a sua crueldade, eu não tenho tempo para morrer”, diz.

Aí chega “Take Me To A Higher Plane”, uma das minhas favoritas, essa letra significa muito, muito pra mim e foi ótimo ouvir ao vivo e cantar junto. “Everyone I fucking hate is in this room!”, ela grita nessa. E quem nunca passou por isso, né? Tinha gente passando por isso na própria plateia.

Cronologicamente, Kate foi indo de fofinha a roqueirazinha. “Kiss That Grrrl” é da primeira fase, mas ganhou uma versão mais potente aqui. Idem com “Mariella”, que leva a cantora a interagir com o público pela primeira de muitas vezes: ela desce do palco e canta no meio das meninas da primeira fila, para desespero dos seguranças, mas a produção encoraja e já troca o microfone dela por um sem fio. Mal sabiam eles o que ela iria aprontar.

“I love you Brazil! I feel shy, cause I love you so much”, diz antes de começar “Do-Wah-Doo” e ir para o meio da galera. Ela vai de um lado pro outro na frente do palco e até o fim da passarela que divide o público.

“A próxima música eu escrevi na praia. Estava tudo ótimo e lindo. Mas sabe quando você acha que estar no meio de um cenário perfeito vai melhorar seus problemas? Tudo ao redor é tipo uma porra de um Monet e você fica ‘oh não, meus problemas ainda estão aqui'”, revela (também explicando o visual do clipe) antes de cantar uma das baladas aceleradas do novo disco, “OMYGOD!”. Ela desce pro público de novo, sempre parando e cantando junto com as pessoas, aceitando high-fives e longos abraços. Até que você ouve ela dar um grito e descobre mais tarde o motivo: ela achou um cara que tem o rosto dela tatuado no braço. Kate cata o menino e leva pra dançar com ela no palco (minuto 58:10). Depois de muitos pulos, ela vai tomar fôlego e solta: “Eu não sou a Beyoncé”.

E que bom. Kate Nash é sempre comparada a Regina Spektor e Lily Allen, mas cada vez prova que não é bem por aí: ela não quer chegar perto do lado musical clássico da primeira e é uma letrista infinitamente superior à segunda. É um alívio para os ouvidos presenciar um show de alguém comprometido com a música e um alívio para os olhos ver que é possível, em 2013, impressionar uma plateia grande com um show que não requer telões e dançarinos.

Depois de falar da tatuagem do cara, os rodies vão tirar o tal fã do palco e a cantora não deixa, diz que ele pode assistir o resto do show ali do palco mesmo. Beijos. O restante do show segue muito bem com “Paris”, “Dickhead”, “3AM” e uma versão incrível de “Foundations” (minuto 1:23:50).

Mas é com “Fri-end?” que eu fico balançado pela primeira vez. “Essa música é sobre aquele tipo de pessoa, sabe? Que seus amigos dizem pra você que é uma babaca e você sempre defende dizendo ‘não, ela é assim mesmo’, até o dia que você acorda”. E, olha, conheço bem esse tipo de pessoa, então foi uma delícia ouvir e gritar. Eu ria e chorava ao mesmo tempo.

O que não posso dizer sobre “Don’t You Want To Share The Guilt?”, que eu só chorei. Eu não sabia que ela costumava cantar essa ao vivo – ela é longa, meio lenta e não tem refão. Mas que bom que ela canta, pois a história da letra é tão real que seria um desperdício. A situação narrada é tão pessoal e relacionável que me faz, sem querer, ter flashbacks não-tão-bons.

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A melancolia foi interrompida pela explicação de Kate de incluir um cover da banda Fidlar no seu set: no ápice de sua inocência adolescente, ela ouvia o refrão de “Cocaine” e achava que o vocalista cantava “girl gang”. Então decidiu fazer uma versão assim. Fofa!

A última é “Under-Estimate The Girl”, a primeira que ela lançou do disco novo. Ela escreveu, gravou e fez o vídeo em 24h. Foi o comecinho da frase gritaria dela. Agora, além do mocinho tatuado, estão do seu lado cerca de 30 meninas. Só consigo imaginar a felicidade delas. As guitarras não param enquanto Kate pula e tira foto com a câmera de uma fã.

Ela deixa o lugar prometendo voltar mais vezes ao país. A gente acredita e torce. Se for pra ser sempre essa delícia, podia ter show dela todo mês.

No bis (que não incluíram na transmissão), ela faz uma versão acústica de “We Get On” e “Birds”, que é um final perfeito, com sua historinha e pelo fato de ser seu primeiríssimo single. E não há palavra melhor pra finalizar esse show do que “cool”.

PS: Achei esse outro vídeo do show aqui. Está sem a intro, mas a qualidade é melhor e tem o bis!

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