Veja bem, agora é assim.

big

Tem umas três semanas que comecei a andar com um cordão bem feio no meu pescoço. Ele prende a cópia da minha chave.

Veja bem, eu moro sozinho. Não sozinho “com meus irmãos numa cidade perto”. Não sozinho “divido apartamento com amigos”. Sozinho, sozinho. Eu, deus e o teto. Por isso me vi com um problema em mãos dia desses.

Veja bem, desde antes de mudar pra esse apartamento eu tinha uma pessoa do meu lado. E foi com muito prazer que fiz o que nunca pude fazer antes: uma cópia das chaves de casa para colocar nas mesmas mãos que seguravam meu coração. Na prática, nunca foi preciso usar as benditas, mas foi um daqueles momentos lindos dignos de escrever no diário – se acontecesse na época da nossa vida que escrevemos neles.

Mas, veja bem, o ato teve vantagens práticas: morávamos perto e mais de uma vez esqueci meu molho de chaves na gaveta do trabalho. As opções, nesses dias, eram tranquilas: dormir na casa dele ou pegar essa outra chave emprestada.

E agora que acabou?

Essa situação nem passou pela minha cabeça até que precisou passar, quando esqueci as chaves no trabalho, mais uma vez, uma semana depois do término. E, na porta do prédio, bateu tudo de uma vez. Eu não tenho pra onde ir. Pra quem pedir abrigo. Eu não “estou sozinho agora,” eu “sou sozinho aqui”. Aqui nessa cidade, aqui nessa calçada.

Veja bem, eu estava deprimido.

No caminho de volta à agência para buscá-las, só conseguia me lembrar de Tom Hanks em “Quero Ser Grande” (Big, 1988) em uma cena hilária onde tirava as chaves de casa de uma corrente no pescoço, igualzinho crianças pequenas fazem. E pensava: taí, é isso.

Veja bem: vamos supor que você more sozinho e só você tem as chaves de casa. O que acontece se você as esquece em algum lugar? E se perde o chaveiro? E se te assaltam e levam tudo que está na sua mochila ou bolsos? Eu precisava me precaver. E apostei no Tom Hanks, daí esse cordão bem feio.

Claro que todo o ritual de colocar e tirá-lo do pescoço quando saio ou entro em casa foi horrível no começo. Um símbolo de uma fase diferente e de um aspecto da minha existência atual que eu não tinha percebido bem ainda, mas com o tempo ficou natural.

Eu não me basto, mas estar só não me desespera. Vivo em dias de reflexão e durmo abraçado com meus joelhos no frio mas, cada dia mais, tenho vontade de sair por aí tocando músicas com os pés. Só preciso reaprender as notas – seja com um novo professor ou autodidaticamente.

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