Gays que gostam de futebol

Estava no metrô com um amigo e notei que ele ficou alguns passos pra trás pra checar no telão da estação quanto tinha ficado o placar do jogo do Atlético Mineiro. Fiz cara de espanto – na verdade, dei aquela rolada de olho tipo da Tina Fey. Não gosto de esportes e sempre me dá preguiça ver gays que gostam ou fingem gostar.

Logo depois da minha lindíssima carinha de desdém, ele apenas falou: “ah é, vamos manter então todos os estereótipos?”. Fiquei mudo na hora. Afinal, sempre encho o saco de todo mundo reclamando que gay só sabe falar das mesmas coisas e aí vou lá e desdenho um gay que foge dessa curva – e curte, no caso, futebol.

Hum.

Acontece que futebol é o esporte mais popular do país e blá blá blá, mas está muito ligado à heteronormatividade. O menino nasce e já é imposto que ele vai gostar de assistir e praticar tal esporte. A primeira roupa que ele ganha do tiozinho é o uniforme do time. Todo projeto social é pra botar os pobres pra jogar futebol. Em época de Copa, as pessoas são liberadas do trabalho pra ver os jogos – mas ai de mim se chegar 20 minutos atrasado por ter ido dormir 3 da manhã por ter ficado assistindo uma série. As pessoas não pensam em mais nada, parece. A maioria gosta, então a maioria manda. Pensamento perigoso.

Mas o buraco é mais embaixo. É um esporte homofóbico e machista. Participar (de qualquer forma) é sim ser conivente com isso em algum nível. E sempre será enquanto os xingamentos proferidos aos adversários e juízes injustos forem formados por palavras baixas sobre homossexualidade. Enquanto os jogadores que cuidam do cabelo ou da pele forem desdenhados por isso. Enquanto os jogadores gays não se sentirem à vontade para se assumir. “Ah, mas eu não sou conivente. Eu gosto do futebol APESAR disso tudo”, dizem. Ok, eu entendo, mas isso é o mesmo que elogiar os feitos acadêmicos de um ditador, entende? “Eu gosto das pesquisas que o cara fez para a ciência, apesar dele ter sido um assassino”. Gosto de acreditar que é melhor gostar de coisas que não precisam de “apesares” nas justificativas.

(Além de achar uma perda de tempo essas mesas de discussão que envolvem esportes em geral: quando o evento é declaradamente uma competição não devia haver espaço para tanta subjetividade; você ganha ou você perde, fim, bola pra frente. Mas aí já é outra questão)

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“Você sabe que metáforas esportivas ofendem minha delicada sensibilidade homossexual”, Jesse, da série “In Treatment” (3a temporada)

Esportes não me entretêm como espectador, como leitor e muito menos como participante; nunca vou entender o apelo deles. E não preciso entender. E não devo me sentir superior por isso.

Mas toda a conversa que se seguiu com esse meu amigo me fez pensar também na existência de uma “homonormatividade“, digamos assim. Gays são “mais bem aceitos” se seguirem certos comportamentos.

As pessoas chegam e comentam comigo sobre a música nova da Katy Perry pois é tido como “normal” (no sentido de regra, de comum) eu gostar ou pelo menos conhecer. Afinal, como um gay de 20 e poucos anos, é disso que eu entendo, certo?

Tanto faz se é mesmo Katy Perry, Lady Gaga, Miley Cyrus, não estou falando de um nome específico; pode ser o vídeo da “bicha muda”, do velho que pegou um travesti que cobrava 20 reais pelo programa, do reality show apresentado por uma drag, do grupo gay de funk do subúrbio. Os links sempre são postados aos montes e os bordões no dia a dia aparecem como se eu fosse obrigado a saber do que se trata. E ninguém ousa ser muito diferente disso, não ousam botar o pé pra fora demais desse mundinho, e suspeito que tenha a ver com a sensação de inclusão no clubinho. Há um medo de ficarem isolados do lado de lá, do lado de fora de um grupo já fechado e isolado dos demais.

Pior que isso: há preconceito dentro da própria comunidade gay contra os homens que são magros demais, gordos demais ou que são afeminados demais, por exemplo. Mas se você for barbudo, branco, forte e rico, aí tudo bem, pode ser gay na novela, no filme, na série e no Tumblr. Tudo uma herança dessa mentalidade machista, de superioridade do macho alfa, de que gay tem que parecer… hétero.

E aí entra também o futebol. E acontece o antagonismo: você combate esses movimentos indo pra bem longe deles ou se infiltrando? É como religiões extremistas: provamos às pessoas religiosas que gays não são o demônio nos tornando gays religiosos ou gays ateus? Não sei vocês, mas eu sou bem 8 ou 80 nesse aspecto: às vezes a pessoa não está ativamente contra você, mas faz parte de um grupo que está. No final das contas, ela está escolhendo o grupo, não você. E aqui estou falando de futebol, mas também de certas religiões, famílias, culturas etc.

Você chega a algum lugar respeitando uma cultura que te oprime?

O que tento pregar é que homossexuais são diferentes entre si, a única coisa que liga o grupo todo é a tal da orientação. Mas toda vez que um gay aparece em reportagem, em filme ou série de TV, ele é representado por alguém de rosa ou de couro, num clube de sexo ou na fila de um show de diva. Por isso acho que é importante para nós, no mundo real, mostrar às pessoas ao nosso redor como cada um é diferente.

Mas meu espanto com o amigo que curte futebol prova que eu mesmo vivo esquecendo disso, pois me acostumei a conviver com gays muito iguais entre si.

Enfim.

Mas não posso negar que depois de tudo isso ainda pensei: “se você gostasse mesmo de futebol, se gostasse de verdade, estaria em casa ou em um bar agora assistindo o jogo”.

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9 comentários em “Gays que gostam de futebol

  1. Quanto preconceito… quer dizer então que o fã de futebol tem que ser estereotipado também? Só assisto aos jogos se for importante ou se estiver desocupado… tirando isso o resultado do jogo já me satisfaz.

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  2. Sou indiferente quanto aos gostos culturais das pessoas e acho saudável quando vejo diversidade. O meu critério está realmente no quanto aquele elemento é ou não opressor em relação a LGBTs. E futebol, francamente… ganha disparado da maioria dos elementos culturais por aí. Comparando com a questão religiosa, só vejo duas formas de “provarmos às pessoas religiosas que gays não são o demônio” : sendo um religioso cristão de teologia inclusiva; sendo religioso de religião não-cristão não-homotransfóbica ou sendo ateu. Ser religioso cristão tradicional é ser cúmplice, a meu ver.

    O mesmo em relação ao futebol cujo mainstream é homotransfóbico e machista. Acho o fim esses gays idolatrarem futebol e serem tão obtusos em em relação a homotransfobia que abunda no esporte em todos os aspectos.

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