Não queremos casar, queremos trepar

A lista de sinônimos para a palavra “casamento” nos dicionários é longa, mas sempre começa com (1) União legítima de homem e mulher; (2) União legal entre homem e mulher para constituir família. A ideia de gays se casando com papel passado e festa em capa de revista é recente.

No fim, a questão do casamento gay é um dos poucos itens na lista de diferenças entre direita e esquerda, por isso essa discussão fica mais política e calorosa a cada dia e mais gente é chamada pra opinar sobre o assunto – de celebridades a Jesus Cristo, cada um com seus grupos de seguidores, diferentes entre si e distorcendo suas palavras.

E aí chega outra questão: quando o casamento gay virou pauta no mundo gay? Segundo a ativista Yasmin Nair (em uma reportagem da BBC), esse ato se transformou em objetivo da comunidade na década de 1990, quando o movimento “emergiu do choque da epidemia de AIDS sem a sua antiga energia”. Sim, “casamento” é uma instituição conservadora por excelência, mas na época acho que havia uma vontade coletiva de monogamia, e ela foi tomando diversas formas com o tempo.

Tantas formas que chegou onde estamos atualmente: com uma parcela enorme de ativistas simplesmente loucos pelo casamento gay e uma parcela não se importando muito com a questão. O cartaz abaixo é um exemplo disso. Ele é da QACC – Queens Against Capitalism Crap, ou seja, “rainhas contra merdas capitalistas”. “Não queremos casar, queremos trepar. Tire seu casamento dos meus negócios”, diz.

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“Nós [já] temos casamento, é chamado de união civil e eu me alegro com o fato de que pessoas como eu, que são diferentes dos héteros, possam fazer algo que eles não podem”, diz Andrew Pierce, o colunista do Daily Mail que é contra o casamento gay – apesar de lutar pelos direitos da comunidade há alguns bons anos.

Quando você para e pensa, enxerga com clareza: realmente é um ato de viés conservador se casar, mas isso significa que não tem nada a ver com gays?

Muitas discussões que tive com amigos homossexuais sobre casamento desembocaram para essa discussão: que é muita ilusão achar que você vai ser feliz pro resto da sua vida com uma pessoa, que amor não resiste ao tempo, que amor não é algo duradouro, que monogamia é impossível etc. Essa ideia de felicidade eterna a dois é um clichê heteronormatizado? Sim. Isso faz dele uma coisa proibida para gays? De jeito nenhum. A discussão nunca foi nem deve ser o conceito, mas sim a possibilidade, a permissão.

Um exemplo: as feministas saíram de casa e queimaram sutiãs lutando pelo direito da mulher escolher o que quer para sua vida – inclusive pelo direito de escolher ser dona de casa. Esse desejo pode ser orgânico e super real em muitas mulheres, não é? Nenhuma feminista  invadiu casas no subúrbio, tirou o avental da mãe de família e a obrigou a fazer aulas de datilografia. A luta foi, e sempre será, pela escolha, a briga é para ter opções.

Por isso acho bobagem essa conversa de que “casamento não é coisa de gay”. Casamento devia ser pra quem quiser, tudo devia ser pra quem quiser. Um grande argumento dos pró-casamento entre pessoas do mesmo sexo é: “se você é contra casamento gay, não se case com um gay”. Esse argumento serve também para todo mundo que não vê graça nessa ideia de vida-a-dois-pra-sempre: se não acredita em casamento, não se case. Nem com um gay, nem com um hétero. E fim da discussão.

Então como explicar gays que se opõem a esse direito? Ódio internalizado por pressão? Talvez. Mas acho um tiro pela culatra, um papinho anarquista muito do frouxo. Devia fazer parte da nossa agenda, da nossa rotina mesmo, lutar pelo direito das outras pessoas, por direitos que nós mesmos nem vamos usufruir. Não é isso que é viver em comunidade, afinal?

Além do mais, vale sempre repetir: se o que os outros estão fazendo é bom para eles e não faz mal a ninguém, faz bem para todo mundo.

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5 comentários em “Não queremos casar, queremos trepar

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