Meu cachorro imaginário

Não era exatamente amor aquilo, mas eu tinha uma afeição descomunal e inédita pelo primeiro menino que gostei. E, como em toda história dramática, meu sentimento não era correspondido. Tivemos muitas idas e vindas e dores, então decidi cortar ele da minha vida, dei um basta, fiz ele sumir do horizonte pra ver se ele sumia do coração. Teria funcionado muito bem se ele não morasse no mesmo quarteirão que eu.

Toda vez que colocava o pé pra fora de casa, me gelava o tronco. Ele podia estar na próxima esquina, no mesmo supermercado ou, pior ainda, no ponto esperando o mesmo ônibus que estava indo pegar.

Alguns anos depois, passou.

Por isso escrevo isso: pois me pergunto quanto tempo esse sentimento atual vai durar. Engulo seco sempre que vejo cabelos parecidos aos seus na rua, ao entrar na estação e pegar o trem, todos os dias. O fim foi tão ruim que não tem volta, mas me sinto um pouco perdido na cidade sem você. Cada dia um pouco menos, mas todo dia.

Quem eu coloco no contato de emergência da companhia aérea? Quem vai chorar por mim no caso de um acidente? Quem mais sabe onde guardo minha chave extra? Quem vai herdar meus livros? Quem vai alimentar meu cachorro imaginário?

Texto escrito em 27/08

 

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