Quem são esses caras?

Tem um cara, vamos chamá-lo de Rubens. Depois dos 30 ele realmente começou a prestar atenção na sua alimentação, evitando ou cortando coisas muito artificiais. Começou a caminhar todo dia, depois a correr e pedalar. Aí ele começou a namorar um cara que falou: eu gosto de homem com barriguinha, acho mais real. E aí Rubens parou de prestar atenção nessas coisas e voltou com sua cerveja e voltou com sua pancinha.

Tem um cara, vamos chamá-lo de Timóteo. Ele terminou um namoro longo e começou a usar aplicativos de pegação, como Tinder e Grindr. E descobriu um chamado Scruff, dedicado a gays ursos – grupo de homens peludos, fortes ou cheinhos. E agora Timóteo quer ser um deles mas, como não se acha peludo o suficiente pra ser uma pessoa que desperte interesse nos membros desse grupo, está tomando remédio para nascerem pêlos no seu peito.

Tem um cara, vamos chamá-lo de Fabiano. Ele só anda de skinny jeans e ouve música eletrônica e pop. Qualquer coisa que você perguntar pra ele sobre Kylie Minogue a resposta está na ponta da língua. Mas ultimamente esse conhecimento não tem lhe sido útil pois todos os seus amigos só querem saber de Novos Baianos e Maria Bethânia. Então, para acompanhá-los, ele parou de ir nas boates que ia (de All Star) e passou a frequentar bloquinhos de carnaval fora de época que tocam Caetano Veloso (com flores no cabelo).

Tem um cara, vamos chamá-lo de Heleno. Mesmo agora, anos depois da puberdade, ele não tem uma barba que contorna todo o rosto. Ele sempre soube disso e, como achava que a barba grande ficava feia nele, sempre raspava. Mas Heleno viu várias pessoas divulgando uma campanha chamada “Faça amor, não faça a barba” e todos os seus amigos e colegas de trabalho que antes eram lisos e depois passaram a ter bigodes (no rosto e estampados em canecas e camisetas) agora têm barba, então ele deixou a dele crescer.

Tem um cara, vamos chamá-lo de Edvaldo. Ele ama rock clássico. Deep Purple, Led Zeppelin, The Who, Pink Floyd e até um pouco de Beatles, e umas coisas nacionais dos anos 80, tipo Ira! Mas nenhum dos seus amigos sabe que bandas são essas e ele acaba se familiarizando com o que seus amigos ouvem. Não é exatamente o que ele prefere ouvir, mas aprendeu a tolerar e gostar para ter do que falar com essas pessoas.

E sua opinião sobre você mesmo, Heleno, mudou? E a sua saúde e amor próprio, Rubens, pra onde vão? Quando alguém se interessar por Timóteo vai ser por qual motivo afinal? E o que você pensa, Fabiano? E o que você gosta, Edvaldo?

É praticamente imperceptível para os olhos não treinados mas, quando chega a hora de quebrar um modelo de beleza ou comportamento, é quase inevitável: um outro se cria.

O conforto de um precisa sempre ser o desconforto de outro? Quem é você? Quem é você de verdade? O que você gosta de fazer quando não tem ninguém te olhando? Quais são as coisas que você faz que não viram post no Instagram ou Facebook?

É alto o preço de ser quem você realmente é. Mas você quer estar em paz do lado de dentro ou do lado de fora? Você quer agradar os outros ou a si? Mudar é possível e é muito importante, mas dá pra ser tudo de uma vez, não precisamos ser cada hora um só.

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