O que eu achei do final de “Looking”

Captura de Tela 2014-03-13 às 16.22.44“Looking” é a série do momento para mim. Admito que o episódio de estreia não é uma obra-prima, mas as histórias e personagens vão ficando cada vez melhores. É uma série sobre gays que não é caricata demais.

Quando anunciaram seu lançamento, não vi com bons olhos. Apostava que seria tipo “Girls”, mas com um bando de jovens twenty-somethings afetados e super gostosos, morando em Nova York e cheirando pó como se fosse algo barato e normal. Bom, em alguns círculos talvez até seja e pessoas como essas descritas existem aos montes, mas sempre fico com medo de qualquer filme ou série que é rotulado como “gay” – eles representam  uma parcela dessa comunidade mas acabam sendo vendidos para muitas pessoas como a comunidade toda.

Não foi o caso. A série é democrática o suficiente para mostrar vários tipos de gays. Os personagens são adultos e crises existenciais não são o foco. Exceto pelo personagem principal, Patrick, meu favorito por estar dentro de algumas regras comportamentais do grupo, mas também com valores diferentes das pessoas ao redor – sem se sentir superior nem inferior por isso. Um amigo disse que ele é muito chato e não tem personalidade, mas é essa a personalidade dele: ser comum, não ter estereótipo, ser tímido. Três itens que o povo esquece que existem no mundo gay.

Mas cada um se identifica com um personagem ou com uma história. E muitos não se identificam com nada e não há nada de errado com isso também. Mas uma coisa precisa ser dita sobre “Looking”: você pode ser hétero e ter milhões de amigos gays (ou não) e assistir a série e gostar, mas nunca vai entendê-la em seus detalhes. Ela é sobre o mundo gay e há muito ali que realmente foge da compreensão de quem não vive nesse mundo – e viver “perto” não é viver “no”. E é por isso que esse texto aqui é tão pessoal: todo mundo encara os personagens e os acontecimentos de uma maneira muito sua, o que chama atenção de um, nem é percebido por outro etc.

Dito tudo isso, chego onde queria chegar: no episódio final dessa temporada.

(SPOILER) Nesse episódio aconteceram essencialmente duas coisas que me empolgaram e me fizeram gritar: “Finalmente!”

A primeira foi Augustin ser expulso de casa. Desde o primeiro segundo desse personagem vi que era encrenca. Esse pessoal folgado fantasiado de artista atormentado, conheço muitos. Relacionamentos são difíceis, mas quando alguém não vê mais graça naquele em que está, tem duas opções: tentar consertar ou pular fora. A terceira opção, a que a grande maioria escolhe, só causa dor de cabeça: tentar ficar no relacionamento e satisfazer com outros os campos que seu parceiro não preenche ou que você não se sente preenchido por algum motivo – e isso não é só traição no sentido amante, mas traição de confiança mesmo. Na minha opinião, foi tarde. Já terminei com pessoas mais interessantes por motivos menores.

A segunda foi o ápice de Patrick. Nunca gostei de Richie e o namoro dos dois foi desses que nasce da carência de uma das partes. Depois de 17 mil encontros ruins, qualquer pessoa meramente decente começa a parecer interessante – e, enquanto você está com a pessoa, descobre mais coisas e vai de fato começando a gostar dela. Mas, como o próprio Patrick já tinha percebido e deu a entender, Richie era um cara legal e interessante com zero ambições e pouco, digamos, filosófico. Se tem um mantra de relacionamento que eu sigo, ele é esse: fique com alguém que você gosta de conversar. Afinal, um dia vocês farão apenas isso. Tudo bem, o episódio deles andando pela cidade é lindo, mas no segundo encontro tudo é lindo, tudo é ensaiado pra impressionar (planetário, really?).

Já Kevin, seu chefe, foi amor à primeira vista – para mim e para Patrick. Mas os dois namoravam outras pessoas e precisaram fingir que não se gostavam, digamos assim. Mas a profissão deles sugere acordos de valores que eu acho importantes para a construção de algo duradouro. E o charme de Kevin, apesar das suas orelhinhas, me ganhou na primeira cena.

Nesse episódio, finalmente, algo acontece entre eles. E a declaração de Kevin me fez chorar:

Não é isso que se quer ouvir? Isso é uma declaração de sentimento, não de intenções. “Eu não consigo parar de pensar em te beijar” é mais poético do que “quer tomar um café qualquer dia desses?”

Por mais linda que tenha sido a declaração e o beijo e a cena de sexo, aqui estão dois gays comprometidos fazendo sexo fora de seus relacionamentos. Traição e promiscuidade não é exclusividade do mundo gay, mas muita gente acha isso e é por causa de histórias como essa, certo?

Errado. É, os dois namoram, mas eles se gostam. Eles não treparam com garotos de programa ou desconhecidos num dark-room. Isso não tornaria o ato perdoável na vida real, mas é sim esperançoso do ponto de vista da ficção. Existem muitas, muitas histórias de amor  que começaram quando o casal, na verdade, estava com outras pessoas.

E essa é a minha esperança pra próxima temporada, esses dois juntos e o Richie sendo um caga-regra bem longe. A cena de Richie terminando o namoro com Patrick foi a que mais comoveu as pessoas, mas a que mais me incomodou: pessoalmente, estou cansado de gente que se acha doutor na arte de relacionamentos, gente que acha que conhece suas próprias verdades e reações em qualquer circunstância, que fala “eu sou do tipo de pessoa que”, que impões suas ideias e conceitos (escapulário, really?). Richie é aquele cara mala que é charmoso pra te conquistar e depois mostrar que é superior, que age como se estivesse num filme, que se faz de profundo e é um sensível poeta aventureiro. Vá se foder!

Aventura de verdade é estar com alguém que você gosta de verdade – e que gosta de você de verdade. Sem joguinhos e imposições. A barreira – se ela precisar existir – tem que ser no mundo físico: cargos numa empresa, diferenças geográficas. No mundo das ideias e dos sentimentos, só funciona se as duas pessoas estão alinhadas. E acho que Patrick e Kevin estão/são.

Enfim.

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5 comentários em “O que eu achei do final de “Looking”

  1. Com certeza o Kevin é encantador. Desde quando eu vi os dois juntos já imaginei que em breve algo iria rolar entre eles. A cena no banheiro durante o casamento foi ótima e depois a consumação do sexo melhor ainda rs. O jeito dele e aquele sotaque britânico levantam todo o meu ânimo 😉

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  2. Concordei muito com o que disse, principalmente sobre Kevin e Patrick . Torcendo pelos dois nessa temporada. Mas me incomoda muito algumas leituras que eu vi sobre o Augustin, não só aqui no seu blog, mas também num grupo sobre a série no Facebook.
    Afirmações como essa ” Esse pessoal folgado fantasiado de artista atormentado, conheço muitos.” Isso pra mim cria n confusões rs.
    Você pode ser formado em , por exemplo, fotografia ou pode ser fotógrafo autodidata. E você pode ser um fotógrafo comum ou especial, um destaque. Transporto isso pra questão do artista. O fato do talento dele como artista não estar em evidência no momento não signifique ele não seja um artista.
    Destaco isso, porque me parece que se criam grupos escalonáveis. Tem os bons, que são reconhecidos pelas entidades e o lixo , que é basicamente o resto. Onde ao meu ver estão incluindo o Augustin.
    Percebi nele um personagem preconceituoso e arrogante, mas não vou colocar tudo num pacote e etiquetar.
    Também não curti o que foi dito pelo ex-namorado dele, que tá bem explicitado ai nesse frame que vc destacou. Fiquei pensando que triste é ver que ele precisou ser machucado e traído para dizer ao companheiro que este não sabe quem é, que está perdido. Me pareceu que ele já pensava isso há um tempo. Porque dizer só agora, magoado com tudo o que aconteceu ?
    Seria tão nobre ter dito isso de uma maneira sincera enquanto a relação ainda existia. Talvez até mudasse os resultados.

    De resto, parabéns pelo blog, estou lendo os textos antigos e acompanhando daqui pra frente, Gostando muito de tudo. Abraço.

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