Uma semana sem óculos

Deixar seu óculos no chão, ao lado da cama, é pedir pro universo que ele seja pisado. E foi o que aconteceu. Foi só a haste, mas era impossível colocá-lo novamente. Precisaria seguir a vida sem eles – ou pelo menos até comprar um novo. Para fins de documentação, digo: tenho apenas 1,5 grau de miopia em cada olho. Quem tem mais falará que é pouco, claro, mas é o suficiente pra chacoalhar a vida.

Primeiro dia: bom, era domingo, não fez muita diferença. Estava um desses dias nublados. Não saí de casa direito, fiquei deitado na cama ou mexendo no celular, trabalhando no computador. Diferença nenhuma.

Segundo dia: agora eu estava de volta à vida real. No metrô eu sempre quero observar as outras pessoas e ficou difícil – não impossível – fazer isso. Sem querer, me peguei sendo pego: a concentração pra focar em alguém e decidir se a pessoa é bonita ou não toma conta e, quando finalmente foco, percebo que ela já estava olhando pra mim com carinha de quem me chama de indiscreto ou deselegante.

Terceiro dia: além da mesma coisa do metrô, hoje reparei que estou sempre franzindo a testa. É pra fazer força com os olhos e normalizar a minha visão. Isso não acontece, mas sigo assim. Devem pensar que estou bravo o tempo todo. Tudo bem, talvez eu esteja.

Quarto dia: gritaram meu nome do outro lado da sala no trabalho. Olhei pra pessoa, respondi e gritaram mais coisas. Ouvi nada. Pedi pra repetir, repetiram, ouvi nada. Eu fico surdo sem óculos se faço contato visual: meu esforço vai pra focar na cara da pessoa e parece que esqueci de ouvir. Sim, foi ridículo.

Quinto dia: tudo isso se somou. No fim do dia, sobrou um tempinho pra ver um filme. Não dava. Cheguei o sofá pra bem perto da TV. Não dava ainda. Peguei o óculos quebrado e fiz uma emenda realmente primorosa usando fita isolante. Ficou bem feio, mas me fez sobreviver ao filme.

Sexto dia: tudo isso se somou mais uma vez. É como se houvesse um campo magnético que me separasse do resto do mundo. Coisas externas interferem menos comigo, passo mais tempo comigo, sei mais detalhes do que está perto de mim.

Sétimo dia: fui ao oculista.

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