O pop tem razão: o divórcio segundo Madonna

Não me atentei às datas certinhas. É só um por cima do que sei das histórias e das fofocas, além da minha impressão sobre as músicas – essas sim conheço bem.

‘Til Death Do Us Part (Like A Prayer, 1989)

Em meio a canções sobre família e religião, essa é a música mais pessoal desse disco que, por sua vez, era o mais pessoal da carreira de Madonna até então. Era impossível não relacionar essa canção ao fim do conturbado casamento com o ator Sean Penn. “Ela usa a chave, ele quebra a porta. Ele começa a gritar, os vasos voam. Ele faz exigências, ela impõe limites. Ele começa a brigar, ela começa a mentir. Mas o que é verdade quando algo morre? Ele não está apaixonado por ela”. O mais curioso: seu álbum anterior, “True Blue”, era “dedicado ao meu marido, o homem que mais amo no mundo”. Quem te viu, quem te vê.

Tudo terminou bem mal na época. Apesar dele ter sido o primeiro homem que ela amou de verdade (segundo ela mesma no documentário “Truth or Dare”), eles eram muito jovens e não lidavam bem com a fama ainda. O lado bom é que agora, já maduros, são bons amigos. Não tem muito tempo que ela visitou os projetos sociais dele no Haiti e ainda levou a tiracolo o filho do segundo casamento pra conhecer o cara. Aliás, sempre que perguntavam o motivo dela ter virado diretora (ela dirigiu o média-metragem “Sábios e Sujos” e o longa “WE”), o primeiro que ela dizia era: “fui casada com bons diretores”.

sean

Desde então ela fez filmes, lançou muitos discos, mudou de visual umas mil vezes, teve sua primeira filha (Lourdes Maria, filha de seu personal trainer) e, alguns anos depois, engravidou do namoradinho: o cineasta inglês Guy Ritchie, dono de filmes geniais como “Snatch” e “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”. Ele pediu sua mão quando ela ainda estava no hospital depois de ter dado à luz Rocco, o primeiro filho dele. E as coisas se seguiram bem durante sete anos.

I Deserve It (Music, 2000)

A primeira homenagem de Madonna a ele era clara aqui. Muita paixão e amor e cumplicidade. Era curioso saber que ela foi escrita e gravada quando eles namoravam e que, um ano depois, em sua turnê de 2001, ela já estava de aliança no palco cantando: “Muitas milhas, muitas estradas, eu viajei. E caí pelo caminho. Muitos corações, muitos anos, se tornaram irrelevantes. Estou começando hoje. E te agradeço”.

Incredible (Hard Candy, 2008)

Essa batidinha, geralmente ignorada pelos fãs, fala sobre a vontade de voltar ao começo de um relacionamento. “Lembra do primeiro momento que você chamou atenção daquela pessoa especial? Quero voltar para ele, preciso pensar em como fazer isso”, diz. Os batuques e vocais disfarçam que a letra é melancólica – em especial pois ela cresce e termina bem animada. Mas nas entrevistas de divulgação do álbum perguntaram várias vezes a quem ela se referia no trecho “sex with you is incredible” e resposta estava na ponta da língua: Guy Ritchie. Então tá.

bjo

Miles Away (Hard Candy, 2008)

Os boatos de divórcio apareceram logo que eles se casaram, mas havia algo em “Hard Candy” indicando que o fim estava perto de verdade agora. Essa canção fala sobre relacionamentos à distância, algo que o casal sabia bem como era: foi para evitar isso que Madonna mudou-se de Nova York para Londres. “Alguém tinha que ceder”, disse ela na época. Mas as rotinas de filmagens e turnês sempre separava os dois. Não apenas isso, começou a crescer uma divergência de interesses, muito bem evidenciada no documentário “I’m Going To Tell You A Secret”, que mostra Guy em pubs, lutando e pescando, enquanto Madonna está em turnê, conhecendo Iggy Pop e levando seus dançarinos para concertos de piano. “Miles Away” é sobre a distância física virando distância emocional. É fácil falar que ama e está com saudades quando um está longe do outro, mas pra onde vai tudo isso quanto estamos perto? “Você sempre me ama mais à distância, eu ouço na sua voz”, ela canta. E termina com uma previsão: “Quando eu for embora você vai perceber que fui a melhor coisa que aconteceu para você”.

No final do mesmo ano, foi anunciado que o casal iria se divorciar mesmo, e o release pedia para que a mídia fosse discreta e respeitasse a família nesse momento – foi pouco antes disso que o casal adotou David Banda, um órfão do Malauí (uma versão pós-menopausa do famoso golpe da barriga?). No primeiro show da turnê “Sticky & Sweet” depois da notícia, a cantora dedicou essa canção aos “emocionalmente retardados” e todo mundo conectou as duas coisas, claro. Um tempo depois, promovendo seu novo filme (“Sherlock Holmes”), Guy foi perguntado sobre o fim do casamento: “Eu ainda a amo, mas ela é retardada”. Ok, calma, feras.

She’s Not Me (Hard Candy, 2008)

eitaÉ sempre bom lembrar que música é arte e é subjetiva, por mais comercial que ela seja. Quando Chico Buarque fala “eu” numa canção, ele não quer dizer que o quê é contado na letra da música aconteceu com ele hoje, mas sim no passado, ou apenas com o personagem que canta e conta aquilo. Mas é difícil pensar assim ouvindo essa: Madonna grita que “essa aí que você tá pegando nunca será tudo que eu sou”, sugerindo que se trata de uma conversa com o parceiro sobre uma traição ou, pior, uma troca. Nos shows, ela dedicava “She’s Not Me” para “meninas que já tiveram amigas que queriam ter tudo que elas tinham, incluindo seus namorados”, mas sei lá.

Gang Bang (MDNA, 2012)

A segunda música do primeiro álbum depois do divórcio é um recadinho maldoso ao ex. Na história, uma mulher traída arma de matar seu traidor a tiros. Uma referência aos filmes violentos de Ritchie? Se sim, fica ainda mais clara na turnê que viria a seguir, onde a música toca enquanto homens armados e encapuzados tentam matá-la. Detalhe: nas entrevistas antes da tour, Jimmy Fallon perguntou se ela planejava um clipe para “Gang Bang”. “Sim, já tenho tudo na minha cabeça, seria uma perseguição num quarto de hotel. Quero que o Quentin Tarantino seja o diretor”, disse, alfinetando bonito ao citar ~apenas~ o diretor mais bem sucedido e popular no mesmo gênero do ex.

Love Spent (MDNA, 2012)

O divórcio foi notícia no mundo inteiro por vários motivos. Um deles: não havia acordo pré-nupcial e a cantora desembolsou 92 milhões de dólares – estima-se. Essa canção é sobre isso. “Você teria casado comigo se eu fosse pobre? Se eu fosse seu tesouro, você teria encontrado tempo pra me valorizar”, canta. A música mistura batidas eletrônicas e banjo. “Você disse ‘até que a morte nos separe’, mas agora seus carrões, mulheres e bares subiram à sua cabeça. Me abrace como você abraça seu dinheiro. Gaste seu amor comigo”, pede. É uma letra incrível e totalmente honesta, talvez a primeira realmente pessoal em anos de carreira.

Nos shows, era cantada ao piano apenas, com Madonna sendo apertada por um cara num espartilho. No fim, cansada da pressão que tinham colocado nela, desistia de vestir a peça e se libertava do homem dando-lhe várias notas de dólar.

I Don’t Give A (MDNA, 2012)

A obra prima das músicas de divórcio pra mim é essa. Madonna canta um rap nervoso com guitarras enquanto conta como é sua nova vida como divorciada e mãe solteira, misturando tarefas de trabalho, de rotina, de relacionamentos: “Acorde, ex-mulher, essa é sua vida. Mensagens, empresário, sem tempo para manicure. Você viu o cara novo? Esqueci a senha. Tenho que ligar para a babá. Você estava tão bravo comigo. Quem ficou com a custódia? Advogados, lidem com isso, não havia pré-nupcial. Esqueci de fazer minhas orações, bebê Jesus nas escadas”, só pra citar algumas coisas. E ainda tem o rap da Nicki Minaj: “Quando eu deixo um cara ir embora, a perda é dele. Eu assinava seus cheques, eu era a chefe dele”. Paft.

I Fucked Up (MDNA, 2012)

“Quer saber como fazer Deus rir? Conte pra Ele seus planos”. Nessa triste canção, Madonna assume a culpa pelo fim da realação. “Eu fodi com tudo, te culpei quando as coisas não andaram do meu jeito. Eu devia ter deixado minha boca fechada”. Ela narra também uma alternativa ao rumo que as coisas tomaram, dizendo que os dois podiam ter viajado juntos, escalado montanhas, vivido como loucos até o fim da vida. “Mas, ao invés disso, te fiz chorar”.

Acho curioso ela dizer em francês que está arrependida, je suis désolé, que é uma frase usada em “Sorry” (Confessions on a Dancefloor, 2005), uma música que também parece ser de crise no casamento. Agora, ela termina com uma enigmática frase: “Desculpe, não tenho vergonha de dizer: queria ter você de volta, talvez, um dia. Ou não”.

Best Friend (MDNA, 2012)

“Tirei sua foto da parede, mas ainda espero uma ligação sua. Todo homem que passar por essa porta será comparado a você. Mesmo assim não me arrependo, sobrevivi ao pior dos testes. Não vou mentir: sinto que perdi meu melhor amigo”. Não precisa falar muito mais que isso, né?

Das canções sobre o divórcio, essa é a que retrata Guy de maneira mais agridoce. Hora as memórias descritas são gostosas, hora são um saco. Minha frase favorita da letra: “não dava para ter dois motoristas ao volante”. Mostra bem essa sensação que todo mundo tinha de fora: era um casal genioso, com um cara mandão e uma mulher poderosa. A criação tradicional dos dois os unia, mas a maneira que lidaram com isso os separava – enquanto Madonna tinha se libertado disso no mundo das artes e estava voltando ao universo comportado pelo mundo da religião, Guy ficada cada vez mais machão e homofóbico enquanto crescia, mas flertava cada vez mais com seu lado bon vivant agora que tinha dinheiro.

Se “MDNA” era o álbum do divórcio, sua turnê não seria diferente. Entre os destaques estão essa canção, que toca com imagens de cemitério numa passagem de bloco com Brahim Zaibat, dançarino e namorado da cantora na época, como destaque da coreografia.

E o exemplo mais claro: ela começa o show usando uma versão preta de seu look de casamento. Sim, ela casou com uma coroa.

maddok

Ser casado com Madonna é uma tarefa e tanto.

Anúncios

Um comentário em “O pop tem razão: o divórcio segundo Madonna

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s