O pop tem razão: “Chandelier”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?”. Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem sentido pra mim.

Sia já era moderadamente famosa por seus discos anteriores, o hit “Breath Me” (que letra!) e por ter composto músicas para nomes grandes da indústria musical. No último ano ela virou destaque das paradas e arroz de festa de programas de auditório com essa música por conta do refrão chiclete e do clipe artístico.

O refrão é mesmo pura diversão de ouvir e cantar: muita gritaria e sílaba esticada. Mas o que a canção descreve com uma melancolia surreal é um sexo casual e a manhã seguinte:

Eu sou quem você liga “para se divertir”, o telefone não para de pular, minha campanhia toca. Eu sinto o amor. (…) O sol nasceu, estou um caos, preciso levantar agora, preciso fugir disso. Lá vem a vergonha.

Antes do refrão, ela canta sobre o tanto que ela bebe para conseguir curtir esse estilo de vida party girl: “mando pra dentro até perder a conta”.

Mas o mais bonito e identificável pra mim é a segunda metade do tal refrão. Ela diz que está fazendo tudo isso enquanto “espera por uma vida melhor”. “Não vou olhar pra baixo, não vou abrir meus olhos. Mantenho o copo cheio até de manhã para conseguir atravessar a noite”.

E eu fico pensando se ela quer dizer que bebe para aguentar esse sexo casual de rotina (pois ele não tem tanta graça mais) ou se é pra aguentar a espera por uma coisa diferente (pois a vida não tem tanta graça mais). As duas interpretações são interessantes e me soam corretas. E aí eu transformo esses berros do refrão (“vou balançar no lustre”) nisso.

Pra mim esse ato tão exagerado é sobre a noitada, mas é também o símbolo dessa mudança, desse fim de rotina, que a personagem precisa fazer pra chacoalhar a poeira desse dia a dia (ou noite a noite) de tristeza e auto-destruição. “Vou viver como se não houvesse amanhã. Vou voar como um pássaro pela noite. Vou sentir minhas lágrimas enquanto elas secam. Vou balançar no candelabro”, conclui. Acho linda essa parte, essa lista de planos.

É um retrato de um grupo grande de pessoas em que me incluo. É fácil reclamar de uma vida sem emoções em que você não faz nada diferente de ontem. Mas a esperança é a última que morre e achamos que no meio da rotina vai aparecer alguém para nos tirar dela.

Fazer sempre a mesma coisa, mas desejando resultados diferentes é utopia ou ilusão? Ou os dois? Para mim essa é a mais triste das músicas de confiança. A vida é complicada e devemos ir nos permitindo prazeres diversos na busca por um mais duradouro. Uma hora ou outra todo mundo vai balançar no lustre.

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7 comentários em “O pop tem razão: “Chandelier”

  1. Acredito que a Sia usa de metáfora para fazer uma super crítica às pessoas que costumam afogar suas mágoas num copo de bebida. Ela mesma já deu entrevista assumindo que já foi alcoólatra e tbm viciada em remédio. Na música, o único momento em que ela está subindo no lustre é depois de beber vários drinks. Mas depois vem a vergonha…

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