A “pavêficação” da vida

Acordei mais chato que o normal dia desses. E logo cedo fui impactado pelo sempre grande número de posts no Facebook sobre assuntos variados: política, torcedores de futebol racistas, lançamentos de clipes, trailers de filmes, trechos de show. Em todos havia pelo menos uma pessoa comentando: “lacrou” e/ou “sambou”.

As pessoas ainda não entenderam que piada, por melhor que seja, tem prazo de validade?

Humor vem da quebra de expectativa. O “tiozão do pavê” é um xingamento não (apenas) pela qualidade da tal piada em si, mas por sua repetição. O cara usa a mesma piada ano após ano, evento após evento.

A previsibilidade é o que acaba com a graça – esse é o motivo de tanta gente não gostar de palhaços, por exemplo. É óbvio que ele vai fazer palhaçada, você já sabe. Então quando ele vai lá e faz, nem tem mais graça.

E essa é a minha birra. Qualquer piada que se estende por muito tempo é “pavêficada”. Você ainda não pode falar “polêmico” sem um retardado falar “mamilo”. E tem três anos e meio aquele vídeo. É praticamente passar sua faculdade toda fazendo a mesma piada, cara.

E parece um ciclo sem fim que não é exclusivo das telas. Quantas vezes mais você vai pronunciar fintchy reais? Quantas vezes mais você vai postar que “queria estar morta”? Todo ano você vai falar que agosto foi longo?

Quantas vezes mais você vai dizer que Meryl Streep é uma ótima atriz? Quantos links mais você vai postar zoando Romero Britto? Quantas vezes mais você vai dizer que a Madonna está velha?

Quantas vezes mais você vai falar que tá calor com o taxista? Quantas vezes mais você vai subir no elevador depois do almoço e comentar que “bateu um soninho agora” com seu colega de trabalho? Quantas vezes mais você vai falar “precisamos marcar”?

Não me entendam mal, eu tô dentro de tudo isso e essas “datas de validade” variam de pessoa pra pessoa. Mas fico me perguntando se todo esse movimento de memes sem fim tem a ver com estar inserido em um grupo, com falar do que todo mundo está falando, ou se essas coisas continuam genuinamente engraçadas ou inéditas pra alguém. Pois, pra mim, nem todas.

Risos.

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2 comentários em “A “pavêficação” da vida

  1. Já que perguntou, vou dizer o que penso. Cada mesmice tem uma função social. A repetição também, porque tem gente que tem problemas para se expressar, outras não sabem e há os que têm preguiça ou não sabem pensar. Daí, o diálogo não pode ser improvisado. Então, repete-se. Acho que é por isso que detesto “filmes engraçadíssimos”. Eles não querem me fazer pensar, apenas querem minhas gargalhadas.

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