Amigos, amigos. Racismo à parte.

A menina flagrada chamando um jogador de futebol de macaco durante um jogo (e que está sendo perseguida e esculachada desde então) deu uma entrevista essa semana pro Zero Hora. Nem vou comentar o absurdo que tá sendo essa história e a cara de pau que ela tem de sugerir que não é racista apesar do ocorrido – só prova que as pessoas tem uma visão bem limitada do que é racismo*.

Mas uma outra coisinha me chamou atenção em uma das respostas dela:

Captura de Tela 2014-09-19 às 16.14.35

Oi?

Fiquei meio espantado com o espanto dela de que pessoas próximas quisessem distância depois do ocorrido. Ela pensa que amizade de verdade deveria ter sobrevivido a essa comoção toda.

Deveria?

Várias coisas unem pessoas em uma amizade e valores estão na lista. É complicado manter relações próximas com alguém que não acredita nas mesmas coisas que você.

Em fevereiro de 2011 a Super Interessante fez uma matéria de capa sobre o assunto e uma das partes explicava o nascimento da amizade, que pode ser resumido assim:

Ocitocina é um hormônio relacionado à reprodução, mas ele também é responsável pelo afeto que a fêmea desenvolve pelo macho e pelo amor incondicional que ela tem pela prole. Nos humanos ele é mais poderoso e influi até nos machos, fazendo com que assumam um comportamento carinhoso, o que é muito raro no mundo animal. Tudo começou quando os primeiros primatas começaram a ocupar o mesmo espaço e viver “em sociedade”. Amizade? Só por motivos bem objetivos: ajudar uns aos outros em lutas contra rivais, no caso dos machos, e cuidar melhor dos filhotes, no caso das fêmeas. (…) A primeira grande invenção do homem – a agricultura – só dava certo se tivesse a colaboração de vários indivíduos. Aí, a ocitocina deixou de ser apenas uma coisa “de família” para agir em prol da sociedade – e facilitar a formação das alianças de que a humanidade precisava. Ela nos condicionou a fazer amigos.

Ter amigos é uma coisa primitiva, portanto. É uma troca de favores. Mas agora, são favores que tem a ver com nossa cultura e sociedade. É do tipo “você se comporta e me trata assim e eu me comporto e te trato assado”. E fica assim por um bom tempo.

Mas vou te contar um spoiler sobre qualquer grupo de amigos inseparáveis: eles vão se separar. Não apenas pois os indivíduos mudam (e, consequentemente, deixam de agradar uns e acabam agradando outros) como também pois ninguém se conhece de verdade. O que a gente conhece do outro é sua persona, aquele conceito grego de máscara: conhecemos o que a outra pessoa nos deixa conhecer. E isso é normal, não é errado. Você assume uma persona diferente a cada minuto da vida: a pessoa que você é com seu melhor amigo é diferente da pessoa que você é com a caixa do mercado, com o taxista, com sua mãe etc.

E máscaras caem. A gente tem milhões de personas, mas geralmente há uma coerência. Você vai com seu amigo no bar e nem percebe que ele tratou o garçom com um tom de voz e uso de palavras diferentes. Mas quando uma quebra muito brusca acontece, como no caso dessa infeliz garota gaúcha, tudo muda. A persona que ela assumiu no estádio é inaceitável – inclusive para os até-então-amigos, que não conheciam esse lado dela.

Em um dos primeiros lugares que trabalhei, notei uma mega comoção em frente ao computador na sala do lado: havia saído na imprensa um caso de pedofilia que o acusado era um cara que tinha feito faculdade com dois colegas do meu escritório. Eles estavam em choque com a notícia e em pânico para deletar a pessoa de suas listas de amigos do Orkut o mais rápido possível. E é isso, em um segundo sua opinião sobre uma pessoa muda. “Afinal, eu sou amigo do Fulano do boteco, não do Fulano pedófilo”. “Mas não é a mesma pessoa?” “Não, claro que não”.

Tudo isso só pra dizer pra torcedora o seguinte: querida Patrícia, seus amigos não te traíram, foi você quem os traiu. Vocês eram amigos de verdade sim, mas isso era até você mostrar pra eles quão babaca você pode ser.

Sei lá, sabe.

Patrícia Moreira da Silva: cara de pouco amigos
Patrícia Moreira da Silva: cara de pouco amigos

*Falando nisso, fortemente recomendo a série de textos “Racismo e Normalidade”: parte 1, parte 2

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