O que você pode aprender com Brendan Jordan

Dia desses um menino invadiu todas as minhas redes sociais. Não, não foi um hacker. Foi mais um desses vídeos que todo mundo parecia estar vendo e repostando ao mesmo tempo.

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Um menino chamado Brandan Jordan ficou fazendo carão atrás de um repórter de TV e roubou completamente a cena. É hilário. Acho ótimo ver gente tão nova (ele tem 15 anos) pouco se lixando para o que os outros vão pensar dele e em total controle de sua orientação e imagem.As pessoas devem ser livres para exercer sua sexualidade e identidade de gênero. E Brandon ganharia fácil, fácil o prêmio melhor auto estima 2014.

Mas não ficou nisso apenas. O menino foi pra capa dos principais portais de notícias, sua foto ganhou várias legendas engraçadas, ele foi a talk shows e ganhou milhares de seguidores no Twitter.

Mas a graça passou bem rápido pra mim. Sempre tenho minhas dúvidas sobre essas exaltações momentâneas e talvez eu conviva demais com muita gente muito parecida com ele, então não o achei assim tão engraçado pra toda essa repercussão.

Mas acho também que as pessoas não enxergam como essa super valorização da diferença pode ser tão perigosa quando a supressão. A celebração de personagens como Brendan são mais parte do problema do que da solução.

Eu chamo isso de “gay na gaiola” ou “gay no altar”, essas ondas que imitam uma aceitação verdadeira. Um bando de gente gritando aos quatro ventos “olha que legal esse gay aqui”, pois acham que essa sua aceitação, de tão pública, convence os outros de que ela é uma pessoa tolerante de verdade.

É um bullying ao contrário você valorizar uma pessoa “apenas porque” ela é gay, pois a luta é para provar que ser gay é apenas mais uma característica, que ninguém se resume a ser só isso, que um gay é muito mais que esse rótulo.

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Vamos mudar de assunto rapidinho e falar da comunidade negra norte-americana

As notícias de assaltos e mortes com vítimas afro-descendentes não têm destaque nos jornais por lá, enquanto os de vítimas brancas sim. Além disso, sempre que o crime é cometido por um negro, a imprensa cita isso nos títulos das matérias. Quando o criminoso é branco, eles não citam sua cor nos textos. É o que estudiosos chamam há anos de “síndrome da garota branca desaparecida” e que voltou à discussão desde a morte de Michael Brown por um policial e o tratamento que a imprensa deu ao fato.

Um exemplo claro: em um estudo que analisou noticiários televisivos de Nova York durante três meses, percebeu-se que 80% dos suspeitos de roubos nas notícias eram negros, enquanto os registros policiais mostram que, ao todo, os negros representam 50% desse tipo de crime na cidade (fonte). Ou seja, a mídia está sendo tendenciosa em colocar afro-descendentes sempre como sinônimo de bandidos. Isso afeta a sociedade em vários níveis: pode aumentar o racismo, crimes de ódio e movimentos neo-fascistas em geral.

Agora voltando ao assunto: que gays a mídia está mostrando para você? E pros seus pais? E pro seus avôs? E pros seus chefes?

Pois é. Nenhum. Ou bem poucos. E esses poucos são apenas brancos, fortes, ricos e bem sucedidos. Ou de bigode. Ou de rosa. Ou na fila de um show de diva. E como esses gays que a mídia mostra (e que representam todos os gays do mundo para pessoas que não convivem com gays) estão afetando a sociedade? Eles estão ajudando a perpetuar preconceito ou aceitação?

Ser gay é apenas uma característica de uma pessoa, mas quando a mídia escolhe um personagem para representar todos, a comunidade inteira sofre: nunca nenhum gay conseguirá representar todos. Qualquer pessoa (ou estilo de vida, roupa, hábito etc) escolhido para representá-los estará, na verdade, representando apenas uma parcela deles. Na verdade, a importância desses personagens como Brendan é que sua homossexualidade não está camuflada, ele não está vivendo sua verdade em segredo, e a sociedade precisa urgente arranjar um jeito de lidar com isso com naturalidade – apontar e rir não é o caminho.

Como mudar isso? Saindo do armário e sendo a mudança que você quer ver no mundo. Se você acha um saco os clichês sobre homossexuais, se mostre ao mundo como um homossexual diferente desses clichês, mostre que a comunidade é plural. Isso tudo, claro, sem menosprezar quem é diferente de você.

Como disse Vitor Angelo, colunista da Folha nesse artigo:

Essa imagem do gay feminino foi muito desmistificada tempos atrás e hoje podemos ver até em novelas homossexuais que não são afeminados. Mas ela continua presente e intransigente ao selecionar e tachar homens héteros mais sensíveis e delicados como gays enrustidos e mulheres heterossexuais que têm poder e atitude de comando como lésbicas mal resolvidas. Libertar-se da questão que a feminilidade e a masculinidade é componente vital na orientação sexual do indivíduo é uma conquista não só para os gays, mas também para os héteros.

* * *

Eu moro na frente de uma pet shop muito bonitinha comandada por um casal gay. Eles moram no andar de cima do estabelecimento. Daqui da minha janela parece uma vida de muito trabalho mas de certo conforto, aquele alcançado por quem trabalha junto mas numa empresa própria, com apenas um objetivo em comum. E foi daqui da minha janela que ouvi muito gritos vindo da porta deles. Era um senhor aos berros com um deles, brigando por causa das vagas para carros. Não entendi o que houve, deduzi que ele queria estacionar ali mas não era cliente. Só sei que no segundo que se viu exaltado ele mandou a seguinte frase: “Vai tomar no cu, pois é isso que você gosta!”

E eu confesso que estava na minha janela fazendo uma contagem regressiva mental para algo desse nível ser falado.

Gay é assim pra muitos héteros. Você pode até ser. Pode ter na novela. Pode ser o caixa do mercado. Pode ser até o CEO da empresa. Todo mundo aceita e é lindo. Mas na primeira briga, essa é a primeira coisa que é levantada junto com o tom de voz: você é gay, portanto, inferior. Cansei de ver, por exemplo, gay ser chamado de viado logo por sua melhor amiga em uma briga, e aposto que você já viu também.

Foi o que acabou acontecendo com Brendan: a fama de uma criança gay tão auto confiante incomodou muita gente (provavelmente gente muito insegura consigo mesma) e voltou pra ele em forma de bullying.

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Eu não sei o motivo das pessoas gastarem tempo de suas vidas odiando um menino de 15 anos que nunca fez nada contra elas, por trás de uma tela de computador

E aí entra o que podemos aprender com esse menino:

Sermos tolerantes com gays que não são como a gente

Esse gigantesco grupo que chamam de “gays” é cheio de sub-grupos. Barbies, ursos, emos, poc-pocs, indies, modernos, dykes, tuchas, sapatilhas, mini-lésbicas e caminhoneiras são só alguns deles. Por mais plural que isso pareça, cada um pode ser bem fechado e não é difícil ver gays falando mal de lésbicas ou de outros gays. Ok, você pode ser contra estereótipos, mas eles existem pois existem pessoas assim – e elas são felizes, essa é a verdade delas. E elas merecem respeito! Não dá pra lutar pela igualdade se você se acha superior.

Produtos midiáticos (novelas, séries, filmes, livros) acabam sendo propagandas que vendem estilos de vida e não é impossível conhecer negros homofóbicos, lésbicas racistas, gays machistas. Triste, mas é verdade. E precisamos acabar com isso. Apesar das diferenças, estamos no mesmo barco em busca de uma vida boa e justa para todos.

Educarmos nossos amigos héteros

Sim, a palavra é essa. Boa parte da graça de Brandan vem da identificação e, por isso, quando alguém de fora da comunidade compartilha o vídeo, a sensação é que a pessoa está apenas rindo da cara dele. Em mais vezes do que parece, trata-se de um comportamento preconceituoso, mesmo que disfarçado de aceitação ou “humor inocente”. Essa linha é tênue e isso faz que esse vídeo do Brendan tenha uma conotação pra mim e meus amigos (“olha esse menino, que engraçado”), e uma outra bem diferente para minha vizinha evangélica (“olha esse menino, que absurdo!”). Gays não estão aqui para o seu entretenimento!

A vida é curta para viver pensando no que os outros acham de você, mas os não-gays têm um papel importante para o fim dos preconceitos – do mesmo jeito que existem homens no feminismo e brancos nos movimentos negros: eles ajudam, mas não são os protagonistas.

Compartilhar um vídeo de um muleque dançando faz meia dúzia de pessoas rirem, mas não muda o mundo pra melhor. O que muda é fazer seus amigos héteros entenderem seus problemas, é não apoiar empresas que não têm políticas de diversidade, é votar em candidatos que tenham projetos voltados para minorias, é não deixar nenhuma piadinha homofóbica passar impune no trabalho ou na sua casa.

Pelo menos é o que eu acho.

Outros links:
É possível ser gay e gostar de futebol?
Não sou nem curto afeminados
Daniela Mercury não me representa
Não queremos casar, queremos trepar: gays que são contra casamento gay

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6 comentários em “O que você pode aprender com Brendan Jordan

  1. Acho excessivo a atenção e importância dadas a esse garoto afrescalhado, sobretudo por brasileiros.
    Madureira está cheio de meninotes saltitantes, mas todo mundo fecha a cara.
    Mas basta um americano, branco, caprichar no rebolado, que vira cult.

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    1. Você leu o texto? Não é necessariamente sobre ele que estou falando, estou falando exatamente sobre o preconceito que existe com pessoas como ele e o que podemos aprender com elas. A primeira coisa que temos que fazer é respeitar todo mundo – independente de quem são e de onde são.

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