Onde você quer acordar?

– Por que você terminou com seu ex?

Eu não odeio que me façam essa pergunta, mas estranho quando é o atual quem pergunta. Afinal, o que ele quer ouvir? O que possivelmente vai sair de bom de uma resposta honesta pra essa pergunta? Bom, talvez ele já receba um alerta sobre algum tipo de comportamento que é melhor ele não fazer, então decidi responder.

– Ele era meio preguiçoso.

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Você não é jovem demais para se sentir tão cansado?

Era verdade. O moço pediu pra explicar e expliquei: o cara nunca queria fazer nada. Eu sou super fã de ficar em casa e ver TV, mas todo dia? Ele reclamava de ir no restaurante da esquina. No dia seguinte ao que ele dormia aqui em casa, eu acordava, tomava café, ia à academia e ao supermercado e quando voltava ele ainda estava dormindo. Reclamava sem parar do emprego, mas tinha preguiça de procurar um outro e medo de enfrentar o chefe. Não aguentei ficar do lado de tamanha vitimização, de tanto colocar a culpa de suas não-realizações nos outros ou nas circunstâncias.

“Eu já dormi o suficiente”, lembro de argumentar isso quando ele insistia pra eu não sair da cama. E lá eu ficaria se fosse pra ficar deitado abraçado conversando sobre a vida, se ele tivesse me trazido torradas com café, mas ele falava isso e voltava a dormir imediatamente. Eu não queria perder meu dia ali. Meus momentos livres são preciosos demais.

Sei que parecia/pareço babaca, mas nunca ouvi dizer de alguém que chegou em seu leito de morte e disse que queria ter dormido mais. Vamos viver! Dormir é um ato fisiológico, não é um hobby. Mas parece que não é isso que muita gente quer. Muita gente por aí é preguiçosa e se arma de desculpas para justificar suas não-vontades, suas não-ambições, suas não-atividades, seus não-feitos.

Não é muito popular dizer que você não acha dormir a coisa mais legal do mundo – é tipo falar que você não gosta de barba ou de gatos. Mas para minha (boa) surpresa recebi uma resposta interessante para o tweet acima, que me fez entender um pouco mais a coisa:

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E não é? Uma galera que se enraizou em ambições adolescentes e morre de orgulho disso. Quando é que essas pessoas vão crescer?

Nunca ou tarde demais, segundo sugere uma matéria da Vice inglesa sobre a “triste geração que não sabe a hora de parar de festejar”. Nela, falam sobre pessoas que estão no meio da casa dos 20 anos – ou mesmo na casa do 30 – e se contentam com empregos que paguem o suficiente para eles se vestirem e se lavarem enquanto contam os dias para o próximo final de semana. É muito antagônico, na minha opinião, achar que isso é qualidade de vida, esses altos e baixos. Um monte de Ferris Bueller (personagem do supervalorizado “Curtindo a Vida Adoidado”) querendo experiências divertidas sem saber o que fazer entre uma e outra.

A matéria da Vice e o filme falam sobre outro tipo de comportamento, mas casam bem com essa minha preguiça de preguiçosos, pois também tenho preguiça de hedonistas. Quero do meu lado alguém que equilibre essas duas coisas. Quero aprender a equilibrá-las melhor também.

Para nenhuma surpresa minha, quando expliquei o término do relacionamento anterior, o atual ficou cabreiro. Na primeira manhã de sábado que passamos juntos eu entendi o motivo. E relevei por algum tempo, ele valia à pena, mas aí não aguentei novamente.

De fora, sei que todos acham que eu é que devia me acalmar, mas eu só quero descansar quando eu estiver realmente cansado – e cansado de ter feito coisas que realmente valeram à pena.

Os 30 não são os novos 20

Esse assunto sempre me faz lembrar dessa palestra da psicóloga Meg Jay. Ela defende que, apesar das pessoas estarem casando e tendo filhos mais tarde, elas precisam se preparar cada vez mais cedo para terem a vida que querem ter. É uma ilusão essa ideia de que, por estarmos vivendo mais, a vida começa aos 30.

Cuidar dos seus 20 e poucos anos é a mais fácil e mais eficaz maneira de fazer transformações na sua carreira, na sua vida amorosa, na sua felicidade e, talvez, no mundo. Pesquisas mostram que aos 35 anos a maioria das pessoas já tomou todas as grandes decisões que vão moldar o resto de suas vidas.

O que você acha que acontece quando você faz carinho na cabeça de um jovem de 20 anos e diz que ele tem tempo de sobra? Nada acontece! Você tira dessa pessoa toda sua urgência e ambição.

Pois é, pois o buraco é mais embaixo: sim, muita gente se enraizou em ambições adolescentes e morre de orgulho disso, mas é que nossa sociedade apoia esse tipo de comportamento. A mídia trivializa a década mais decisiva da vida adulta e te distrai com um leque enorme de entretenimentos que não te fazem pensar, as pessoas comem o que bem querem sem se importar com o efeito colateral daquilo a longo prazo, não se importam com sua saúde, têm relacionamentos descartáveis ou se casam com o primeiro que aparece só pra não ser mais solteiro, enfrentam filas para entrar numa loja que te sugere ter sempre 21 anos.

Daqui 10 anos, quando essas pessoas finalmente pararem de dormir, onde elas vão acordar? Meu grande medo pra mim e meu grande apelo para todos é: não seja definido pelas coisas que você deixou de fazer.

Quem descansa hoje, tem que trabalhar muito mais amanhã. Ou se contentar em não ter tudo aquilo que, só agora, decidiu que quer ter.

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10 comentários em “Onde você quer acordar?

  1. Ótimo texto, Gabriel! 🙂 Concordo com vc e me sinto um pouco menos culpada por não ser a pessoa que está sempre na praia, sempre na balada e sempre no bar. Mto embora eu queira começar a ficar um pouco mais relax. É o que vc disse: equilíbrio.

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  2. Oi Gabs, sempre leio seu blog, mas raramente comento. Adorei o texto e se encaixa perfeitamente no momento em que estou vivendo, de muita mudança.

    Quando você falou a questão do equilibrio, eu também penso do outro lado, de uma certa glamourização do excesso de trabalho. Trabalho com eventos e noto que existe um orgulho das pessoas falarem que não tem tempo pra vida pessoal. Um dia desses conversando com um colega, ele me contou, quase orgulhoso, que o casamento dele quase acabou por causa do trabalho.

    Estou procurando um equilibrio de um volume de trabalho que eu consiga viver bem e tenha tempo para cuidar da minha vida pessoal.

    Tem dias que acho que me acho muito chato, pois sempre reflito sobre as minhas atitudes e tentando tomar consciência sobre o que eu quero pra mim. Mas tenho tido resultados positivos.

    Feliz 2015 e desculpa o comentário desabafo, rs.

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    1. Nossa, sim. Tem muito disso mesmo! Essa é outra coisa que incomoda, a supervalorização do “ocupado”, também não acho isso legal. O que quero na minha vida é um meio termo. E quem tem orgulho do desequilíbrio (tanto faz pra qual lado) me enche muito o saco. Não quero ser caga-regra, né? Cada um faz o que quiser da sua vida. Agora, pra estar do meu lado como parceiro precisa ter alguns valores em comum comigo. Esse é um deles 🙂

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  3. Sempre leio o seu blog e tinha salvo esse post no facebook dia 30 e li agora. As pessoas lançam olhares de desprezo quando eu digo que durmo pq preciso dormir e que se fosse opcional eu não o faria. É gostoso? Não sei, se tá frio e nublado, gosto de ficar debaixo das cobertas e aproveitar o conforto, se eu dormir como vou sentir isso?

    E não é que não gostaria de dormir pq tenho mil coisas para fazer, mas às vezes quero fazer um pouco de “nada”, no tempo livre que tenho. E esse nada é conversar, rever uma série que eu já assisti mil vezes, assistir de novo aquele filme que não lembro nada, dar uma volta no quarteirão.

    E o pior, é que reparei, que as pessoas que mais dizem “amo dormir”, são sempre as pessoas que estão se arrastando na vida, em empregos que surgem (e não o que querem), em relacionamentos que apareceram e nunca indo ver a peça ou o filme que queria tanto ir.

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  4. Gabriel, descobri seu blog por um amigo e a cada texto me sinto mais conectado com seu modo de pensar. Essa infantilização da sociedade é a maneira mais eficaz de garantir o totalitarismo dos governantes, disfarçados de boas oportunidades para todos. Parabéns pela escrita objetiva, clara e com temática tão rica. Grande abraço

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