Lena Dunham: conheço esse tipinho de menina

Acabei de ler a última frase do livro “Não Sou Dessas” (“Not That Kind of Girl”), obra de não-ficção de Lena Dunham, mais conhecida pela série “Girls”, da HBO – que ela criou, estrela e roteiriza grande parte. É desses livros geniais que não são nada demais. Uma grande característica do trabalho dela de forma geral.

Lena Dunham irrita muita gente, o que ela tem de fãs ela tem de haters. E ela irrita pois ela não é, digamos, especial.

Podemos concordar que escrever sobre um grupo de meninas é menos complexo que escrever um “Game of Thrones” ou “Scandal”, certo? Certo. Mas o que Lena faz é fácil? Não! Escrever um livro (mesmo que autobiográfico) e um seriado líder de audiência da HBO (mesmo que parcialmente autobiográfico) não é um trabalho mole. Mas parece ser, parece prazeroso e dá muito, muito dinheiro, então a gente fica aqui, amando odiar tudo isso (ou seria odiando amar?).

Sinto que essa sensação por Lena é aquela mesma resumida num pôster que descreve arte moderna como a soma de “eu podia ter feito isso” com “sim, mas você não fez”. Lena não é especial e talvez isso faça dela especial: achamos que o que ela faz qualquer um poderia fazer, esquecendo de perceber que não tem ninguém mais fazendo do jeito que ela faz.

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O começo do livro, por exemplo, é recheado de histórias sexuais, como a de quando perdeu a virgindade e de como foi se masturbar pela primeira vez. Assuntos que todo mundo consegue se identificar em algum nível pois todo mundo passou por isso de alguma forma. A diferença entre as nossas experiências e as dela é que, devido à sociedade hipócrita que vivemos, não falamos tão abertamente disso com nossos amigos, companheiros, colegas ou familiares. São coisas tratadas como tabus, íntimas demais ou vergonhosas até. E é exatamente essa hipocrisia que abre espaço para pessoas que ganham tubos de dinheiro apenas por conversar a respeito do tema. O que ela faz bem.

Se de repente todo mundo prestasse atenção no que você dissesse, você diria coisas diferentes? Ela conseguiu se colocar num lugar onde ela é, finalmente, ouvida. Não é que ela tenha tudo isso a dizer, mas ela tornou públicas experiências e sensações que as pessoas (não todas, mas boa parte) viviam em sua vida privada sem saber como os demais lidavam com as mesmas questões. E isso pode ajudar (e, de fato, ajuda) muita gente a pensar, a superar medos e angústias por saber que não estão sozinhos nessa.

Uma matéria do El País, fala disso:

Até a chegada de Girls, o sucesso pertencia ao seriado Sex and the City, com atraentes balzaquianas, e séries de adolescentes desajeitadas; mas existia um vazio para as que ficavam no meio-termo. “Entre os filmes pornô e as comédias românticas melosas não havia nenhum padrão que pudesse ser seguido para as garotas normais de 20 anos. Por isso, cada vez que uma espectadora me diz que a série lhe ajudou a se sentir mais segura em sua vida sexual, me sinto feliz”

Seu livro mostra isso de forma clara. No capítulo que ela fala sobre como começou a fazer terapia, por exemplo, ela não conta quase nada de novo pra quem passou por processos ou problemas psicológicos parecidos. Mas soa extremamente corajosa para a menina do subúrbio que não se sente normal e cujos pais acham que terapia é coisa de doido. Eu não fui essa menina. Eu tive uma mãe compreensiva, eu fiz terapia e resolvi (ou estou resolvendo) meus problemas de um jeito ou de outro. Mas os fãs de Lena não são formados por “eus”. Ela percebeu que a experiência dela podia fazer bem pros outros, bastava contar sua história. E se esse compartilhar lhe rende louros, que culpa tem ela?

Captura de Tela 2015-01-30 às 10.38.58O chato é que são páginas e páginas de nada além disso, ela falando dela mesma. Um crítico musical (infelizmente faz tempo e não lembro quem) escreveu sobre uma coletânea que o Capital Inicial tinha acabado de lançar na época: “não tem nada pior que uma banda medíocre achar que não tem mais nada para provar”. É o caso aqui. O recorte que ela faz da vida dela acaba sendo íntimo demais para o meu gosto. Um longo capítulo sobre um cara qualquer que tentou trepar com ela sem camisinha e duas frases sobre como essa história inspirou seu primeiro curta-metragem. Puxa, eu queria muito mais saber como foi o processo de escrita desse curta, filmá-lo, editá-lo etc. Isso ela não conta.

Dois grandes acertos: a passagem sobre o medo da morte e os acampamentos de sua infância (esse até me inspirou a escrever sobre o meu). São momentos que ela se distancia um pouco mais dela mesma e fala sobre temas (bem) mais abstratos que a própria dieta (sim, ela fala disso). E outra falha do livro na minha opinião: pouco se fala de “Girls”, o seriado que finalmente a colocou no mapa em escala global. Histórias de bastidores, fofocas ou curiosidades sobre a série são escassas. Mas há um capítulo extremamente longo sobre o livro que ela planeja escrever aos 80 anos e outro com e-mails que ela nunca mandou. Esses dois trechos são engraçados e curiosos, mas não me interessam. Senti que estava lendo o blog de uma pré-adolescente branca mimada. Talvez eu estivesse.

Mas é bom lembrar:

Homem algum na literatura foi empurrado para a subcategoria “literatura masculina”, porque, adivinha? Isso não existe. Sem contar as vezes que senti que meu trabalho não era levado a sério por ter elementos autobiográficos. “Confessional”, gostam de dizer. Alguém chamou Bukowski de confessional? Henry Miller? Fernando Pessoa? Alguém colocou a literatura deles em questão por causa dos elementos autobiográficos? Eu acho que não. (Clara Averbuck)

Talvez ela seja jovem demais pra um livro de memórias, mas todo mundo tem histórias pra contar. É responsabilidade do leitor identificar se tais histórias são relevantes ou não para ele.

Muita gente considera Lena boba ou burra ou frívola quando, na verdade, ela é um gênio. A diferença é que ela é um gênio compreendido – e por uma parcela pequena de pessoas, mas é apenas essa parcela a que importa. O sucesso dela não devia incomodar quem não vê graça nela: vivemos em uma época de grandes mercados de nicho, uma época em que pessoas mundialmente famosas não são conhecidas por todas as pessoas. Não existem mais Michael Jacksons, gente conhecida do subúrbio do Rio de Janeiro até o mais alto cargo público da Islândia. Existem Lena Dunhams – famosíssimas, mas em um grupo muito específico de pessoas.

E tudo bem. Nem tudo é pra todos. E Lena, definitivamente, não é pra qualquer um.

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Foto: Mike Marsland / WireImage / BuzzFeed

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