Batiscamp

Acampamentos nunca me chamaram atenção. Não é um hobby tipicamente brasileiro e mesmo nos filmes, onde mascaram ou ocultam o lado chato de acampar, aquela atividade me parecia entediante. Barracas, lama, falta de eletricidade, falta de água encanada? Não, obrigado.

Mas era lendário no colégio batista em que estudei: os estudantes da quarta série passam três dias no famoso Batiscamp. Parecia um paraíso: longe dos pais, nada de aulas ou deveres, cercado de seus amigos, piscina à disposição e comida regularmente. Seriam dias memoráveis, com certeza.

E foram, mas não sei se pelos motivos certos.

O tema do acampamento era OQJF?, sigla para “o que Jesus faria?”; descobri depois ser a tradução de uma tradicional linha de pensamento protestante norte-americana. No colégio, uma vez por semana, nos reuniam no auditório e ficavam cantando músicas de louvor – eu estava lá sentando, mas meu envolvimento com essas atividades beirava o zero. Havia uma música tema para o acampamento que foi ensaiada nos dias anteriores. Nunca esqueci a letra:

OQJF? é a pergunta que eu lhe faço
Se o seu objetivo é viver sem embaraço

Muita gente vem dizendo que ter vida bem feliz é ter money
Ir na Disney, sacudir e se expandir
Mas o que Jesus faria com certeza é bem melhor:
Gastaria os seus dias fazendo o bem maior

Amor, perdão, amizade e união
Amor, perdão, amizade e união

Eu quase vomitava de pavor com essa letra horrorosa. E era obrigação no acampamento cantá-la uma vez por dia. Sabe aquele horário semanal que tínhamos para um momento gospel? Se tornou diário no acampamento.

Um dos meninos que cantava com mais alegria era Roberto*, um moreno bonito de família tradicionalmente evangélica. E foi ele mesmo quem levou uma revista de mulher pelada (é assim que eu chamava essas publicações na época) para o nosso alojamento.

Aquilo virou o assunto do momento e todos os meninos no meu quarto – deviam ser umas 7 camas beliche – passaram alguns bons minutos com os olhos vidrados nas páginas. Eu não pertencia ao grupinho de Roberto, tentei observar de longe e sem sucesso. Algumas horas depois, enquanto eles se ocupavam lá fora com a novidade seguinte (no caso, um pacote de pipoca de micro-ondas sabor queijo, uma comida sofisticada e cara demais para a época) mexi escondido no colchão dele pra folhear a revista. E não era uma Playboy, com mulheres perfeitas, photoshopadas e em iluminações que as favoreciam. Elas eram mais velhas e descabeladas, estavam em posições que nunca tinha visto numa Playboy e fazendo coisas que nunca tinha visto num circo. Um exemplo que está grafitado no meu cérebro é de uma moça muito simpática tirando uma lata de Coca-Cola de sua vagina. Perceba: tirando, não colocando.

Parêntesis: até então, e que eu me lembre, as únicas mulheres nuas que eu tinha visto foram: minha mãe (num acidente que somava seu banho à sua distração não trancando a porta), minha empregada (que espiei pela fechadura do banheiro enquanto trocava de roupa) e Adriane Galisteu (cuidando de seus pelos nas páginas da tal Playboy).

Entre essa revista e o micro-ondas com pipoca, outra distração dos meninos era encher camisinhas – sei lá quem as trouxe – com água. Cara, sério, meninos são muito bobos. Meus poucos amigos ali estavam se entretendo com isso e com outra coisa que nunca me entreteu: esportes. Tinham quadras de todos os tipos ali e nenhuma me interessava. E, como os alojamentos eram separados por gênero, acabei separado das pessoas com quem mais conversava e passei muito tempo sozinho. Nessa época eu tinha mais amigas meninas (isso é comum na infância de meninos gays?), mas nem elas me davam muita atenção ali. Estavam interessadas em falar sobre roupa e cabelo e maquiagem – afinal, não é todo dia que seu colegas te encontram com qualquer coisa que não uniformes, então você precisa estar com uma boa aparência e isso leva tempo e planejamento. As compreendo.

Então eu via a piscina de longe. Lia revistinhas em quadrinhos. Reorganizava minha bagagem já reorganizada. Ficava horas examinando os patos num dos lagos. Comia biscoitos recheadas caros – eles eram raros em casa, mas foram comprados pra eu levar pro acampamento, já que todo mundo ia ver o que os outros levaram. Na beiradinha desse lago, sentei com um boné ridículo com a palavra “Batiscamp” estampada pousado no topo da minha cabeça e tirei uma foto da minha própria cara, usando uma câmera automática antiga com um filme de 24 poses. Talvez eu tenha inventado as selfies.

No penúltimo dia, um dos assistentes do professor-pastor chegou com uma mochila cheia de cartas escritas pelos nossos pais. O frisson foi geral, todos loucos para pegar seus respectivos envelopes. Eu, que já era uma criancinha blasé, não fui enganado: uma semana antes, a professora havia dado um envelope lacrado para cada um e ele deveria ser aberto apenas pelos nossos pais e devolvido lacrado depois. Era tão óbvio que essa carta tinha sido escrita antes mesmo de termos saído da cidade que todo o passeio e todos os meus coleguinhas me pareceram idiotas naquele minuto. Provavelmente essas cartinhas falando “estamos com saudades de você” foram escritas com os filhos na sala do lado! Como ninguém mais percebia isso? Como um documento tão secreto e lacrado da professora não despertou a curiosidade de vocês? Como vocês já esqueceram da semana passada? Aff, crianças são muito infantis.

No meu caso, não lembro nenhuma palavra da carta escrita pela minha mãe, mas lembro de todas as quatro frases enviadas pelo meu pai: “Já nadou? Já fez xixi? Já fez côco? Então volta que eu tô morrendo de saudades”. Fiquei tocado pela sensibilidade de citar atos fisiológicos no que deveria ser uma declaração de amor aos seus filhos. Mais uma oportunidade de criar laços totalmente perdida. Parabéns, pai.

Quando viajamos para um lugar que gostamos, por mais que a gente goste de lá, adoramos voltar pra casa. Nossa casa, nossa cozinha, nossa rotina, nossa cama com nosso lençol. A volta do Batiscamp também foi boa nesse aspecto. Nunca valorizei tanto ter um quarto só pra mim e ouvir a música que eu queria na hora que eu queria, por exemplo.

Guardei comigo (até agora) como essa excursão foi chata. Tinha sido caro e eu sentia que era injusto com meus pais voltar reclamando. E sentia isso ainda mais quando via todo mundo ao redor se divertindo, me provando que o problema era comigo. E era mesmo: eu não pertencia àquele lugar, eu era o errado ali. Não por acaso, voltei de lá com uma lista de coisas que, agora com certeza, sabia não ter nada a ver comigo. Acampamentos. Jesus Cristo. Meu pai.

Essa má experiência foi parte do motivo de eu nem ter pedido autorização dos meus pais para ir numa outra excursão, alguns anos depois, ao parque Hopi Hari. O outro motivo foi que todos estavam secretamente fazendo planos de transformar essa viagem numa desculpa para se declarar para quem estavam a fim e transformar tudo num imenso festival de pegação – mas respeitosamente protestante. E eu, que estava simultaneamente apaixonado por um menino hétero e uma menina comprometida, achei melhor ficar calado.

E fiquei bem calado. Bem quieto. Quietinho mesmo. Por anos e anos.

*Nome alterado
*História pessoal e verdadeira, mas me inspirei nessa

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2 comentários em “Batiscamp

  1. Fiquei muito horrorizada quando uma amiga ~descolada da 6a série foi num acampamento do qual nada queria falar, e depois me contaram que era o acampamento batista. Ela tinha gostado muito e ficou com vergonha de falar que era um encontro ~crente. Foi quando eu parei de achar ela descolada tambem 😦

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