O pop tem razão: “Living for Love”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?”. Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem sentido pra mim.

Tem dias que não paro de ouvir “Living for Love”, o mais recente single de Madonna, parte do álbum “Rebel Heart”. Gosto de como a música se inicia em um lugar e termina em outro completamente diferente: começa com um pianinho da Alicia Keys, vira um dance noventista cheio de paradinhas e bateria eletrônica, pra terminar como um hino gospel cheio de corais.

Mas a letra, ah, essa letra! Nos mais de 30 anos de carreira, Madonna já cantou muito sobre comecinho de paixão, sobre se divertir adoidado e sobre divórcio. E essa música entra bem nessa coletânea: não fala de frio na barriga ou olhares trocados na pista de dança, mas narra a jornada de um relacionamento que, apesar de ter acabado, não matou as esperanças de que um novo amor vai chegar e ser arrebatador.

É uma ideia que eu mesmo preciso ficar me lembrando. Depois de um certo número de pés na bunda ou socos no estômago, você tende a perder as esperanças, a generalizar as pessoas, a se recolher ou a se jogar nos lugares errados.

“Primeiro você me ama e eu te deixo entrar. Me faz sentir que nasci de novo. Você me empodera e me faz forte. Me construiu como alguém que nunca erra”, diz no começo. Mas aí as coisas vão mudando: “Eu baixei minha guarda e me joguei nos seus braços. Esqueci quem eu era, não ouvi os alarmes. Agora estou de joelhos, sozinha no escuro. Eu não vi o seu jogo e você atirou uma bala no meu coração”. Dramática? Imagina.

“Me levou aos céus e me deixou cair. Agora que acabou, eu vou continuar. Me colocou lá em cima e me observou tropeçar. Depois da mágoa, eu vou continuar”, diz a próxima estrofe, já anunciando o refrão de esperança. “Vivendo para o amor, não vou desistir, não vou parar”.

E a mensagem de esperança, sóbria e agridoce, continua: “Eu poderia me perder em amargura, mas não vou ficar no meio de toda essa bagunça. Eu achei liberdade na feia verdade: eu mereço o melhor, e não é você”.

E minha parte favorita: “Você quebrou meu coração, mas não vai me derrubar. Eu me quebrei, estava perdida, mas me achei. Peguei minha coroa e coloquei de volta na minha cabeça. Eu posso perdoar, mas nunca vou esquecer”. Adoro essa parte pois, pra mim, não tem a ver com vingança e sim com aprendizado. Não sofrer com o passado é ótimo, mas aprender com ele é necessário. E quanto mais babacas temos no nosso currículo, melhor fica nosso filtro para o futuro. É só continuar vivendo para o amor que ele vem.

No clipe da música, Madonna é uma toureira domando minotauros, figura mítica do homem com cabeça de touro. Ela dança belamente com todos até ser a última sobrevivente e com um par de chifres nas mãos, o símbolo de força e virilidade do tal bicho. Boa metáfora.

O clipe termina com uma citação de Nietzsche (aliás, está faltando um S no nome dele no vídeo, vixe):

O homem é o animal mais cruel. Foi com tragédias, touradas e crucificações que até agora ele se sentiu melhor na Terra; e, quando inventou o inferno, este foi seu céu na terra.

Mas o texto que mais diz respeito à mensagem da música é o de abertura da apresentação que ela fez no Grammy:

Esta será a revolução de investigar mais, de não precisar ganhar a aprovação de outro, não desejando ser outra pessoa, mas perfeitamente contente em ser quem você é. Alguém único e raro e sem medo. Eu quero começar uma revolução do amor.

Amém, Madonna.

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