Qual é a sua moeda de troca?

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Depois de alguns anos sendo a âncora do “Weekend Update”, o jornal satírico do programa de humor “Saturday Night Live”, onde também roubava a cena em vários esquetes, a comediante Amy Poehler ganhou o mundo com o papel principal da série “Parks & Recreation”. Em 2014, ela lançou um livro chamado “Yes, Please” – esse aí em cima sou eu orgulhosamente segurando meu exemplar dele.

Ela fala sobre os bastidores dos programas, sobre maternidade, casamento, divórcio e sobre a própria infância. Até onde estou no livro, nada me fez pensar mais que o trecho que ela fala sobre quando namorou um cara que era modelo. Ele era lindo, lindo, lindo. Um dia, enquanto ele estava fora de casa, ela deu uma fuçada nas coisas dele – hábito que ela jura ter parado de fazer – e achou um diário. Nas páginas, o tal cara havia escrito sobre ela: dizia que, apesar de não a achar muito atraente, seguiria com o relacionamento pra ver onde ia dar. E completava dizendo que estava com orgulho de si mesmo por ser capaz de namorar uma menina, digamos, abaixo do nível de beleza dele.

Amy escreve:

Eu fui pra casa e chorei e demorei tempo demais pra terminar com ele. Mas eu fiquei ok no fim das contas e você também ficará. Eis o motivo: eu já tinha tomado a decisão mais cedo que eu seria uma garota comum com muita personalidade, e aceitar isso deixou tudo mais fácil. Se você tiver sorte, terá um momento na sua vida que lhe é dito qual moeda de troca será a sua. Eu tinha decidido que não seria minha aparência. […] Decida qual é a sua moeda o mais cedo possível. Abra mão daquilo que você nunca vai ter. Gente que pensa assim é mais feliz. Ser considerado bonito pode ser difícil. Eu sei pois trabalho em Hollywood, lugar cheio das pessoas mais convencionalmente bonitas do mundo. Gente bonita pode ser objetificada e subestimada. Eles não fizeram nada para ter os genes que têm, então precisam lutar para mostrar que são mais do que apenas seus corpos. Deduzem que eles são felizes e bons de cama, e isso não é verdade na maioria das vezes. E algumas pessoas bonitas ficam viciadas em serem chamadas de bonitas e enfrentam muitos problemas quando ficam velhas, não recebem atenção ou são traídos por seus cônjuges com alguém “normal”. […] Ser escritora/roteirista me deu uma sensação de poder incrível, e minha moeda de troca se tornou o que eu escrevia e falava e fazia.

Esse trecho me fez fechar o livro por alguns minutos.

É verdade, há esse lado chato de ser considerado bonito: você apenas segue um padrão, você não é visto como nada além desse rótulo e sofre com outros vários problemas. Uma amiga costuma brincar dizendo que o grande teste de beleza feminina é chorar no trabalho: se vierem te perguntar o que houve, você é bonita; se não, não é. Talvez por isso as pessoas tenham medo de se reconhecer nesse rótulo, independente do contexto. Quantas vezes alguém vai chegar pra gente e dizer “você é bonito” e responderemos “você que é” (um elogio em resposta e, ao mesmo tempo, um jeito de negar o elogio que nos foi feito) ao invés de responder “você também” (um reconhecimento do elogio feito e um novo elogio dado)?

Mas as portas que são abertas para pessoas bonitas também são várias, de sucesso profissional até serem livradas de um crime. Todo mundo quer ser bonito, todo mundo quer sim ser considerado bonito por alguém. Como equilibrar isso?

Jane Elliot é dona de um documentário sobre racismo chamado “Olhos Azuis”, que todo mundo devia assistir tipo uma vez por mês. Ela divide um grupo pelas cores dos olhos e estipula que quem tem olhos azuis, de agora em diante, será considerado inferior. É um exercício absurdamente impressionante. Em um momento, ela é confrontada por uma “Valley girl”, nome dado às patricinhas de Los Angeles por morarem nas casonas do subúrbio de San Fernando Valley, conhecidas por serem muito ricas e lindas.

Se você não conseguiu ver o vídeo, é isso que ela diz:

Uma Valley girl? Vou te falar uma coisa. Vou lhe dar um conselho muito valioso. Vá além da beleza. Eu estou falando sério: supere a beleza. Você será bonita até ter mais ou menos 45 anos. Depois disso, você vai ser apenas uma coroa. E vão ter várias mulheres de 18 a 40 anos mais bonitas que você. Aí lá, você vai dizer: “eu quero ser promovida” e vão te responder “você não é qualificada, é apenas bonita”. E você vai protestar: “sexismo!”

Mulheres, vão além da beleza. Tornem-se competentes. Busquem treinamento, tornem-se capazes. Superem a beleza.

E aquelas de você que são chamadas Patty, Debby e Suzy, parem com isso! Pois damos esse apelidos às mulheres para infantilizá-las. Mantemos as mulheres em seu estado infantil usando esse nomezinhos. Superem isso! Se quiserem ser levadas à sério, sejam sérias. Superem isso.

O que Amy e Jane falam é a mesma coisa de formas diferentes: há mais do que aparência no mundo. A atriz, em seu livro, conta como ser branca e loira lhe abriu portas, mas mostra que foi a competência no que fazia que a manteve dentro do cômodo. Já a psicóloga faz de tudo para mostrar que os julgamentos que fazemos baseados na aparência (especialmente cor da pele, mas ela também cita gênero, nacionalidade e orientação sexual no documentário) não fazem eco ao que a pessoa pode ser intelectualmente.

Todo o tempo que eu fiz terapia, lidei com opostos que me davam igual prazer: comer só coisas orgânicas e saudáveis, comer só junk food. Ir pra academia todo dia, não fazer nenhum exercício nunca. Ter um namoro sério, pegar pessoas sem compromisso. Ler todos os grandes clássicos da literatura, ver apenas filmes comédia blockbuster. Pra mim, eram ideias antagônicas demais para andarem juntas e passei minha adolescência inteira tentando achar o equilíbrio.

E chego no meu ponto: sim, somos mais que nossa aparência, mas vale à pena descuidar dela em nome da nossa própria seriedade? Eu acho que não – pelo menos não completamente. Como as duas mesmas disseram, ser competente é mais importante, mas ser bonito te dá algumas vantagens. Que tal tentar unir as duas coisas? Aliás, não “ser bonito”, mas se sentir bem sendo quem você é. A confiança que uma roupa nova ou um novo corte de cabelo dão, ajudam bastante a liberar um lado seu muito melhor no trabalho e na vida privada, pelo menos comigo é assim. Você dá um gás de confiança extra na hora de expor suas ideias se está confortável na própria pele.

A questão, pra mim, é tentar achar o meio termo entre se importar com minha aparência sem ficar abitolado ou achando que preciso de plástica para ter o nariz igual do Fulano de Tal, mas também não deixar esses cuidados tomarem meu tempo ou muito do meu dinheiro, pra eu conseguir consumir cultura e absorver pontos de vista diferentes sobre questões que me interessam. E, ao mesmo tempo, não deixar que isso ocupe tanto de mim que eu não consiga ter 5 minutos livres de noite pra passar um adstringente na cara. Afinal de contas, como Amy e Jane pontuam, a gente envelhece uma hora. Isso não significa jogar tudo pro alto, significa que há um limite pro que você pode fazer pela sua própria aparência. E vai ser um terror chegar na terceira idade vendo que gastei muito esforço em algo que se foi, vendo que poderia ser um velho diferente se tivesse feito escolhas diferentes, tido outras prioridades. Uma vida inteira diferente, na verdade.

Escrevi nesse texto aqui que real beleza é ver valor em todo tipo de beleza e é isso que me fez acalmar os demônios adolescentes que gritavam que eu era feio e ninguém nunca ia gostar de mim. Cada um tem seu conjunto de características que acha bonitas nos outros, cada um tem tesão em certas coisas – e essas coisas podem ou não estar em sintonia com o que aparece nas páginas de uma revista e nos filmes. E, para o bem da maioria de nós, geralmente não estão.

Injusto é achar que todo mundo ao redor tem que ser do jeito que você gosta. Por baixo dessa ponte que chamamos de aparência física corre muito hormônio, glândulas, genes, escolhas e estilos de vida. Mas por baixo da ponte da ignorância tem muito mais coisas, que vão de preguiças pessoais a reais faltas de oportunidade, impossíveis de serem medidas por terceiros.

Então acho que as afirmações de Amy e Janet se complementam de uma maneira muito interessante. A beleza de Amy é inegável e ela continua bonita passando dos 40 anos de idade. Mas foi sua competência no campo da comédia que a manteve no topo, não sua beleza. Exatamente o conceito de Jane, ao dizer que a melhor arma do mundo é ser capaz.

E qual é sua moeda de troca, afinal?

Sempre seremos julgados pela nosso aparência, por isso cuidamos dela. Mas também sempre seremos julgamos pelo nosso intelecto, então é bom cuidar dele também. Uma pessoa ou outra, uma hora ou outra, vai te enxergar só por uma dessas duas características. Qual você quer que seja? Você acha que a falta de uma vai compensar a outra até quando? Acho uma boa ideia ter os dois afiados. Ser alguém na noite e alguém no dia também.

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