Vamos fazer alguma coisa?

“Não, não sou de São Paulo, sou de Belo Horizonte, moro aqui tem 2 anos e meio mais ou menos. Sim, eu gosto daqui, vinha muito quando era pequeno, meu pai é daqui, na verdade. Tenho família aqui sim, mas não sou próxima dela. Com publicidade. Numa agência, é legal sim. Na verdade, sou formado em jornalismo, mas sempre trabalhei em agência. A agência é perto de casa. Sim, dá pra ir a pé. Aham, super qualidade de vida isso, né? Com ninguém, moro sozinho mesmo” etc etc etc.

Já decorei todo o meu texto de primeiro encontro. Sempre me perguntam as mesmas coisas, o básico do básico. É chato repetir, mas são coisas que realmente preciso responder se quiser falar de mais coisas no futuro.

Tudo começa do começo.

Mas cada vez que encontro um novo alguém, tenho mais preguiça de recitá-lo e vou falando menos coisas. A parte boa disso é que me faz querer ouvir mais, pergunto mais, fico mais é com vontade de saber da outra pessoa. A minha história eu já sei.

Mas aí vem à tona todos os meus julgamentos e preconceitos e acabo com preguiça da pessoa antes de terminar meu café. Aliás, eu não bebo café e sim um chocolate ou um suco, mas sempre querem me levar na Starbucks.

Há zero glamour ali, mas fica caro sair pra jantar com qualquer mané que te chama pra sair. Então dão um passo pra trás em nome do bolso. Pensam: se o cara for legal e isso aqui der certo, vamos melhorando os locais que frequentamos com o tempo. Esse fast-date custa só 10 reais e dura o tempo que você leva pra beber 300 ml de algum smoothie químico. Ou seja, dá pra picar a mula de forma elegante em 20 minutos se a pessoa for babaca. Se a pessoa for legal, a noite pode escalar para um cinema, mas nunca dá pra começar pelo cinema pois é muito tempo junto de uma vez. No final das contas tudo isso é, no mínimo, uma saída de casa. E sair de casa é algo que preciso fazer pois as liberdades de morar sozinho têm me tornado ermitão.

Tudo isso que descrevi é divertido por si só. São coreografias repetitivas as vezes, mas que geralmente conduzem a um grand finale diferente – de beijos na rua e/ou sexo em casa até o tal inocente cinema ou um tchau-nunca-mais-quero-te-ver. Tem dates que te dão vontade de morrer, mas a gente continuar se arriscando pois é de uma gostosura indescritível pegar na mão de alguém que você gosta pela primeira vez, beijar essa pessoa pela primeira vez, deslizar os dedos no cabelo dela pela primeira vez, estudar como encostar nela na sala escura de um cinema.

Eu não acho que conhecer várias pessoas é ruim, não sou contra esses aplicativos de pegação, contra one-night-stands, fuck-friends, gente que tem relacionamento aberto ou curte coisas a três. Ruim era ter que casar virgem, ruim era ser obrigado a casar com quem seus pais mandavam, ruim é não ter opção, é não poder escolher, nem experimentar.

Mas tirei um final de semana para finalizar a leitura de um livro e, quando vi, não tinha lido uma página e tinha ficado tempo demais conversando com ninguéns num desses apps. Me senti tolo e me auto-sabotando, de alguma forma. E, como me conheço bem, achei melhor deletar todos do meu celular pelo bem de não cair em tentação. Talvez um dia eu volte, mas no momento estou com preguiça.

Ando sem perspectiva de vida a dois. Não por achar impossível de existir, mas por ver poucas pessoas capazes de me oferecer algo realmente diferente dos demais. Essa sensação tem pouquíssimo a ver com as circunstâncias que conheço tais pessoas e, agora, as distrações que esses aplicativos têm me oferecido não estão me satisfazendo – sem falar nas bizarrices desnecessárias que você acaba vendo sem querer neles ou no fato que inevitavelmente você acaba com uma agenda lotada de nomes que nem lembra o rosto. No geral, sinto que estou perdendo tempo dando muita atenção a idiotas, mas sinto também que não andarei pra frente nunca se me fechar para todo mundo, sem critérios.

“São exatamente os meus critérios que me cegam”, praticamente grito para a minha analista, como se fosse uma grande descoberta. Mas ela – e eu – já sabemos bem disso.

Eu começo fazendo vista grossa para tudo aquilo que me irrita na pessoa em nome de alguma esperança ou atração que nem sempre sustenta aquilo. E aí, quando não aguento mais, vi que o que fiz de verdade foi perder tempo ali: eu podia ter pulado fora quando vi os primeiros sinais de que não iria gostar da pessoa. Preciso ser mais honesto comigo mesmo.

Mas, ao mesmo tempo, talvez seja infantil demais ficar pulando de um lado pro outro, pois isso não vai resolver nada também. Se me acostumo a isso, posso acabar pegando um impulso que não me deixa ver que pulei fora de um lugar que adoraria ter ficado um pouco mais – ou pra sempre.

– Mas esses critério são quais? – ela me pergunta sentada calmamente na sua poltrona verde musgo, óculos na ponta do nariz.

– Muitos – respondo baixo.

E, em seguida, vomito uma lista que parecia estar na ponta da língua. Coisas que considero profundas como ter caráter e ser honesto e ser contra pena de morte, e outras que não consigo ignorar mesmo sabendo que são bobas, como não usar anéis ou não acreditar em suco detox ou não ser fã de Rihanna ou não usar escapulário. Por isso essa eterna sensação que nunca vou achar alguém pra andar do meu lado no meu ritmo ou nunca vou achar alguém tão legal que me faça querer mudar o meu ritmo. É idiota querer que alguém cumpra um protocolo que só você conhece, mas seria idealizar demais achar alguém que seja legal o suficiente pra te fazer ignorar o tal protocolo? É bom abrir a cabeça e o leque de opções, mas quão longe é longe demais?

Eu acho que sou super agradável quando saio. Apesar de certa timidez, consigo conversar com desconhecidos em festas em casa e passar cantadas em desconhecidos em baladas. O problema é me fazer sair de casa de fato. Aqui dentro eu sou um pequeno ditador e tudo é como eu quero, navego por águas que conheço e me sinto muito seguro sem dividir opiniões e poder. Mas a graça das aventuras é não se sentir tão seguro, né? Então, quando deletei os aplicativos, coloquei no horizonte um desafio pessoal pra me tirar da minha concha: recusar o mínimo possível de convites para “fazer alguma coisa”, e fazer mais convites também. Parece idiota isso, pois a maioria das pessoas já vive todos os seus dias assim, mas pra mim é um esforço que precisa ser consciente. Mesmo cansado a gente acorda e vai pro trabalho. Pra quê usar cansaço como desculpa pra não sair e ver os amigos e aproveitar a cidade?

E, sem exemplificar pra não expor nada mais pessoal, vos digo: tem funcionado.

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6 comentários em “Vamos fazer alguma coisa?

  1. Acordei pensando se eu deveria aceitar um convite para um programa hoje à noite (sexta). Confesso que não iria aceitar. Mas, lendo a postagem, me identifiquei com muito do que foi contado aqui, e decidi imediatamente que iria sim. Concordo com sua opinião: recusar o mínimo possível para “fazer alguma coisa”. Obrigado pelo incentivo.

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  2. As pessoas nunca se encaixaram perfeitamente em nossos critérios, pois são pessoas diferentes.
    Porém, quando estamos dispostos a conhecer e deixar fluir, a pessoa apenas adentra um espaço que antes estava vazio e nem você tinha percebido! E é isso que é gostoso!
    Muitas vezes, achamos que estamos bem sozinhos, acomodados, felizes de fato! Quando de repente: BANG!
    E a pessoa já assumiu o espaço que estava ali reservado para ela!

    Existem pequenos detalhes que fazem toda diferença!

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  3. nossa…nao usar aneis?! que louco………tenho uma amiga que so quer namorar mulheres de tal signo com ascendente em outro…..isso foi a uns 10 anos atras……..ela esta sozinha ate hoje, ainda na tal procura do “signo dos sonhos”

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