Obras de arte

Vou dormir e acordo com um típico frio na barriga. Uma pequena vontade de chorar que não vira lágrimas e que sai de mim por completo na primeira distração no caminho. Se eu vejo ou ouço alguma coisa bela ou triste durante o dia, ela faz que vai voltar, mas adormece em mim novamente pra acordar de noite, mais uma vez. Já acostumei com esse entalado na garganta.

Esse frio que sinto tem muitos motivos, mas não tem um nome. Tenho isso há alguns anos, e culpo essa falta de equilíbrio entre ser extremamente emotivo e ser completamente entorpecido. Emotivo pois tudo mexe comigo e meu exercício de ver sacralidade (e não preciosidade) em tudo funcionou bem e nunca mais vai sair de mim. E entorpecido pois sinto que enxergo um pouco mais do que as pessoas se mostram e sinto pouca vontade de interagir com personagens. Eu fico parado ou correndo. Faminto ou cheio. Bem longe ou no meio.

Mas um outro exercício que tenho feito é tentar enxergar além desses personagens. Desconstruir as pessoas e dar atenção aos detalhes que, talvez, nem elas vejam em si mesmas. Que nem seus pais ou companheiros tenham reparado. Enxergar que todo mundo é uma obra de arte, sabe? Alguns são pinturas renascentistas penduradas em museus europeus e que formam fila para serem vistas por um minutinho. Outros são muros grafitados que pouca gente pausa para perceber – mas que quem percebe, e aprecia cada detalhe, nunca mais vê a cidade (nem a vida) do mesmo jeito.

Isso mudou um pouco as coisas nas últimas semanas. Não sei quanto tempo vai durar, mas me surpreendi. Vi que minha vingança (se é que tenho alguma dentro de mim pronta para vir à tona) será artística, não pessoal. Lentamente estou parando de fantasiar em não aceitar aqueles pedidos de desculpas que sei que nem vão vir. Parando de fantasiar com realidades e oportunidades que estão longe, se é que passaram por mim algum dia. Vendo de forma neutra lados inéditos de pessoas novas.

Lidar apenas com o que está na minha frente, sem pensar no que foi ou será, é um jeito de fazer essa dor da noite doer um pouco menos. Mas não é fácil, preciso ficar sempre atento – é fácil cair na armadilha de dizer que o otimista é ingênuo e que pessimistas são sábios. Ainda não sei se aprendi bem essa parte.

E infelizmente você paga inteira e enfrenta filas demoradas pra ver o quadro da sua vida lá de longe, lá de trás, enquanto tem gente ali pertinho dele que nem conhece o artista, que não se importa com a tela, que está ali mas olhando pra tela do celular e pensando no que vai fazer de jantar. E a obra te toca tanto que você não consegue parar de pensar nela quando chega em casa – e nem quando vê outros quadros – e aí precisa tomar remédio pra dormir.

(Sempre fui do tipo que mente e diz que não gosta de comemorar meu aniversário, mas na verdade eu tenho medo de que ninguém vai aparecer na minha festa. E aí, depois, sopro as velas desperdiçando meus pedidos com quem não estava lá – em presença ou espírito.)

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Um comentário em “Obras de arte

  1. […] Um dia desses eu estava ouvindo Regina Spektor e me bateu uma melancolia enorme ouvindo uma música que eu já tinha ouvido muitas vezes e que nunca tinha batido assim – talvez eu estivesse mais sensível naquele dia. Em “All The Rowboats” ela canta sobre obras de arte e me fez lembrar de uma vez que comparei com pinturas uma pessoa que eu gosto [foi nesse texto aqui]. […]

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