Outrage: enrustidos no Congresso – e não é só lá

Outrage-poster

O ativista e político americano Harvey Milk falava há muitos anos, lá nos anos 70, que o que era mais importante para o avanço de políticas de inclusão para minorias sexuais era, na verdade, algo simples: sair do armário. Deixar que seus familiares e amigos e colegas de trabalho saibam que você é gay é importante para que a formação da imagem que essas pessoas têm da comunidade gay seja mais ampla, para que elas saibam que quando elegem alguém que é contra gays, está elegendo alguém que é contra você.

Mas e se esses políticos homofóbicos forem, na verdade, gays no armário?

Em troca de poder e de uma carreira estável e longa e recheada de dinheiro, muitos políticos americanos se passam por conservadores bem casados, religiosos e tradicionais. É sobre isso o documentário “Outrage“, disponível na Netflix e também no YouTube.

O inferno que essas pessoas vivem em suas vidas privadas deve ser imenso pois é impossível ser uma pessoa pública e estar no armário ao mesmo tempo. Como é falado no documentário, a pessoa vive em dois universos paralelos: por ser gay mas ter uma família pública, o cara não pode conhecer outro cara em situações comuns e ter um relacionamento, então acaba caindo para o lado mais obscuro do meio gay, que é o de michês e saunas e sexo em lugares públicos, como banheiros. O que só faz com que ele odeie ainda mais sua homossexualidade e enxergue esse seu lado com ainda mais nojo.

Os entrevistados do documentário ensinam a perceber as manobras jornalísticas: na impossibilidade de jornais e revistas tirarem políticos do armário (afinal, eles não querem caçar brigar e perder os investimentos milionários que governos fazem em suas páginas com publicidade) usam muitas expressões como “solteiro convicto”, “baladeiro”, “solteirão”. Quem assiste às séries “House of Cards” e “Scandal” já viu histórias parecidas retratadas ali: trata-se de um ambiente tão conservador que parece haver um limite de sucesso profissional possível caso você seja gay. Entretanto, por baixo dos panos, as coisas são bem diferentes: um dos entrevistados chega a dizer que se somarmos políticos com os membros de suas equipes, Washington tem mais gays que São Francisco.

É assustador e, com certeza, algo que acontece também no Brasil – e essa parte foi a que mais me deixou triste, a de que além de congressistas no armário, existem chefes de gabinete e os vários outros empregados de campanha que são gays e trabalham para candidatos abertamente contra seus direitos. É por isso que nunca vou me envolver em nenhuma campanha política, por exemplo, nem que eu esteja desempregado e seja a última vaga. Políticos mudam de lado com o vento e eu me sentiria responsável por todas as decisões tomadas por uma pessoas que ajudei, de alguma forma, a chegar no poder.

(Não preciso nem ir muito longe: todo mundo que é alguém em Minas Gerais sabe, por exemplo, que Antônio Anastasia – o vice de Aécio Neves no governo mineiro e, posteriormente, eleito governador – é gay. Mas ai de quem citar isso em alguma notinha de jornal! Os alunos de direito da UFMG pra quem ele deu aula sabem. Os jornalista da imprensa mineira sabem. Já teve até blogueiro listando ele como ícone ativista (e botando lenha na fogueira falando que ele, nas rodinhas de amigos, usava a expressão “meu bofe” quando se referia com humor a Aécio). Mas foi só o cochicho subir um pouco de patamar que tudo mudou: o fato dele ter atuado como ativista ligado ao Movimento Gay de Minas (MGM), por exemplo, foi apagado de sua biografia na Wikipedia e sumiu do site da organização quando ele se tornou o candidato ao cargo de governador. Por isso foi estranhamente irônico que, no Twitter, a hashtag no dia de sua posse fosse #AssumeAnastasia).

Como dito no documentário, a sexualidade de pessoas públicas nos interessa? De forma pessoal, não. Mas interessam no caso de políticos, pois eles legislam sobre a vida de outros – e se dizem construir suas plataformas de campanha baseadas em seus valores pessoais, precisamos conhecê-los. Se quem eles são no âmbito pessoal e profissional são pessoas diferentes, precisamos sim saber!

Se um político que é contra casamento gay ou adoção por casais homossexuais dorme com outros homens mas finge ser um hetero casado e temente a Deus, não me interessa que tipo de tipo de homem ele pega, que posição ele curte. Me interessa saber porque ele está legislando contra seus próprios valores, contra suas verdades, ou o motivo dele achar que esses assuntos não têm nada a ver com a vida dele.

O que estão oferecendo em troca?

Quanto está valendo essa hipocrisia?

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