Desculpo porra nenhuma

Nunca tinha ido numa Parada Gay na minha vida e resolvi ir na desse ano aqui em São Paulo, a maior da América Latina. Sempre achei que a festa tomava demais o espaço do protesto, mas mudei de opinião. Achei importante ir pois estamos vivendo tempos tenebrosos. Ainda tenho ressalvas sobre o evento, mas esse texto não é sobre isso. É sobre esse cara aqui.

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Ele estava na Parada com esse lindo cartaz e chamou muito a atenção das pessoas. Ele se chama Clauber Ramos e fez um relato legal da experiência no Facebook dele. Retirei um trecho ipsis litteris:

Fui convidado por meu amigo José Barbosa Junior para junto com um grupo de cristãos de várias igrejas estar na parada gay para uma ação simples: iríamos empunhar cartazes que demostrassem o amor de Cristo por todos que estivessem ali e ao mesmo tempo mostrar a nossa discordância com os pastores midiáticos tem falado sobre o tema.

Nosso lema já dizia a que veio “Jesus cura a homofobia” e minha ação era simples, empunhar o cartaz que escolhi “Desculpe-nos pela forma que a “igreja” trata vocês” e sorrir o máximo possível (quem me conhece sabe que eu não sou tão bom nisso! Rsrsrsrs). A reação veio rápida e prosseguiu durante todo o dia, vários sorrisos em retribuição de muita, mais muita gente, sinais de positivo, muitos abraços dados e recebidos e tantos outros chegavam a chorar quando abraçados e ouvir um simples “Jesus ama você”.

Foram tanta emoção, tantas expressões de gratidão apenas por estarmos ali. Mas quem mais se emocionava era eu, pensando o quanto Deus amava todas aquelas pessoas e que entre nós cristãos e elas não há diferença alguma, somos todos iguais perante Deus e que a única regra é o amor. Pra fechar o dia vi que uma “Drag Queem” toda paramentada me olhava com olhos lacrimejantes e visivelmente emocionada com o meu cartaz, fiz um sinal para ela se aproximar e ela abraçou a minha esposa e depois me abraçou com força, agradecendo por estarmos ali e falando o quanto ela sabia que era amada por Deus.

Nunca fiz tão pouco e recebi tanta gratidão. […]

Infelizmente eu concordo bastante com a última frase desse trecho e quero explicar o motivo em tópicos:

1 – O protesto é legítimo, mas tem um (grande) porém

Sim, muito legítimo. Estamos muito acostumados a ver esses pastores famosos vomitando ódio contra gays sempre que é possível, então imagino que há mesmo uma enorme insatisfação nessa generalização que o pessoal do lado de cá faz. Nem todo evangélico é assim, esses pastores representam apenas uma parcela dos fiéis dessa religião. O porém é que representam uma parcela enorme, que elege eles a cargos públicos – e lá, eles querem impôr seus valores pessoais a toda uma sociedade (exatamente o contrário do que um político devia fazer). E quer conversar sobre generalizações? Que tal voltar pra igreja e ensinar quem nem todo gay é promíscuo, doente ou confuso? Não quero competir, mas quem você acha que é mais perseguido hoje em dia na sociedade brasileira, gays ou evangélicos?

2 – Errou rude na escolha do local

Pensa assim: um homem vai numa manifestação feminista com um cartaz escrito “nem todo homem é machista”. Poxa, legal, lindo, a gente sabe. Mas não é a hora nem o lugar, né? A luta não é dele, o evento, o protesto. Ele não tem que ir ~logo ali~ se defender. Imagina uma comunidade que faz uma marcha contra PMs que mataram crianças inocentes e no meio tem um PM com um cartaz escrito “nem todo PM é assassino”. Esse é o meu ponto.

No caso do Clauber, ele tem que ir pra igreja ensinar o pessoal a não fazer nada que precise se desculpar depois. Foi uma apropriação indevida da Parada, fantasiada de aceitação. Um belíssimo “lavo minhas mãos”. A tradução desse cartaz é: “pessoal, os crentes estão ferrando vocês, mas eu não sou um deles, tá bom?”. Poxa, cara, tinha que vir aqui falar isso? No nosso evento, no nosso protesto, na nossa festa? No final das contas, o cartaz dele é a favor da igreja, não dos gays. “Não ser contra” e ser “a favor” é bem diferente.

3 – Se você discorda da igreja, o que você está fazendo lá?

Sei que o cara pode frequentar uma igreja por acreditar nos valores quaisquer que sejam e, ao mesmo tempo, ter senso crítico de saber que ela erra feio em algumas coisas. E tá aí criticando publicamente, o que é lindo, corajoso e foda. Mas essa é parte da minha crítica também. Se não concorda, não frequente. Fica fácil demais ir lá colaborar com o preconceito por um lado e depois vir pedir desculpinhas pelo outro. Pessoas que dão dinheiro pra igrejas ou instituições que pregam preconceitos (ou que trabalham para elas) são parte do problema, são coniventes com os atos, têm na mão o sangue de todo gay, lésbica, travesti e trans que foi assassinado por serem quem eram.

4 – Perdão é um conceito relativo

Um amigo levantou um ponto importante: sendo o perdão um conceito cristão muito forte (pelo menos nesse contexto), aceitar essas desculpas não tira a igreja e nem o cara da zona de conforto, pois é um perdão nos termos deles. E outra: opressores históricos (de ditadores assassinos a líderes religiosos que causam problemas de saúde pública) não devem ser perdoados – e sim responsabilizado por seus atos.

Uma cartolina e um cara querendo aparecer não zeram todos os retrocessos que as religiões causaram e causam a mim e meus amigos – mas sei que nem o cara empunhando o cartaz achou que zerava. Mas o negócio é que não faz nada. Na prática, essa cartolina e nada são a mesma coisa. É só um cristão querendo aparecer. E conseguiu.

Tire seu Jesus da minha luta, por favor

Desculpem, mas eu não quero Jesus Cristo na minha luta por direitos civis e humanos. Nem contra, nem a favor. E nem Maomé, Buda, Moisés, Shiva e sei lá mais quem. É muita utopia minha, mas são assuntos que precisam co-existir, mas não deviam estar relacionados. Se há liberdade de escolha religiosa, deve haver também de orientação sexual. E ponto final. Religiosos precisam aprender a ficar na deles, precisam aprender que suas opiniões não valem mais do que as de ninguém, que seus valores não são superiores ou absolutos, que ninguém precisa da aprovação deles para nada. Ficar fazendo morde e assopra não me convence.

papa
Amy Poehler no Weekend Update, jornal satírico do programa Saturday Night Live, vários anos atrás: “Essa semana, o casamento gay foi oficialmente condenado por um homem velho, solteiro, usando uma capa”

Um belíssimo exemplo é esse novo Papa que o pessoal insiste em glorificar como moderno. Ele fica só na intenção de reforma, acena que a Igreja precisa se reestruturar, mas fica só no discurso. É um cara simpático, que se diz aberto a diálogo sobre assuntos que a Igreja sempre foi contra, mas mantém certa distância. Gostaria de acreditar que mesmo esse pouquinho que ele faz muda a cabeça de algumas pessoas, mas tenho minhas dúvidas sobre isso – e sobre a legitimidade dessa abertura de diálogo também.

A religião católica acredita que Jesus designou São Pedro como “pastor” e líder da Igreja, sendo os Papas seus sucessores e, assim, possuindo total autoridade para governá-la e ensinar/definir pontos dessa fé cristã. Se ele quisesse mesmo mudar as regras, ele poderia. Ao invés disso, em um momento ele diz não julgar os homossexuais e todo mundo aplaude. Mas na hora que a Irlanda legaliza o casamento gay (depois de uma vitória de 62% em um referendo popular), sai uma nota oficial do Vaticano falando que a medida irlandesa é “uma derrota para a humanidade”!

Um amigo fez uma analogia interessante: se enxergarmos o Vaticano como uma empresa, houve um CEO que era muito bom com prospects. Depois veio outro que falava muito dos valores da empresa, e num momento em que o mercado era expandido, não colocou ninguém na cartela de clientes. Agora trouxeram um outro CEO com foco em captação, contrariando o que veio antes dele.

Tudo isso me faz lembrar da minha avó: ela tem uma casa cercada de santos e terços e fica ofendida com piadas de Jesus no Natal e até com meus tios que imitam o Padre Quevedo (sério, eles imitam muito bem e é hilário). Certo dia, ela me disse que parou de ir às missas de sua igreja: “Todo dia na televisão falam desses padres que estão abusando de crianças, você viu? Como que eu vou lá pedir perdão pra alguém que tem pecados piores que os meus? Vou não. Continuo aqui com minha fé e meus santinhos, mas aqui”.

Eu gostei muito de ouvir isso dela. Se há crenças e desejo real de espiritualidade, o lugar físico onde você está tem bem pouco a ver com isso. Se seu desejo de fazer o bem é real, você não precisa do aval de nenhuma superioridade e muito menos dividir com eles seu dinheiro ou passado. Como disse Chagdud Tulku Rinpoche (um lama da escola budista), se alguém precisa de religião para ser bom, a pessoa não é boa, é um cão adestrado.

Homofobia é um negócio (e milionário!)

Eu entendo (e muito bem) a intenção do cara lá na Parada – e não julgo os gays que acharam o ato dele comovente pois a relação dos gays com religião é sempre muito complexa -, mas há muito mais na luta que respeitar os evangélicos que nos respeitam. O respeito pelos gays é o mínimo que estamos pedindo! Esse era um cartaz escrito “não faço mais que a minha obrigação”, entende?

Marcelo Zorzanelli escreveu bem nesse texto:

O que faz o sucesso de um pastor? Um rebanho grande, uma multidão disposta a tudo para expulsar de suas vidas o que identificam como o demônio, o diabo, o tranca-rua, o coisa-ruim, aquele que atrasa as coisas; o “inimigo”, enfim. O inimigo tem as faces de sempre: as drogas e o álcool, o adultério, o vício no jogo, o fracasso financeiro, etc etc.

E qual o novíssimo inimigo? O gay. O motivo? Eles dizem que é aquela citaçãozinha de Levítico que levam ao pé da letra (apesar de não levarem nenhuma outra do mesmo livro), mas não é bem isso.

É para, entre outras coisas, poder oferecer a cura disso que eles falam que é doença – e, claro, cobrar por isso. Esses pastores que estão sempre na mídia vivem de incitar preconceito e ódio exatamente para depois venderem a solução. E tem muita gente que acredita e que vai pagar. E tem muita gente que vai sofrer. E enquanto fiéis pagam e sofrem, esses pastores agendam viagens internacionais, constroem templos megalomaníacos, compram emissoras de rádios e TV, alisam o cabelo no salão mais caro da cidade.

Não é à toa que a pesquisa Ibope sobre o assunto (feita em 2012) mostra que 24% dos brasileiros dizem que se afastariam de um colega de trabalho caso descobrissem que ele é gay. No mesmo estudo, 55% se colocaram contra a união de pessoas do mesmo sexo. Ninguém nasce preconceituoso, o ódio é ensinado, é passado de geração em geração como um relógio de ouro que ficou de herança do bisavô. Alguém precisa parar de passar isso pra frente.

Enfim

Estamos vivendo em tempos estranhos. Ao invés das pessoas verem uma coisa e pensarem “bom, isso aí não é pra mim”, elas pensam “isso aí não devia ser pra ninguém”! Perigoso demais isso.

Eu só queria que todo mundo colocasse na cabeça que a gente não chega a lugar nenhum respeitando o opressor, de cabeça baixa pra ele ou batendo palma quando ele nos joga migalhas. A ideia do cara e do cartaz é legal sim, mas – para usar uma expressão bem católica – de bem intencionados o inferno está cheio.

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2 comentários em “Desculpo porra nenhuma

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