O pop tem razão: “Elastic Heart”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?” Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem algum sentido pra mim.

O álbum “1000 Forms of Fear”, da cantora Sia, é um dos meus favoritos. Ela tem uma coisa parecida com a Robyn de ter batidas fortes (e algumas até dançantes) e malabarismos eletrônicos por baixo de letras profundas, pessoais e, muitas vezes, bem tristes. Eu gosto muito desse tipo de construção.

Desde o começo, “Elastic Heart” me chamou atenção. Eu sou um produto da escola Alanis Morissette de se-reerguer-após-foras-ou-amores-não-correspondidos, então foi fácil me apaixonar por essa letra. A primeira linha é: “And another one bites the dust”, que na tradução ficaria como “e mais um come poeira”, mas o significado em inglês para a expressão é tanto a de alguém que foi ultrapassado e ficou para trás quanto para alguém que morreu e foi coberto de terra. Poderoso isso, né?

E ela continua a história: “Por que eu não consigo conquistar amor? Eu talvez tenha achado que nós fôssemos um e quis lutar essa guerra sem armas”. E grita: “E eu queria, eu queria tanto! Mas havia bandeiras vermelhas demais. E, agora, mais um come poeira. Vamos esclarecer as coisas: eu não confio em ninguém”. Gosto muito dessa última frase pois não sei se tem mais a ver com o futuro ou o passado, se ela diz que por causa do antigo amor perdeu a confiança na vida a dois, ou se a antiga vida a dois desmoronou exatamente por sua culpa, por não confiar na pessoa ao seu lado.

“Mas você não me despedaçou, eu ainda luto pela paz”, diz. E vem o refrão: “Eu tenho a pele grossa e um coração flexível – mas sua lâmina talvez seja muito afiada. Eu sou como um fio elástico até você puxar com muita força – sim, eu posso arrebentar e me mexer rápido. Mas você não vai me ver desmoronar, pois eu tenho um coração flexível”. Eu ouço esse trecho e quase choro.

Na próxima parte da música, acho que ela já canta sobre o relacionamento seguinte, em como ficou alerta devido ao que aprendeu. Mas que nem tudo saiu como ela queria mesmo assim, pois talvez o egoísmo tenha saído de controle. “E eu vou ficar acordada à noite toda. Vamos ser claros, eu não vou fechar meus olhos. E eu sei que eu posso sobreviver, eu andaria através do fogo para salvar minha vida. E eu quero, eu quero muito a minha vida! Eu estou fazendo tudo que eu posso. E aí outro come poeira. É difícil perder quem você escolheu”.

Não é linda demais essa música? Sim, e ficou ainda melhor com esse clipe em que Maddie Ziegler, que conhecemos no clipe de “Chandelier”, divide as atenções com o ator Shia LaBeouf.

Em uma entrevista dada enquanto dirigia o vídeo, Sia conta que – entre outras coisas – eles interpretam dois lados de uma mesma pessoa – cada hora um representando a criança interior ou um dos demônios um do outro. E o coreógrafo dá sua opinião também: “Eu os vejo como a mesma pessoa, e a jaula é o crânio. Sua raiva e seu amor por si mesmo”.

sia

Parece que o clipe foi inspirado nesta performance, em que o artista Joseph Beuys se trancou sozinho com um coiote durante dias. Nesse texto aqui, a Aline Valek (<3) fala sobre essa metáfora do clipe:

Ele tenta se aproximar, fazer amizade com o companheiro apavorante que o acaso fez o favor de jogar na sua cela, tentar conviver pacificamente com aquele bicho sujo, desgrenhado, cheio de dentes.

Mas toda vez que tenta, o coiote ataca. Na gaiola, o espaço é limitado para fugir e pequeno demais para um bicho arisco conviver com outro bicho que precisa de algum contato para sobreviver.

Um toque, é só o que o peço, o homem diz. O coiote morde e uiva e dá patadas: não!

[…]

A solidão pode fazer as pessoas agirem de forma estranha – e o homem, desesperado com aquele isolamento, parte para cima do coiote. Os dois lutam. O homem fica muito ferido, mas parece não se importar. Que diferença faz morrer se a outra opção é não ter ninguém?

O que nos traz de volta à letra da canção, inicialmente tão desconexa do vídeo. Você quer fazer conexões e às vezes ignora o fato de que essas conexões que você está focado, que você tanto quer fazer, podem te causar dor. Mas a perspectiva de solidão parece tão mais dolorosa que essa dor de estar mal acompanhado que você aceita. E, pior, agradece.

Eu conheço gente que pensa assim, eu já quis convencer gente que pensa assim a mudar – e eu já pensei assim em um passado não tão distante. Mas eu tenho um coração elástico agora.

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