A juventude não-etária e o norm core circunstancial

(Tentei trazer pro pessoal essa pesquisa incrível da Box1824. Recomendo a leitura completa)

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No começo dos anos 2000, quando o preço dos CDs começou a caber melhor no meu jovem bolso, a minha maior diversão era ir em busca deles: comprei muita coisa boa e muita coisa ruim devido à falta de internet e possibilidade de pesquisar sobre os artistas antes. Comprei muito álbum pela capa. E enquanto me perdia na febre de descobrir coisas novas, minha mãe estava do meu lado comprando a versão em CD do vinis que ela tinha pelo menos uma década atrás. Não apenas isso, ela desdenhava tudo novo que eu colocava pra tocar. O cenário contrário não acontecia: eu e minha irmã voltávamos no tempo e ouvíamos Beatles e Bowie e Madonna oitentista, mas minha mãe não ousava ultrapassar o Acústico MTV da Rita Lee.

“Como assim baixar? Pra quê baixar?”, um amigo me pergunta sobre meu pedido de um link para músicas que eu tinha perdido limpando a memória do meu (já bem obsoleto) laptop. Ele argumentava que serviços de streamming eram muito mais fáceis, legais e práticos. Eu entendo mas discordo, pois tenho uma rotina de audição musical e achismos políticos sobre o mundo da música pop diferentes dos dele. Baixar o disco é o mais perto que consigo de tê-lo “materializado” em algum lugar sem precisar pagar pelo objeto CD, e gosto dessa sensação. Também por isso nunca me converti aos e-books, e não vejo isso acontecendo tão cedo – e não me acho superior nem inferior por causa disso.

Essas duas histórias não têm muita a ver uma com a outra, aparentemente. Mas têm: elas ilustram muito bem como apelamos para a aptidão tecnológica e gosto musical para separar os jovens dos mais velhos e quero mostrar aqui como esse tipo de modelo, esse tipo de rótulo, está ficando cada vez mais falho.

A JUVENTUDE NÃO-ETÁRIA

De forma geral, algumas pessoas já captaram que o modelo pessoal que mais funciona a longo prazo é o da juventude não-etária. Isso é completamente diferente de ser um adolescente metido a adulto e ainda mais diferente de um adulto que age como adolescente. Não é um movimento sobre gostar de dormir sem parar e comer fast-food mesmo tendo 33 anos nas costas – como muita gente da minha geração faz -, e nem ter 55 anos nas costas e voltar a usar boca de sino e fumar maconha – como muita gente da geração da minha mãe faz.

Segundo essa pesquisa, estar em “youth mode” não significa reviver pra sempre a sua própria adolescência, mas sim estar presente e jovem em qualquer idade. Juventude não é um processo, envelhecer é.

O melhor modelo disso, para mim, é o produtor musical Pharrell Williams. Do alto dos seus mais de 40 anos de idade, ele é um dos caras que mais ganhou dinheiro nos últimos tempos. De fora, pode parecer só mais um dançando conforme a música, mas youth mode é isso: é ser uma antena que absorve o que está acontecendo agora de forma muito ampla – e ele faz isso muito bem sem parecer um velho forçando sua juventude, é natural para ele. Há filtros e restrições, nem tudo ao redor me diz respeito, mas de forma geral você está alinhado e por dentro de todas as ondas em volta – e faz delas sua zona de conforto.

QUEM QUER SER DIFERENTE LEVANTA A MÃO

No colégio, eu e minha melhor amiga não éramos exatamente as pessoas mais populares. A febre do momento era o grupinho dos skatistas, que se vestia de forma “alternativa”. Mas alternativa a quê? Eu e ela, desde muito novos duas maquininhas de transformar recalque em problematização, sempre questionávamos como era incompatível que existisse um “grupo de diferentes”, pois uma palavra neutralizava a outra: se há coletividade, não é uma expressão de individualidade. Ou é? Vendo agora, o mesmo se aplicaria a nós mesmos, do lado de fora nos considerando não-participantes de um sistema, mas estávamos juntos do lado de cá.

O tempo passou e eu sofri calado – e se ao ler essa frase você lembrou da música sertaneja, vai entender bem esse próximo ponto: as tribos acabam quando você cresce. Com o tempo, o youth mode te faz perceber que o cool não é estar focado em uma coisa só, é ser plural. Aquele seu amigo que tinha complexo de underground, que odiava quando uma banda que só ele conhecia ficava popular, foi massacrado. Há uma “massificação do indie” hoje baseada em sobreposições: diferentes identidades (que na juventude eram essas tribos) não podem ser mútuas, mas geram sempre novas combinações. Você pode gostar de música clássica e rock ao mesmo tempo e ver valor no grupo de pagode noventista também. A bandinha considerada desconhecida e fresca em um grupo, é notícia velha em outro.

Pharrell, por exemplo, que uma vez fazia clipes de rap ostentação com mulheres objetificadas, agora vai no programa da Ellen DeGeneres (abertamente lésbica) lançar um perfume unissex chamado Girl e pedir salário mais justos para as mulheres no mercado de trabalho. Fazer uma escolha hoje e uma escolha oposta amanhã não te faz um hipócrita, apenas te faz complexo, apenas deixa óbvia sua evolução. Ninguém “é”, todos “estão”. Eu fui uma dessas pessoas que nasceu em comunidades (culturais e religiosas) e fui buscar minha individualidade. A próxima geração nascerá como indivíduos e vai buscar as suas panelinhas.

MAS AÍ QUE TÁ

Mas o problema disso em escala pessoal é que fica extremamente difícil de navegar nas suas relações de dia a dia de forma profunda. Os detalhes que te definem são tão pequenos que ninguém percebe que você é diferente. E aí pousa a falta de sucesso em relacionamentos duradouros (amorosos ou de amizade): é preciso investir tempo para descobrir esse detalhes e fica cada vez mais difícil acompanhar o todo. Se o primeiro detalhe relevante que aparece não agrada o outro, ele já pula fora – ele pensa que não tem tempo a perder ali e que, se por cima todo mundo é tão igual, “vou logo pular para um igual que tenha um algo extra mais fácil de ser identificado superficialmente (dinheiro, carro, roupas, corpo, a lista é longa) para que eu não perca tanto tempo novamente”.

Um outro problema é o individualismo travestido de isolamento (ou seria o contrário?). Você se cerca daquele conforto que faz sentido pra você e se torna tão especial que ninguém sabe do que você está falando: você só sabe falar do livro incrível que mais ninguém leu, da série vintage que ninguém mais assistiu, da piada que ninguém mais entendeu, da causa que ninguém mais luta. E esse problema vai de encontro ao anterior: você não se identifica com ninguém nem no todo, imagine nos detalhes! Sua vida vira uma festa tão exclusiva que você é o único convidado. Ou, pior, há uma profunda identificação superficial. É aquela menina no filme do Woody Allen que se vende como intelectual mas que só sabe uma frase de cada pensador, o suficiente para manter sua persona intacta e fascinantemente misteriosa, dando a entender que ela sabe mais do que o que está falando – mas não sabe.

O FUTURO JÁ COMEÇOU

A contra partida de tudo isso é o norm core social no qual cada vez mais gente está pulando de ponta: se a individualidade era uma promessa de liberdade pessoal que falhou, a saída é a não-exclusividade mesmo, escancarada, é o quase orgulho em ser só mais um, é a libertação em não ser tão especial e o entendimento de que só a adaptabilidade leva ao pertencimento. Guardo pra mim a série vintage que ninguém viu e passo a comentar com todo mundo apenas sobre a série que todo mundo vê, paro de lutar em nome das baleias albinas da Patagônia e vou lutar por ciclofaixas. E por aí vai. Todas as causas e movimentos são relevantes, mas a massificação deles reflete um pouco esse fim do esforço em ser diferente (ele tendo sido consciente ou não no passado). Quantas vezes mais seus amigos vão rir da pessoa que tem capa de crochê no botijão de gás ou xingar Romero Britto? Não sei, mas pode apostar que metade deles tem a mesmíssima moldura amarela de “Friends” na porta, uma jarra em formato de abacaxi na cozinha ou pelo menos um pôster de “Keep Calm” na sala. O que esse norm core mostra, na verdade, é que o normal não existe – ele é circunstancial – e na verdade aquela panelinha adolescente ganhou uma dimensão gigantesca e culturalmente mais ampla, apenas isso – as regras mudaram, mas seguem existindo. Escolha o comportamento e um local (bairro, país, empresa, boate) e complete a frase: “é norm core fazer _______ em ________”. E é isso. Fim.

Os mercados de trabalho procuram por basicamente dois tipos de profissionais: o cara que sabe um pouco de vários assuntos ou o cara que sabe muito de um assunto só. O futuro social tem mais a ver com essa primeira categoria. Aos poucos as pessoas estão se tocando disso e se tornando presentes em mais aspectos da vida ao redor, dominando (mesmo que superficialmente) cada vez mais coisas.

No último Natal em família, levei um show da Amy Winehouse pra tocar na TV e quando começou a tocar a música “Back to Black” minha mãe soltou: “Adoro essa música!”. E quando coloquei um show da Adele, ela palpitou: “gostei dela, a voz dela é muito boa e o show é legal por causa da voz, não por causa de dançarinos e telões, não é?”

Apenas respondi: “é”.

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2 comentários em “A juventude não-etária e o norm core circunstancial

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