Meu não-pertencimento fashion voluntário tem nome

Dia desses cheguei no meu trabalho todo vestido de preto, meio que sem querer. Uma amiga observou e eu fiz piada: “É pra combinar com minha alma”. Pouco tempo depois, revi um amigo americano que mora na Suécia. Dentro de sua mala, só roupas pretas, brancas e cinzas. “Fica mais fácil combinar”, me disse. “E outra: quando você usa uma peça com cor ou estampa, as pessoas percebem bem mais”. Achei bem interessante esse jeito de pensar.

Alguns meses depois, minha máquina de lavar resolveu que tinha cansado dessa vida de serventia e parou de funcionar. Minha falta de tempo em procurar quem a consertasse fez com que a pilha de roupas sujas na minha casa ficasse do tamanho da minha vergonha ao olhar pra ela. Sem dinheiro pra ficar esbanjando nas lavanderias, precisava priorizar e lavar apenas peças íntimas e aquelas que eu usava mais. E aí constatei: todas eram pretas.

Captura de Tela 2015-08-07 às 20.19.14
Eu no espelho, foto do meu Instagram: @gabrielkdt

Uma pesquisa chamada Unfashion diz:

A grande fábrica de tendências que se tornou a indústria da moda vem provocando um cansaço geral nas pessoas. O consumidor não tem tempo de acompanhar as novidades, e os criadores não conseguem gerar ideias novas em espaços tão curtos de tempo.

Segundo o estudo, com isso surge um interesse maior por peças clássicas e por uma neutralidade estética. No meu caso tem a ver com praticidade e, simplesmente, falta de vontade de comprar roupa. Não é que eu não goste de fazer compras (eu adoro!) mas me faz mais sentido, de forma prática, gastar meus centavos em peças básicas da mesma cor, pois elas são capazes de migrar por diversas estações – ao invés de gastar o dobro desse dinheiro em peças que vão durar bem menos, seja pela estética datada ou simplesmente pela qualidade duvidosa do material. E, cá entre nós, na maior parte das vezes eu também não tenho dinheiro pra comprar a roupa trendy com rapidez, na época que ela é ainda a trendy. E se a regra do mundo fashion é nunca ser o primeiro nem o último a usar uma tendência, prefiro ficar completamente fora desse mundo.

Quase sem querer, observei meu armário ser invadido por peças básicas e pretas, com um ou outro jeans azul. Enquanto isso, minhas cuecas e meias foram ganhando mais cores e modelos – sinto que estou me vestindo mais para mim mesmo atualmente, e menos para os outros.

Desfile Ashish 2013

Mas como fica então essa ideia de que o que você veste é um reflexo da sua personalidade?

Bom, o que conecta minha aparência com meu caráter ou pensamentos, atualmente, são minhas tatuagens, eu diria. Talvez também meu cabelo. Mas tanto quanto eles, talvez mais, é meu jeito de me portar mesmo. Involuntariamente me camuflei de uma maneira que quem quiser saber algo sobre mim deverá, supostamente, interagir comigo. Quando isso não acontece, fico eu aqui e o outro lá.

Mas/e, no topo disso tudo, apareceram no meu guarda-roupas um casaco azul piscina, uma calça preta com a boca alaranjada e minha mochila azul marinho foi substituída por uma roxa vibrante. Talvez a soma de tudo isso diga algo sobre mim por si só, enfim.

O armário neutro e básico tira muitos rótulos de uma pessoa. Arranca dela tribos urbanas (se é que elas existem ainda) e, pelo menos em teoria, certos pré-julgamentos. É um não-pertencimento voluntário. Dá uma sensação (equivocada*) de estar alheio ao mercado fashion, às tendências e à auto-promoção por aparência.

*Equivocada pois o mundo é grande e até os contra-movimentos já foram catalogados, meu amigo.

Cena do filme “O Diabo Veste Prada” (The Devil Wears Prada, 2006)
armario-turma-da-monica-1392133715534_400x300
O armário da Mônica, personagem de Maurício de Souza

As coisas estão mudando. Muito e muito rápido. E uma parte importantíssima das últimas mudanças tem a ver com uma lista longa: mais preocupação com a matéria-prima das roupas, com as condições de trabalho das fábricas, com a durabilidade das peças e, além disso tudo, com conforto.

E esse conforto, segundo a pesquisa que citei lá em cima, bate muito nas evoluções que a gente está fazendo em relação a identidade de gênero. Nunca se falou tanto de crossdresser e androginia, por exemplo, e esses dois conceitos têm muito a ver com estar confortável naquilo que você veste, independente de estar ou não seguindo febres fashions. É o que chamam de normcore.

Captura de Tela 2016-01-26 às 11.53.01
CEO do Facebook escolhendo a roupa do primeiro dia de trabalho na volta da licença-paternidade

Normcore é a junção de “normal” + “core” (centro ou cerne, do inglês). É, no significado mais amplo, alguém que não age influenciado por estilos e tendências. O termo foi criado pela empresa de pesquisa de mercado K-Hole sobre youth mode para designar pessoas que até percebem que um item está na moda, mas não querem seguir a tal moda especificamente – ela até pode usar um artigo dessa moda, mas não com o objetivo de seguir a tendência, mas por simplesmente ser confortável.

Isso, somado ao fim dos conceitos de gênero (que vai demorar pra chegar mas está vindo), torna normal o aumento de interesse por peças clássicas e por neutralidade estética. Já é possível ver lojas com alas de roupas que estão simplesmente “ali”, ao invés de estarem no lado masculino ou feminino da loja. E, claro, muitas marcas (em sua maioria marcas novas) fazendo questão de contar sobre suas condições de trabalho, materiais diferenciados e não-preconceitos na hora de contratar executivos e até modelos.

O futuro é uma versão menos maluca que aqueles macacões prateados dos filmes de ficção das décadas passadas, mas aparentemente está mais para esse lado do que para qualquer outro.

Resumindo: é, meu armário só tem preto – e está tudo bem, gente.

Anúncios

Um comentário em “Meu não-pertencimento fashion voluntário tem nome

  1. Que post perfeito. Não que para achar isso eu vista apenas uma cor, muito pelo contrário, meu armário é completamente colorido. Mas sempre sou questionada de qual estilo eu sigo, pois não entendem. Cada dia um estilo de peça, cada dia uma Jamile diferente. Não entendo o porque devo ter um estilo, posso muito bem gostar de peças individuais e usá-las todas juntas, afinal estilo é ser você, seja por sua praticidade ou hiper produção.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s