O fim dos banquetes de migalhas

Eu sou muito sozinho. Moro sozinho, cozinho sozinho, vejo televisão sozinho, vou e volto do trabalho sozinho. Eu adoro, mas o lado ruim disso tem batido forte ultimamente e vai além do fato de não ter com quem dividir as contas do mês. Tem a ver com não ter com quem dividir meus pequenos prazeres também.

Você chega em casa com um sorvete que você comprou simplesmente pois deu vontade quando você estava no mercado e não tem ninguém pra ficar feliz com a compra junto com você. Você chega em casa de saco cheio do trabalho e ninguém ali pra te ouvir reclamar. Você vê alguma coisa ou alguém na rua e não tem com quem comentar. Não tem para quem telefonar numa emergência, nem de quem esperar uma ligação sem motivo.

Tudo que eu quero é chegar em casa e ter alguém me esperando ou chegar em casa e ter por quem esperar. Ter um propósito um pouquinho maior com meus dias, pensar um pouco menos só em mim. É louco isso, né? Eu não tenho pra quem me doar, talvez. E fico duplamente deprimido com esse pensamento por saber que isso não vai mudar amanhã, pra chegar nesse estado é um processo longo e que, claro, não depende só de mim.

E tem uma coisa errada que eu faço. Não é errada por ser errada, é errada por que ela é sempre mal interpretada e ainda assim eu insisto. Mas é que eu acho que vou achar alguém que saiba interpretar. E essa coisa se chama: não fazer joguinho.

“Opa, a gente saiu hoje, então vou esperar 2 dias pra chamar pra sair de novo”;

“Nossa, aquele chocolate que ele falou que gosta está em promoção! Ah, mas não vou comprar pra ele não achar que estou muito a fim dele”;

“Hoje eu tenho aniversário de um amigo, mas não vou chamar pra ir junto pra não ficar achando que tô querendo apresentar ele como meu namorado para as pessoas”.

Foda-se isso tudo.

Se eu tenho um lema, ele é: ser sempre honesto com minhas vontades. Custem elas o que custar. Quero? Vou lá e falo que quero. Conversar é sempre mais fácil. E a vida nossa é muito curta pra ser pautada no que os outros estão achando.

Então eu me entrego, sempre, para o que eu estou sentindo e dessa parte eu nunca me arrependo. Reparei que tenho sido mais eu mesmo com os outros ultimamente. Parei de policiar se estou passando a impressão certa, entende? Não me interessa mais isso. Prefiro ser odiado por quem eu sou de verdade do que ser amado por um personagem que eu criei.

“Mas você pode estar namorando, pode chegar em casa de um dia filho da puta e seu namorado teve um dia idem, e vocês vão brigar por causa do jeito que a roupa está estendida no varal”, penso. E é. Mas até isso é positivo de alguma forma, é uma vazão de energia que não se tem sozinho. Se você está com uma pessoa que está na mesma frequência que você, na hora de ir dormir a briga já passou e vocês dois lembram porque estão ali.

Sinto que estou numa fase estranha, pra variar, mas vejo essa como diferente – e não por causa dos outros. Sinto que tem coisa boa vindo por aí, mas não consigo me distrair o suficiente pra que ela chegue de surpresa – estou sempre à espera daquela coisa, pessoa, acontecimento que vai me fazer entender tudo e colocar as peças todas no lugar. Não dura pra sempre essa angústia, mas enquanto você está lá vivendo o negócio, parece sem fim.

Mas melhor assim. Prefiro cozinhar sozinho uma comida simples e comê-la sozinho vendo uma série sozinho que viver todas as noites transformando em banquete as migalhas que os outros me jogam.

mastur

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4 comentários em “O fim dos banquetes de migalhas

  1. Simples, profundo, atual e verdadeiro. É a tua, a minha e a realidade de muita gente ao meu redor, debaixo do meu nariz. A diferença entre nós e talvez os outros é que os outros ainda não se deram conta – talvez – do que eles têm se alimentado são só migalhas. Quem se alimenta de migalha ainda não está preparado pra dividir o pão de cada dia.

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  2. Não entendo e não vivo essa coisa de joguinhos. Moro com meu namorado a mais de cinco anos e nunca vivemos isso. Por que será que as pessoas complicam coisas tão simples? Cara eu estou comentando o seu post pra dizer que é possível sim. Não se macule por causa dessas pessoas. Seja você e pronto. Quando acontecer deixe rolar, se for legal, mantenha, se não for bola pra frente. Só não mate sua essência por causa de pessoas escrotas que não sabem viver o legal da vida!!!! Abração e força. O blog tá massa!!!

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  3. Acabei de sair de casa para morar sozinho, no momento estou adorando e estou até sendo um pouco egoísta.
    Mas isso é bom, pois estou aprendendo a me conhecer melhor, ouvindo minhas idéias e colocando em prática.
    Por outro lado, ás vezes sinto essa falta de estar com alguém e também não faço joguinhos, porém ainda não me ocorreu a vontade intensa de poder demonstrar todo esse interesse, essa pessoa ainda não apareceu.
    Mas paciência, minha companhia está me bastando.
    Seu texto é muito atual e me identifiquei, parabéns por essa empatia!

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