Por que tem tanto gay na música hoje em dia?

A carreira de muitas artistas, como Lady Gaga e Madonna, é marcada por certa fluidez sexual: em algum momento, no mínimo, elas declararam ter ficado com outras mulheres. Apesar de tudo que elas podem ter feito pelos movimentos LGBT, sempre há quem diga que tudo não passa de um golpe de marketing para ganhar base de fãs.

Mas mesmo que tudo isso seja um golpe de marketing, o que esse golpe sinaliza? Que os gays estão de ouvidos em pé, atentos a quem dá valor a eles.

E, de uns tempos pra cá, você pode ter reparado que o número de artistas homens declaradamente gays aumentou bastante no mundo musical. Se no passado o que mais existia eram cantores no armário (como Ricky Martin ou Lance Bass), hoje ser gay e cantor não é um problema (Sam Smith e Troye Sivan são bons exemplos) e tem até heteros cantando contra bullying homofóbico. Você não é mais considerado de vanguarda e nem precisa ser eclético, clichê ou extravagante (para os padrões heteronormativos, digo), como eram Elton John, Ney Matogrosso e até David Bowie.

O que aconteceu nesse meio tempo?

casaisgaysBom, muita coisa. A comunidade como um todo tem sido representada nos pacotes midiáticos cada vez mais – e eles ajudam muito a desmistificar as coisas para as massas. Da primeira sitcom da Ellen DeGeneres até “Looking”, “Orange Is The New Black” ou “Sense8”, passamos por “Will & Grace”, “Queer as Folk”, “The L Word”, “Glee”, “Modern Family”, sem contar a naturalidade em que personagens gays eram apresentados em “Sex And The City”, “Friends” ou até “Buffy”, “The Nanny”, “Os Normais”, “Dawnson’s Creek” e em várias novelas (algumas com beijo, outras sem). Isso sem mencionar “RuPaul’s Drag Race”, né?

Paralelo a isso, a opinião pública sobre orientação sexual tem mudado aos poucos. Novas gerações tendem a ser mais tolerantes, pois são expostas a mais pontos de vista que as gerações anteriores – mesmo as crianças criadas por pais bem tradicionais têm acesso mais fácil hoje a todo tipo de informações. Uma pesquisa da YouGov feita no Reino Unido mostra que 1 em cada 2 jovens entre 18 e 24 anos não se considera heterossexual – eles criaram uma escala de zero (exclusivamente hetero) a 6 (exclusivamente gay) e as respostas das pessoas sambaram muito entre os números. Pois é, podemos estar começando a ver o fim dos rótulos, finalmente.

Reacionários e cristãos fervorosamente tradicionais costumam dizer que hoje em dia existem mais gays no mundo pois nossa sociedade está aceitando “essa doença”, mas creio que é justamente o contrário: na medida que desmistificamos a homossexualidade como algo errado ou do capeta, criamos um ambiente em que torna-se mais confortável ser quem você é de verdade e aí param-se os fingimentos. É impossível medir, mas é capaz que o número de pessoas que se identificam como gays, lésbicas ou trans hoje em dia seja o mesmíssimo de, sei lá, 1890 – mas hoje as pessoas têm mais liberdade de ser quem elas são.

De liberdade em liberdade, não é mais estranho ver casais gays por aí. O casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado em todos os estados americanos em junho de 2015, por exemplo. No Brasil, a união já é reconhecida desde 2013. E o número de famílias LGBT (com ou sem filhos) e de pessoas que se declaram “não-hetero” só aumenta estatisticamente no mundo. Isso, sozinho, já responderia “matematicamente” o título do texto: temos mais gays livres no mundo, logo temos mais gays na música. Talvez.

Mudando de assunto um minuto

Dia desses, a marca de laticínios Itambé publicou em seu Facebook essa imagem abaixo.

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Post no Facebook da Itambé

As pessoas repararam que, ao contrário da esmagadora maioria de imagens da publicidade do segmento, a família retratada é negra. A aceitação da imagem não podia ter sido melhor: só elogios na página. Há uma menina negra que, nos comentário do post, usa a seguinte frase: “Quando não me vejo na publicidade, não compro o produto“. Ela está coberta de razão: se em nosso país 53% da população se declara negra ou parda (segundo dados da Pnad de 2013), não faz sentido ter uma família branca e loira nas propagandas.

De volta ao mundo musical gay

Uma pesquisa Nielsen mostra que as famílias gays gastam mais dinheiro que as famílias tradicionais – especialmente em compras online e livrarias. Quando a pesquisa aponta os hábitos de consumo das famílias LGBT sobre música, a diferença fica ainda maior. Em todos os segmentos de venda, gasta-se mais.

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E o que será que esses gays estão consumindo? Provavelmente não são rappers que falam sobre mulheres e carros importados. Estamos numa fase parecida com esse caso do post da Itambé, ilustrado ali. Lembra da moça que disse que não compra o produto se não se sente representada na propaganda? Pois é. O que gays querem ouvir? Eles já passaram tempo demais ouvindo músicas sobre sensações e experiências que não lhes dizem muito respeito. E se tem demanda, meu amigo, a indústria fonográfica vai dar seu jeito de suprir – para lucrar, é claro.

Isso não torna todos os artistas gays marionetes nas mãos de executivos, apenas indica que eles estavam no lugar certo na hora certa. E a mudança no relacionamento que as pessoas têm com música atualmente também tem a ver com isso. Hoje, é bem mais fácil produzir um disco e ainda mais fácil fazer com que ele chegue aos ouvidos de qualquer pessoa do mundo. Você precisa de cada vez  menos intermediários, algo que era complicado de acontecer se você queria ser artista no mundo tradicional dos CDs e paradas de sucesso – com medo do preconceito, era quase impossível que uma gravadora despejasse dinheiro em cima de um artista declaradamente homossexual que tratasse do assunto em suas músicas – perceba que artistas gays do passado falavam bem pouco do assunto em suas canções. Essa facilidade de distribuição casou bem com a demanda gay por músicas que os representasse e com um público que liga cada vez menos se o artista que ele curte é ou não homossexual.

É bem provável, por exemplo, que Adam Lambert não fosse ter uma carreira do tamanho da dele se tivesse se lançado no final dos anos 1990. Já hoje, há toda uma nova geração que se identifica com o que ele tem pra dizer, tem sede de ouvir o que ele tem pra cantar e consegue se conectar com ele muito mais diretamente. E é por isso, também, que ao invés de um disco acústico de baladas, Madonna ainda está fazendo clipes pegando homens e mulheres na pista de dança: ela alcança muito mais gente assim – não por coincidência, o tal clipe é o com mais visualizações em sua conta oficial no YouTube.

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Sam Smith e Olly Alexander

Ainda há na música quem fuja de declarações taxativas (Mika, essa é pra você), mas Miley Cyrus adora falar de sua fluidez sexual (“nem hétero, nem lésbica”) em entrevistas; a Banda Uó tem uma vocalista trans; Shamir já disse ser assexuado e não pertencer a nenhum gênero; e Olly Alexander, vocalista do Years & Years, faz questão de falar que suas músicas foram baseadas nos seus ex-namorados e usa adjetivos no masculino em suas letras.

A orientação sexual dos artistas nunca esteve num momento como o atual, em que ela importa e não importa exatamente nas mesmas proporções – para o público e para os selos.

But who runs the world? Gays. Ninguém entende melhor que eles todas essas fases de auto-descoberta que esses artistas todos estão passando e, pelo visto, ninguém gasta mais dinheiro com música que eles. Em resumo, uma combinação per-fei-ta para o mercado.

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2 comentários em “Por que tem tanto gay na música hoje em dia?

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