O pop tem razão: “First Time He Kissed A Boy”

“Eu era deprimido pois ouvia música pop ou eu ouvia música pop pois eu era deprimido?” Essa é uma questão de “Alta Fidelidade”, não sei se do filme ou do livro ou dos dois. O que interessa é que a dúvida é pertinente. Para tentar extrair dela algum divertimento – ou alguma sabedoria – criei essa categoria no blog para analisar músicas que fazem algum sentido pra mim.

Essa música bateu forte aqui quando ouvi pela primeira vez. Fui impactado primeiro com o clipe, que achei muito bonito. A escolha das cores, o clima vintage e, especialmente, o momento dele olhando a foto do menino que ele gosta. Minha versão disso, na adolescência, era o perfil de Orkut da pessoa. Passava horas vendo o que ele escrevia, que comunidades fazia parte, que fotos subia nos álbuns. Me identifico muito com esse sentimento de “ai, ele nunca vai nem saber que eu existo”.

Depois pela letra mesmo, lembrou demais minhas primeiras experiências. Quando ouço, lembro do meu primeiro amor, no colégio, e encaro a voz melancólica como se fosse um narrador descrevendo como eu era naquela época: “troubled face, headphones on, forgetting time and place, all he wanted”. E era bem isso mesmo. Eu estava sempre de cara fechada, com esse ar blasé que ainda tenho traços, sempre com fones de ouvido tentando fugir do mundo ao redor. Eu não sabia lidar com tudo que estava sentindo e não me sentia parte de nada que via: nenhum ambiente é mais desconfortável para um pré-adolescente gay do subúrbio católico que um colégio particular evangélico. Eu não me sentia eu mesmo quase hora nenhuma, quase com ninguém.

Na segunda parte, ainda seguindo a ideia do cantor como narrador, o “feeling stuck” é a minha descrição, o “set him free” é um conselho para o menino de quem eu gostava. E foi isso que aconteceu. Demorou, mas foi exatamente o que ele fez: me libertou. De quando comecei a perceber que talvez eu fosse gay até o meu primeiro beijo de verdade foi um longo caminho que me exigiu muita coragem.

Hoje falo com naturalidade sobre o assunto, mas no começo foi difícil: eu realmente gostava muito dele e, apesar de mais novo, ele era muito mais experiente. Até hoje fico vermelho de vergonha de lembrar da minha falta de tato e jeito na hora de conversar e, finalmente, beijá-lo pela primeira vez. E quando lembro da sensação, é tudo muito bom. Tenho certo orgulho de dizer isso: meu primeiro beijo de verdade, com outro menino, foi com alguém que eu gostava bastante e isso fez com que aquilo fosse mágico. Essa sensação não some nos beijos futuros, mas fica mais rara.

E o refrão, pra mim, narra com detalhes minha experiência: basicamente ele diz que na primeira vez que ele beijou um menino que ele não conhecia, estava frio e um sugeriu ao outro que se cobrisse, “cover up” no sentido de se agasalhar. E foi assim mesmo; éramos vizinhos e nossos encontros eram basicamente marcados por longas caminhadas no bairro à noite. Na segundo parte do refrão, sai-se da experiência individual daquele momento e fala-se do quadro geral, de se assumir gay: “ele nunca tinha amado antes, e eles agora vão andar numa estrada fria e cheia de curvas”.

E a última parte fala de como essa experiência te marca para toda a sua vida. “É como se o fantasma da pessoa ficasse trancado pra sempre dentro de você”, diz a letra. E concordo: esse meu lance da adolescência foi uma simples brisa de verão se colocado lado a lado com alguns que vieram no futuro, mas por falta de comparação, eu senti muito intensamente esse primeiro amor. Demorei anos pra superar a rejeição do menino, sofria se via ele na rua, tive que abrir mão de todos os nossos amigos em comum.

A última linha, “get lost”, é repetida várias vezes e nela eu me perco. São conselhos? Pedidos? “Perca-se” no sentido de se entregar às suas emoções? Ou “perca-se” no sentido de sumir do mapa depois de uma rejeição do primeiro menino que te beijou? Não sei, mas as duas interpretações funcionam bem no meu caso.

Mesmo depois disso tudo, às vezes ainda me sinto o menino feio e magrelo do colégio, de aparelho nos dentes e cabelo torto, e a fim do cara mais popular da escola. Mas enfim. Get lost.

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6 comentários em “O pop tem razão: “First Time He Kissed A Boy”

  1. Gabriel, uma longa pausa de reflexão após ler. Você pegou a essência da música da mesma forma que eu faço com as que escuto, colocou-a comparado a sua realidade, as suas emoções. Obrigada por expô-las conosco. Grande ideia.

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  2. Estou sem palavras. Sem palavras pela delicadeza do relato e da música. A música por sinal já perdi a conta de quantas vezes ouvi desde a primeira vez, no sábado. Faz um sentido enorme. É como se me ouvisse no eu lírico da canção e é como se a minha vida fosse contada nas linhas acima.

    Já favoritei esse espaço da Internet e vou fuçar por aqui durante um tempo! =)

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  3. Estou sem palavras. Sem palavras pela delicadeza do relato e da música. A música por sinal já perdi a conta de quantas vezes ouvi desde a primeira vez, no sábado. Faz um sentido enorme. É como se me ouvisse no eu lírico da canção e é como se a minha vida fosse contada nas linhas acima.

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