O dia que eu fiz uma cerimônia de casamento

Vou contar agora uma coisa bem pessoal. Quando mudei de Belo Horizonte para São Paulo em 2012 uma das coisas que bateu mais forte foi deixar pra trás um grupo pequeno mas muito significativo de amigos. Entre eles estavam Bruno e Júlia: éramos os três da mesma sala na faculdade de jornalismo, saímos muito juntos, bebemos muito juntos, fomos em muitos festivais de cinema indie juntos – até chegamos a trabalhar juntos!

Eles trocaram uns beijos um dia, começaram a ficar à sério, namorar e, no meio de um show da Regina Spektor, decidiram se casar. Apesar de todo o processo ser muito natural para os vários amigos em comum, esse casamento se tornou um rito de passagem para todos nós: era o primeiro casal da nossa idade a se casar! O acontecimento não tinha esse objetivo, claro, mas se tornou um divisor de águas, pelo menos para mim. É, crescemos mesmo.

Mas o mais legal é que fazia todo o sentido. Não dava mais pra imaginar um deles sem o outro. Estaria milionário hoje se eu ganhasse um centavo cada vez que falei “Bruna e Júlio” ao me referir a eles.

E a grande surpresa pra mim foi que eles me convidaram para participar da cerimônia. Não como espectador nem padrinho, mas para celebrar a coisa toda. Os dois foram criados em famílias católicas mas essa coisa religiosa toda nunca foi o forte deles (o Bruno tem até um site chamado Ateísmo & Peitos) então era muito natural que eles não chamassem um padre ou rabino ou pastor para celebrar o casório. Mas nunca imaginei que chamariam alguém como eu, um gay pra lá de cético sobre conceitos de religiosidade e, até mesmo, de amor.

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Mas ficou fácil falar de amor nesse dia. Primeiro pois eram eles e eu vi de perto como começou tudo que eles viveram. Segundo pois foi tudo tão emocionante! A comoção dos amigos ao redor do evento, o lindo vestido de noiva da Júlia, o cenário bucólico da cerimônia (no gramado da fazenda da família, numa tarde perfeita de setembro) e a tranquilidade do Bruno.

Eu estava nervoso na hora de falar? Claro. Esqueci que teríamos microfones e familiares (e não apenas amigos) presentes. Mas o mais complicado foi segurar o choro enquanto entravam damas de honra, padrinhos, pais e avós. Todos muito emocionados – alguns chorando bastante! – e eu com uma visão privilegiada, vendo tudo de frente. Quando o Bruno chegou, trocamos algumas palavras rapidinho e aí começou a tocar “Folding Chair”, da Regina Spektor, a música que tocava quando ele a pediu em casamento no show e que veio ser a de trilha-sonora da entrada da noiva.

Meu discurso foi esse:

Boa tarde a todos; famílias, padrinhos, amigos e noivos.

Júlia e Bruno comemoram hoje 4 anos de namoro. Foram muitos dias juntos e o fato da gente estar aqui hoje no casamento dos dois, prova que foram dias de carinho, respeito e amor.

Muita gente aqui, incluindo eu, conheceu os dois antes, e viu o namoro deles começar. E não existem palavras pra descrever o privilégio que foi ter sido testemunha desse amor – do começo dele e do caminho que ele seguiu.

E o melhor de tudo é saber que a data de hoje marca o começo de um novo caminho. Um caminho mais longo e ainda mais intenso e mais divertido.

Todo mundo se esforça muito na busca pelo seu grande amor, mas o esforço de verdade começa é quando você encontra. E é muito bonito e tocante ver dois amigos meus dispostos a se esforçar juntos.

Júlia e Bruno formam um casal perfeito porque eles tiveram, desde o começo, uma amizade honesta como base de tudo. E não existe qualidade melhor na pessoa que você escolhe para passar o resto da vida do que ela ser sua amiga. E é por isso que todo mundo está aqui hoje compartilhando desse momento de alegria deles.

[nessa parte aqui eles fizeram os votos; Bruno tirou um papel do bolso, escrito à mão, e leu com a voz tremendo; Júlia falou de cabeça e com poucas palavras, lembro bem dela com os olhos molhados apenas olhando pro Bruno, como de quem simplesmente diz: “cara, você é o cara, e é isso”]

Júlia, você aceita Bruno Taurinho como seu esposo na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença?

Bruno, você aceita Júlia Bicalho como sua esposa na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença?

[aqui, a avó do Bruno trouxe as alianças para eles trocarem]

Em nome de todos os amigos aqui reunidos, declaro vocês marido e mulher!

Essa parte do “você aceita” foi pedido por eles. Uma coisa super tradicional nesse casamento que misturava muito bem tantas boas referências. Aí começou a festa, uma das mais legais que já fui. Como a boa chef que se tornou, Júlia cuidou bem de todos os detalhes e tudo estava perfeito, eu perdi a conta do tanto que comi e bebi. Mas antes da esbórnia, houve um momento muito adulto de cumprimentar os adultões da festa: tios, pais, avós, padrinhos e amigos da família dos noivos. Conversei com todo mundo que quis trocar uma palavra e muita gente quis. Afinal, pra maioria parecia ser novidade ter um cerimonialista que não era, digamos, do clero. E eu sabia dessa responsabilidade e segurei o champanhe um pouco por isso. Em troca, ganhei muitos elogios e conselhos de todos eles.

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Minha visão do dia
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Esperando começar / Cumprimentando o noivo como os bons homens de negócios que somos
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Casamento, essa cerimônia super tradicional.
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Photobombing os noivos

Sabe aquele grupo de amigos que citei ali no comecinho do texto? Perguntei pra eles o que eles lembram da cerimônia e todo mundo têm a mesma boa sensação que eu tenho e lembra bem daquele setembro.

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Essa é a Mariana, minha amiga desde a terceira série – ou seja, 1996.

Mariana lembra de um detalhe importante: “Na verdade, o casamento foi algo que rolou durante um fim de semana inteiro; então ir para a outra fazenda, passar a noite fora, voltar, dormir e acordar juntos fez a experiência mais inesquecível”. Verdade. E ela faz outras observações: “Tudo foi despretensioso. O jeito que o relacionamento começou, o pedido, a cerimônia. Nada, eu acho, foi nos moldes tradicionais embora o casamento em si ainda tenha a conotação de tradicional. É um encontro de almas mesmo. Eu lembro do Bruno nos votos dele dizendo que ele é quem estava doido pra casar o mais rápido possível. Quando você encontra a pessoa e sabe que aquilo é pra valer, pra quê esperar? Ai você faz o casamento como quer: não precisa esperar os 30 anos, reservar a casa de festas chique, servir os canapés da moda, tirar as fotos da moda, e por aí vai. Todos os casamentos que eu vejo no Facebook hoje você não sabe onde um termina e outro começa. É tudo igual. Mas o casamento deles foi muito especial. Muito autêntico”.

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Esse é o Ronan, meu primeiro roommate depois que saí da casa da minha mãe

Dos amigos, Thaís não estava presente. Ela está morando nos Estados Unidos, mas acompanhou de longe: “Não estar lá foi um dos três momentos mais dolorosos que senti por estar longe do Brasil, junto da formatura da minha irmã na faculdade e a cirurgia do meu pai. Situações que me fizeram lembrar que eu vou estar sempre dividida, sempre perdendo coisas para tentar conseguir outras”, ela diz. Mas daqui a gente fez um esforço de cobertura – Ronan, o namorado, fez até Skype pra mostrar convites e planos de viagem. “Lembro que durante a festa [no Brasil], eu estava num churrasco aqui e comecei a receber os vídeos. Eu tinha 2 meses de Estados Unidos e eu me vi chorando como nunca chorei nos 18 meses que fiquei aqui. As pessoas que estavam em volta ficaram achando que eu estava tendo minha primeira crise de ‘homesick’, mas eu estava mesmo era transbordando de amor e de orgulho por ter amigos tão incríveis vivendo juntos um momento tão especial!”

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Esse é o Vinicius: a gente se conheceu no trabalho, mas depois lembramos que a gente já se conhecia antes, de uma festa à fantasia que ele foi de Barack Obama e eu de Blake (marido da Amy Winehouse)

“Enxugo as mãos, preparo a câmera, testo o enquadramento. Contraio a expressão e suspiro não por perceber minha falta de talento como fotógrafo, mas por querer abraçar alguém fisicamente distante”, descreve Ronan, o principal responsável por informar a Thaís de como andava a cerimônia em si. “Pensar nesse dia é acreditar no amor. Quanto a mim, vou guardar para sempre aquele mês de setembro e tudo o que ele representou.”

Thaís continua: “Depois, quando fui ao Brasil, saí com Bruno e Júlia várias vezes. Fui na casa deles e vi na TV todas as 1000 fotos que eles tiraram. Praticamente senti o gosto da comida! Depois, fui para a fazenda passar o Carnaval. Eles me mostraram os locais onde os convidados ficaram, onde montaram o altar, onde foi a festa, o banquinho que vocês sentaram pra comer etc. Achei lindo como eles fizeram questão de tentar me ajudar a desenhar na cabeça como foi aquele dia e eu realmente sinto que participei de alguma forma”.

“O casamento costuma ser uma quase-obrigação na sociedade”, Vinicius observa. “Casa-se porque a idade bate na porta, porque a igreja e os pais cobram, etc. No casamento da Júlia e do Bruno, a única exigência, a única motivação, foi o amor. Eles se casaram porque se amam. Ponto.”

É, é isso. Ponto.

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