Sucesso é a palavra mais vazia

Por trás de cada texto escrito, teve muito rascunho. De cada show impecável, muito ensaio. De cada trabalho entregue, muito suor. Mas estamos cegos, pois a gente vive num mundo onde não vemos os bastidores dos feitos alheios. Vemos as fotos da pessoa passando as férias na Europa de novo, mas não vemos fotos das refeições diminutas que ela teve que fazer por meses antes pra conseguir juntar dinheiro para viajar, por exemplo.

Isso pode criar uma grande insatisfação pessoal. Já perdi as contas das vezes que precisei que meus amigos me pegassem pelo ombro e me mandassem olhar ao redor, a tudo que eu tinha feito da/na vida, pra eu voltar a dar valor. É que você acostuma, né?

Há uma antiga história que ilustra bem isso: os homens são movidos por desejo. Vários desejos de ter e ser. Quando não temos dinheiro, desejamos tê-lo. Quando não temos amor, desejamos tê-lo. E, num exemplo bem simplório, quando temos dor de dente, desejamos não tê-la. No caso, a lição espiritual era manter vivo o “desejo de não ter dor de dente” uma vez que estejamos curados. Entende? Sou péssimo nisso. Sempre pouso minha felicidade no futuro e tenho a total certeza que serei feliz quando conseguir aquele emprego, aquele amor, aquele apartamento. É que um desejo realizado é um desejo que não ocupa mais nossa mente, partimos logo para desejar algo novo – logo, nunca estamos satisfeitos.

Perigoso demais isso de deixar tudo na mão dos outros. Especialmente pois o que é sucesso pra uma pessoa não é o que é para outra.

Nunca esqueço de um texto do Artur Xexeu, editor do Segundo Caderno d’O Globo, quando ele escreveu uma lista com as pessoas que mais lhe “encheram o saco esse ano”. Celebridades e figuras públicas de todo tipo. Na posição de número 11 estava Fernanda Young, que lhe enviou um e-mail sobre a coluna. Perceba que não quero discutir a briga dos dois nem suas personalidades ou feitos, quero chamar atenção exatamente para esses trechos pois ilustram bem essa ideia.

Fernanda escreveu:

O que você fez em 2009, afinal? Escreveu um romance que já teve sua primeira edição quase esgotada? Escreveu um filme que foi campeão de bilheteria? Escreveu uma peça que foi montada em várias cidades do país? Teve algum sucesso nos seus planos de ser entrevistador de TV? Conseguiu ficar bonito em alguma foto? É, chateia mesmo.

Em sua coluna seguinte, ele respondeu cada item do e-mail dela. Sobre este trecho acima, apenas disse:

Por fim, gostaria de saber o que faz Fernanda Young imaginar que suas vitórias pessoais são um exemplo para a Humanidade. Ela tem razão: não escrevi um romance, não escrevi um filme, não escrevi uma peça, não tive planos de ser entrevistador de TV e não fiquei bonito em foto alguma. Aliás, fico tão feio em fotos — elas são justas com meus aspectos estéticos, devo admitir — que prefiro não posar para elas. E daí? Quem disse para Fernanda Young que suas realizações são o desejo dos outros? Os meus, posso garantir, não têm nada a ver com isso.

E é isso. Podem ser admiráveis os feitos dos outros, mas e daí? O que é sucesso pra ele é também o que você considera sucesso? O mais provável é que não. E se sim, é, o que você está fazendo de diferente daquela pessoa? Sei lá, existem tantas variáveis…

No final, essa falta de noção e compaixão gera também preconceito. Perde-se a perspectiva e quem tem como meta de sucesso ser magro, por exemplo, passa a destratar quem é gordo – sendo que, muitas vezes, a meta de sucesso da tal pessoa gorda seja outra, ser gorda não a incomoda. E por aí vai: a meta do cara é passar em primeiro no vestibular, então ele destrata quem não tem diploma; a meta do cara é pegar mulher, então ele destrata homem que pega homem; a meta do cara é ser chefe, então ele destrata todo mundo “no seu caminho”.

Eu não sei ainda o que é sucesso pra mim, mas sei que nunca vou alcança-lo e meu desafio é conseguir viver tranquilo mesmo com essa consciência. Sim, pois cada meta que coloco, cada coisa que eu traço como “sucesso” muda, automaticamente, quando chego lá ou perto.

Então pra quê perder tempo com essa linha final imaginária? É muito mais legal curtir a corrida. Se eu não subir ao pódio, pelo menos posso dizer que observei bem a paisagem.

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3 comentários em “Sucesso é a palavra mais vazia

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